Tempo de polaridades

Vejo um tempo de polaridades dentro da globalização. Ainda que gostos se misturem e afinidades dialoguem, as necessidades são antagônicas no sistema capitalista. Divididos em uma sociedade de classes, onde não temos como levar o diálogo a uma esfera justa. Todo o diálogo que propusermos será anti-dialético, na medida em que para conseguirmos os nossos direitos teremos que ferir os privilégios de outrem. Se não ficou claro, falo da luta de classes, dos manifestos que somos impossibilitados de fazer, dos protestos que só podem acontecer mediante o protocolo da polícia, defensora dos direitos da propriedade privada. O que temos nós para ser defendido, além da vida que nos é privada pela falta de comida na mesa, pela falta de saúde no corpo e na mente, pela cultura escassa? Cultura que não pedimos mais, mas que desejamos produzir, livremente, sem que nos sejam restritas a quaisquer formas de expressão. Vejo um tempo de polaridades, pois os interesses estão vindo à tona e estamos percebendo nitidamente quem corre com quem. Entender o processo de mudança como uma coisa traumática é não ser tomado pela utopia da social democracia, pois nesses tempos de polaridades não poderemos fugir por muito mais tempo do posicionamento político, do entendimento da classe social a qual pertencemos, tendo emprego ou não, tendo carro ou não, morando em paredes de alvenaria ou em madeirites, pois o conceito de classe é bem mais amplo no meu entendimento. “Não há mais espaço para a luta de classes”, querem nos convencer, enfiando goela abaixo mais este senso comum fabricado sob medida. Um aluno do Mackenzie foi assaltado e na noite seguinte dez viaturas da PM estavam lá nos arredores da faculdade para coibir futuras ações de marginais. Um PM da ronda escolar, exausto pelo seu trabalho, me disse que fazia ronda em dez escolas da região. Ou seja, nesta proporção, estamos perdendo de dez a um. Não há mais espaço para a luta de classes, mas há espaço de sobra nos trens lotados, nos ônibus, nas filas das instituições bancárias para lutarmos uns contra os outros, como se a culpa fosse da mulher do caixa, do cobrador, do maquinista, do bilheteiro, todos indivíduos da mesma classe. Não há mais espaço para a luta de classes, mas há espaço para a luta da população de Higienópolis contra o metrô, luta fácil, com adesão maciça do poder público no intuito de manter o bairro “higienizado”, como já foi dito. Há a luta de classes todo o tempo, vinte quatro horas por dia e se houvesse um jornal disposto a dar esta notícia, traria a seguinte manchete: “São registradas no Brasil uma luta de classes a cada dez minutos”. E nesses tempos de polaridade, não poderemos mais nos esconder atrás de instituições religiosas, movimentos culturais, partidos (políticos ou não), de uniformes, de privilégios e pequenos poderes, pois tudo estará às claras e ficar em cima do muro significará ser um alvo mais fácil.

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