Silêncio, o cinema está de luto. Ao mestre Carlos Reichenbach

É difícil escrever sobre o Carlão. Não só pela dor de perder meu mestre, minha maior referência no ofício que escolhi para a vida. O fazer cinema para mim tem a ver com ele. Com os conhecimentos que ele sempre passou nas conversas generosas em sua casa. Com a simplicidade que ele tinha com a vida. Com seu modo revolucionário de amar os filmes.

Nas conversas com Carlão os temas variavam: do cinema obscuro de um diretor desconhecido, à reverência a artesãos nem sempre lembrados. Do canto dos pássaros que habitavam sua área de serviço à alegria que suas netas Juju e Carolina lhe trouxeram. Em janeiro fiquei emocionado quando Carlão apareceu na festa da minha filha Bebel, com suas duas netas e com sua filha Eleonora, amiga querida desde os tempos da escola. Sabia que ele não andava bem de saúde e sua presença me deixou muito feliz.

Carlão me ensinou e ensinou a muitos a fazer filmes. Fazer cinema, respirar cinema. Ver (muito) e conhecer profundamente esta arte. Jamais descansar em conhecer o novo. Sentir a vida. Andar e perceber a cidade. Ser parte dela. Carlão foi o maior cronista de São Paulo. Captou como ninguém a loucura desta metrópole em filmes que fazem parte da minha cinemateca afetiva: Filme Demência (o maior filme da história do cinema paulista e um clássico do cinema mundial), Alma corsária, Anjos do Arrabalde.

Os filmes do Carlão despiam a gente do preconceito. Ele sabia como ninguém captar o humano onde todos viam dejeto. Era radical frente à mediocridade, generoso com o mundo. Uma pessoa doce, afetuosa, sincera. Quando eu desisti do cinema Carlão não teve pudores em me chamar de burro. Quando vacilei e tive dúvidas ele foi um guia e indicou caminhos (nunca uma verdade, sempre verdades possíveis). Me orgulho em dizer que se faço cinema hoje é porque tive o privilégio de conviver desde muito cedo com Carlos Reichenbach. Meu mestre. Meu amigo. Fico felz de saber que Carlão me chamava de seu aluno. Não fiz parte de seus alunos “formais” que tiveram o privilégio de estudar com ele em sala de aula. Fui seu aluno na vida.

Levei meu último filme para Carlão dar seu veredicto (fiz isso com todos os meus filmes). Piove, il film di Pio foi rejeitado por diversos festivais. Mas isso deixou de ter importância quando Carlão publicou o maior elogio que recebi em toda minha vida: “Ontem, vi em primeira mão (e – já – sem óculos) o novo filme do Thiago Mendonça (“Minami em Close-Up”), IL FILM DI PIO (sobre/com Pio Zammuner). Fiz as pazes com o cinema brasileiro recente! Mendonça é o futuro….”. Suas palavras me fizeram acreditar no caminho que venho trilhando.

Meu primeiro curta estreou em Brasília. Carlão fazia parte do juri e foi seu maior entusiasta. Em seu blog, no dia da premiação ele publicou o seguinte texto, com o título O ouro de Brasília: “MINAMI EM CLOSE-UP, de Thiago Mendonça. Carinhoso e irreverente tributo ao cinema da Boca-do-Lixo; nunca nostálgico, ressentido ou oportunista. Pessoas que me são muito queridas, como Cláudio Cunha, Patrícia Scalvi e Luis Castillini dão depoimentos essenciais a respeito da extinta revista Cinema em Close Up, reverenciada por intelectuais como Paulo Emílio Salles Gomes ou cultores do erotismo nativo, do cinema sapeca, libertino e popular da década de 70. Mendonça realizou o mais gratificante e bem humorado inventário sobre o chamado “cinema das bordas”, com destaque especial para duas exuberantes e explícitas homenagens aos clássicos experimentais O PORNÓGRAFO, de João Callegaro, e O GURÚ E OS GURIS, de Jairo Ferreira (na sequência do “fogo” deflagrador da confraria, num bar da Rua do Triumpho).” Tempos depois o filme passou no Cine Comodoro, reduto cineclubista comandado por Carlão no Cinesesc. Foi a sessão mais bonita da minha vida, por conta da apresentação afetiva que ele fez do filme. Lembro dele me apresentar como “seu aluno”. E isso me deixou muito, muito orgulhoso.

Nos últimos tempos Carlão pensava em se dedicar à escrita, pois percebia que o coração não aguentava mais o rítmo de uma filmagem. Em seus textos defendia incansavelmente o compartilhamento virtual de filmes. Ele me contou (em segredo) que entrava clandestinamente em sites para disponibilizar melhores cópias de seus filmes.

Nunca consegui retribuir à altura o carinho que recebi do meu mestre. Nunca lhe falei o quanto gostava dele, o quanto aprendi com ele, o quanto ele foi responsável por eu dedicar minha vida ao cinema. Nunca falei o quanto gostava de seus filmes.

Quando tinha 14 anos, em uma festa da sua filha Eleonora, tive uma conversa decisiva com Carlão que me disse: “Você tem que fazer cinema”. Isso ficou em mim. Consegui fazer meu primeiro filme 16 anos depois. Mas sempre tive a certeza de que aquele era meu destino. Fiz do cinema minha religião. E não tenho dúvida nenhuma, Carlão foi o Exu que ligou a vida ao sonho. E fará sempre parte do meu panteão. Evoé Carlão…

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