Sobre “Como falar de coisas que não existem”

downloadO título da 31a Bienal de São Paulo, em cartaz de 06/09 a 07/12 deste ano, “Como falar de coisas que não existem”, aparece no material de divulgação variando o verbo, de modo bastante instigante; por exemplo, “Como imaginar coisas que não existem”, ou “ouvir”, “escrever sobre”, “usar”, “lutar com”, “sentir”, “aprender com” as coisas (ainda) inexistentes. No texto que apresenta o “processo” pode-se ler que “esta não é uma Bienal fundada em objetos de arte, mas em pessoas que trabalham com pessoas que, por sua vez, trabalham em projetos colaborativos com outros indivíduos e grupos, em relações que devem continuar e desenvolver-se ao longo de sua duração e talvez mesmo depois de seu encerramento”. Verdade: apesar do antigo ditado “ars longa, vita brevis”, pessoas são mais importante do que arte. Brecht já perguntava se o Parthenon vale a vida dos escravos que o construíram. A questão é que pessoas precisam de arte (“a gente não quer só comida”), precisam de formas de atravessar o prosaísmo do dia-a-dia, e escolher pessoas não precisa, necessariamente,  significar abrir mão das obras de arte. Objetos de arte, como prefere o texto oficial, incluem sujeitos – tanto do lado do artista criador quanto do lado do espectador. A experiência estética há muito é reconhecida como a experiência que arranca o sujeito do mundo real ao propor-lhe uma forma nova através da qual pode-se experimentar sentimentos e emoções, “das quais talvez nem nós julgássemos capazes”, conforme escreveu Freud. E quem volta à chamada realidade depois desse encontro é um sujeito que passou por uma experiência transformadora.

Então, se as mencionadas “pessoas que trabalham com pessoas” fazem isso através da arte, por que desconsiderá-la? Por que hierarquizar?  Por que o prosaísmo ao invés da poesia? As obras que se encontram no pavilhão do Ibirapuera não são capazes de produzir a esperada afecção sensível, nem de transformar as pessoas que podem, potencialmente, serem transformadoras. Com raras exceções, a maioria é formalmente menos tocante do que os grafites realizados na avenida que leva ao museu. Se a intenção era mostrar o desejo das ruas, ainda sem uma forma acabada de expressão, as ruas fazem isso melhor.

Visitei a mostra, em companhia de três amigos, uma artista plástica, uma curadora e um músico. Em maior ou menor grau a visita foi decepcionante: a curadora considerou a Bienal “inexistente”, o músico observou que as obras não apresentavam nada além das conhecidas formas de protesto já bastante batidas, a artista plástica sentiu falta da “arte”. Em certa medida, concordo com os três. Chamou-me a atenção, em um primeiro momento, o vazio. Nunca havia visto uma Bienal tão despovoada, de obras e de povo. Depois, a banalidade: nas formas das obras expostas repetem-se aquelas do mundo prosaico cotidiano, sem a necessidade que move estas últimas. A tentativa de captar expressões de insatisfação com, e de recusa ao, estado de coisas existente foi realizada em um nível muito aquém daquele presente no vigor das manifestações populares. Em outras palavras, as obras estão por demais coladas no mundo da vida, de modo bastante imediato, como se a urgência impedisse a busca de formas expressivas capazes de chacoalhar as sensações.

A Bienal, de fato, não realiza a fabulosa passagem à dimensão estética, através do jogo das formas imaginadas para além da realidade em curso. Nas palavras do atual presidente da Fundação Bienal, “como falar de coisas que não existem pode parecer, à primeira vista, um tema abstrato” – e fica mesmo abstrato quando as formas encontradas são as mesmas já existentes. Novas formas são precisas quando se deseja dizer o que ainda não é. Não é no já existente que se pode encontrar a forma do que não existe.

O problema da bem intencionada curadoria, composta de cinco curadores e três curadores associados parece refletir-se na imagem do cartaz: uma figura com oito pernas (uma para cada curador?) e o resto do corpo encoberto, como que caminhando `as cegas.

Das mencionadas raras exceções, menciono apenas uma, capaz de transformar uma forma de expressão comum em elemento catalisador no que diz respeito a imagens mentais e poéticas: o trabalho “Não ideia”, de Marta Neves. Composto de faixas pintadas como estas que se vêem nas ruas anunciando produtos, cumprimentando pelo aniversário, ou fazendo algum tipo de declaração, com suas duas ou três linhas, as faixas espalhadas dentro e fora do prédio criam histórias repletas de possibilidades, ligadas à importância de uma boa ideia. Por exemplo: “Cássia pensou em pedir ao otorrino que a deixasse surda, já que não tinha ideia de como fazer sua mãe parar de gritar” – o grifado está em vermelho no original e a palavra ideia nas várias (poucas) cores usadas na pintura de faixas – ou,  “C. nunca teve ideia de como abordar sexualmente seu ex-professor de economia e atual prefeito, e amarga até hoje sua vida de homossexual solitário”.

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A incrível apologia à ideia, presente na situação de sua falta, feita em um material tão popular, surge como excelente contraponto à grande – e mal aproveitada – ideia de falar, imaginar, ouvir, usar, sentir o que não existe. A artista de Belo Horizonte une forma e ideia de um modo que faz jus à origem grega desse último termo, onde os dois sentidos também se entrelaçam. Fica o recado das Minas – e da mina, como diz o povo.

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