Tatuagem: marcas de um corpo deslocado

Trazer às telas o campo de questões como Tatuagem o faz não é pouco serviço. Homossexualidade, violência, autoridade, anarquia, criação são apenas partes de uma das constelações presentes no filme.

A tensão está no encontro entre o líder da trupe “Chão de Estrelas”, Clécio Wanderley (Irandhir Santos) e o soldado Arlindo Araújo (Jesuíta Barbosa), vulgo Fininha, tal como tratado por seu batalhão, dada a tonalidade de sua voz peculiar. Seria apenas a retomada de um clichê cinematográfico entre o romance do anarquista com o soldado, não fosse a trama em que tudo se estrutura. O roteiro faz questão de tomar esta tensão como o veículo de temas maiores que carrega consigo: resistência e autoridade na ditadura civil-militar, em uma época onde os quadros do poder estavam mudando (1978) e as estratégias de resistência passam a ser outras.

Corpos deslocados

De início, o mal-estar posto. Convidando-nos para o clima de cabaré, logo o filme nos corta: Fininha está sentado em sua cama do quartel, enquanto dormem os demais soldados do batalhão. Cena de silêncio que apresenta a figura deslocada do soldado. Enquanto todos despertam ao chamado da ordem, Fininha segue seu próprio ritmo, arrastando-se, enquanto os demais corpos despertam para o serviço.

Mas Clécio também não é um sujeito sem questões. Há anos na estrada da anarquia, é líder da trupe e pai de família (com a ex-mulher Deusa (Sylvia Prado) e seu filho Tuquinha). Mas suas questões não estão nesta função social, mas na criação de sua arte. Como combater um poder que, embora se mostre enfraquecido, surja com os dentes em riste? Qual a arma contra este momento da ditadura? Resposta: o deboche. Sabemos como o riso certo pode derrubar um poder. Olho por olho, dente por dente.

E seria com o corpo que Clécio e sua trupe criam e criticam. Modo interessante se pensarmos não apenas ontem, mas hoje, com tantas marchas ou criações em que o corpo procura dar registro de seu protesto. Tatuagem escapa da manifestação narcísica do corpo. O que há de belo em suas imagens não é a exaltação do corpo, mas colocá-lo em questão. Antes de mostrar-se como figura apolínea, é a farra dionisíaca que reconstrói relações e visão de mundo. Não é, pois, o corpo pelo corpo, mas o corpo em suas relações. E, neste sentido, apresenta mais do que um corpo: deixa falar através dele a história de suas vidas.

Temos assim, dois planos de corpos deslocados: entre o soldado Fininha, que procura sair dos meios mais autoritários com os quais as camadas populares são habituadas (religião e militares); e Clécio, que procura deslocar a todo instante de seus espetáculos o corpo com que habituamos a viver. Mais ainda, deslocamento que se dá no lugar do encontro entre estes dois universos: nas periferias das cidades nordestinas.

 

Cinema deslocado

Perder-se-ia muito se tirarmos Tatuagem do contexto em que é produzido. É de se pensar o diálogo criativo que vem do cinema pernambucano (se é que se pode territorializar deste modo…). Imaginemos que junto a este filme de Hilton Lacerda (pela primeira vez como diretor, mas roteirista de nada menos do que Amarelo Manga, A Festa da menina morta, Febre do rato e Árido Movie) outra série de filmes questionadores e ousados, bem distantes da Globochanchada que coloniza a todos.

Atentar para estas vozes do nordeste passa a ser fundamental. Tomar o seu olhar para olharmos a nós próprios. E imaginar, pelas ruas de Recife, o diálogo intenso entre as imagens projetadas por Tatuagem e, por exemplo, O Som ao redor. Que tipo de significados sairão desta nova matéria cinematográfica?

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