S/T – Prosa

a guerra havia começado. e eu me via sozinha com aquelas roupas. e não eram as roupas mais apropriadas. e só aos poucos me dava conta das armas que tinha. eu tinha uma arma. e quase a deixava de lado enquanto me defendia dos assaltos todos. a noite era escura. e os assaltos vinham de um topo que se estendia ao horizonte. vinham cavaleiros. cada cavaleiro tinha uma chance de acertar. acertar-me. era um por vez. uma chance por vez. às vezes mais rápido. eram lanças vermelhas. lanças que eram tiros. flechas atiradas. que caíam em poesia. em risco. em sombra de dor. e eu conseguia me defender de alguma forma. apesar de toda aberta. eu estava sentada. sentada com a bunda ao chão. atrás de uma árvore magrela. e só muito lentamente tomava parte da cena. tudo era lento. a consciência era lenta. reconhecer a guerra. a terra. a solidão na guerra. na terra. e então senti uma intuição anterior de que devia ir para a direita. essa era a palavra da intuição. eu fui instintivamente para a direita. a flecha caiu na minha perna. feriu. doeu. e eu avistei o cavaleiro. aquele que estava na mata mais perto. e mais à minha esquerda. eu olhava o sangue escorrendo e quase não acredito. não, eu acredito. eu acreditava. era bonito. uma dor bonita. a intuição é sempre uma ferida. eu quase me entregava. e senti aquele sangue aquela flecha com as costas na parede. encostadas. num movimento lento de uma rapidez existente e precária eu fui. eu peguei a arma e tomei-a como minha. enfiei-a meio sem jeito naquele casaco quase de guerra que era meu e me vestia. eu começava a entender o quadro. a intuição é sempre uma ferida que traz sentido. eu firmei meus pés no chão: ainda de joelhos. olhei o todo. e vi o outro cavaleiro. olhei-o todo. no mesmo lugar: daquele que era perto. vi sua arma que me fitava com uma linhaluz vermelha. e resolvi mesmo assim sair. a única coisa que me protegia era aquela uma árvore magrela. minha proteção ilusão: ela não existia. eu estava é coberta por um manto divino, enquanto não chegava a hora de partir. chegou a hora. a ferida já não se via. mas era ferida. eu levantei e fui. corria fugindo da linhaluz. Ah não ela não ia me pegar. e aquele cavaleiro deveria perceber que a inocência havia chegado ao fim. eu já corria como uma mulher. uma mulher foge do perigo. eu encostei em outra árvore. quase pedi proteção. mas eu vi que podia continuar correndo e era aquela curva adiante minha proteção. existia. a única coisa que protege uma mulher é o caminho. ou ela anda. ou se fode. eu iria embora. ele – o cavaleiro – ele teria de correr e descer o morro pra me alcançar. Eu corria. Corria. Corria. Corria. antes que o amor doesse. antes que a ferida rangesse. eu corri em liberdade. a liberdade de quem foge com as próprias pernas machucadas dois homens adiante. um velho um novo. marginais mendigos fora da guerra: solitários. indicavam uma dobra à esquerda. eles pareciam um sinal. nada faziam que não comer algo. se olhavam olho à olho. ali ali eu deveria dobrar à esquerda. parei um pouco. contemplei a cena. e quase desisti. deixei que o cavaleiro se aproximasse. ele me pegaria de qualquer jeito. Porque correr? Cedo ou tarde eu seria tomada. Corri. e na dobra à esquerda: a floresta. verde. verde escura. negra encantada. eu senti medo. medo. e de toda a insuficiência das minhas entranhas, sentia nessas entranhas o poder do que é mágico. mágico e perigoso. olhei pra rua da cidade que ficava atrás de mim. não ouvi o cavaleiro, mas sabia que ele estava cada vez um respiro mais perto. tinha de ser assim.  tomei fôlego. e meu corpo já estava com os pés fincados ao chão. a cena era orvalhada por  aquela planta adiante. Eu ia. Ah eu ia.

trecho do romance AFAT (2003-2009) ainda sem publicação

Heloiza Abdalla (Mogi das Cruzes, 1987). Reside e trabalha em São Paulo. Poeta. Medita a linguagem e a compreensão do tempo na Astrologia e no centro da filosofia de M. Heidegger. É graduada em Ciências Sociais pela Unicamp e colabora com projetos de arte e cultura.

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