Sou datilógrafa e virgem e gosto de coca-cola – Crítica Literária

“Há os que têm. E há os que não têm. É muito simples: a moça não tinha. Não tinha o quê? É apenas isso mesmo: não tinha”[1]. “Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si em si mesma”[2]. Pela macabéa que todos nós fomos, pela macabéa que todos nós nos tornamos às vezes, Clarice criou um verbo: macabear! Criou sabendo da pessoa que macabeando na vida iria escrever, após “A Hora da Estrela”, por onde passasse: “E porque acreditava em anjos, eles existiam”[3]. Escreveria mesmo sem saber qual o livro, muito menos a página e menos ainda que isso fosse macabear. Sem saber por que e nem de onde vinha, achou bonito e copiou, se identificou com a frase solta e, estando assim, já sem sentido – a frase e ela – macabeou! Porque é bonito, porque é cult, porque é moda! “Nem se dava conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável”[4]. “Não sabia que ela era o que era, assim como um cachorro não sabe que é cachorro”[5]. “Quando acordava não sabia mais quem era. Só depois é que pensava com satisfação: sou datilógrafa e virgem, e gosto de coca-cola. Só então vestia-se de si mesma, passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser”[6]. Esse macabeamento todo me faz ter raiva de coisas que podem ser boas, a Clarice é ótima e só o pude saber depois de parar de macabear – às vezes pelo macabeamento, às vezes por macabear. Macabeei por boa parte da minha vida e talvez ainda esteja eu macabeando, surtando em conceitos tortos em um mundo todo inventado, julgando não macabear, talvez esteja eu a vagar pela vida ao desacreditar nela e ao preferir a minha cama a erguer-me e alcançar o mundo que penso, o mundo que leio ou o mundo que ainda preciso ler. Porque eu só penso nele e só penso que estou nele, ou eu nem penso. Não! Eu não macabeio! Eu pelo menos penso que não penso nele ou penso que não estou nele do jeito que penso. Então, macabeio! Clarice criou o verbo sabendo que até os que iriam pensar em sua condição no mundo macabeariam um dia e que nesse dia o refletir também seria parte do macabear? Não! Clarice criou o verbo para a não-reflexão, para a moda-irreflexiva, mas também para o caos que está diante dos olhos de apenas aqueles que fazem reflexão.  Criou sabendo da pessoa que macabeando na vida perderia noites de sono pensando no vestido de casamento em vez de pensar sobre o que pensa e o que quer pensar sobre o casamento. Criou sabendo da pessoa que com qualquer tempo de chuva armado no céu, enfia-se debaixo da mesa, da pessoa que acha que cresceu, que acha que acha e que acha que pensa e que acha que acha que acha que pensa. Sim! Ela criou o verbo sabendo que até mesmo o refletir seria parte do macabear. Porque “refletir” é chique! E a Pin-up contemporânea é sinônimo de mulher inteligente, ou melhor, cult!  Uma confusão de espelhos e de conceitos de moda que englobam outros conceitos – estereótipos. Clarice criou o verbo não apenas para as macabéas e macabeos, mas para aqueles que macabeariam. E eu sei que ela já sabia disso!


Livro “A Hora da Estrela”: [1] Página 2, [2] Página 24, [3] Página 39, [4] Página 29, [5] Página 27 e [6] Página 36

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