Silêncio e Interditos da Memória

Contra o esquecimento, Marcuse dizia que a memória é capaz de recordar, em igual medida, tanto o terror quanto a esperança: o primeiro, na forma de cicatrizes e traumas nunca completamente curados; a segunda, na forma de promessas de felicidade que projetam um mundo diferente do estabelecido a partir das feridas não fechadas do passado.

O terror não rememorado retorna na história. E por quê? Porque somos impedidos de reelaborar e revisar nosso passado a partir da experiência empírica e dos projetos políticos de indivíduos e grupos sociais que viveram a violência, íntima e concretamente. Ora, o século XX nos explicitou essa estratégia comum dos governos autoritários, que consiste em eliminar definitivamente da memória os traços de Quem se opõe a eles. Da fumaça dos incineradores de Auschwitz aos inúmeros corpos amontoados na vala clandestina de Perus, sempre se trata de um duplo assassínio: dos próprios indivíduos e das expectativas políticas que cada um deles encarnava. Daí porque o desaparecimento de uma memória individual leva, necessariamente, à dissolução da própria memória social.

Há apenas memória social. Portanto, não devemos nos esquecer de lembrar: a amnésia coletiva é algo que absolutamente não nos é permitido. A tarefa urgente de recuperar os traços apagados de Quem foi vítima direta ou indireta da ditadura brasileira não pode se reduzir à elaboração de tristes biografias que, não raramente, culminam num heróico calvário. A palma do martírio ou os louros do heroísmo contribuem, tanto quanto as pás de terra sobre ossadas anônimas, para a anulação da memória. Cada uma dessas estratégias espolia a memória social dos seus traços, seja apagando-os, seja individualizando-os: ou o nome desaparece da história ou ele ganha um lugar privilegiado na história. Por isso, Quem acha que é preciso dedicar alguma atenção a essa estratégia cada vez mais recorrente das direitas: o apelo à história como instrumento privilegiado de uma política do esquecimento.

A memória é muito mais do que um deslocamento até o passado, muito mais do que um mecanismo de conhecimento histórico; ela constitui o próprio semblante desse passado no presente, a condição de possibilidade da história. Logo, o exercício da memória não é só uma inflexão em direção ao terror vivido; antes disso, é um advento e uma captura das necessidades e esperanças presentes, quer dizer, um momento libertador da lembrança. Quem acredita que a memória de um povo é uma forma política bastante profícua de resistência a qualquer tipo de barbárie, pois admite estabelecer uma ligação mais fidedigna entre passado e presente, combater o esquecimento (traumático e social) e fortalecer, tanto a identidade de cada afetado pela violência, quanto a memória do grupo de afetados pela agressão, pelo subjugo e pelo silenciamento.

A memória funciona, simultaneamente, como uma condição e uma arma política de combate capaz de testemunhar e investigar a violência havida. Então, tendo em vista que só há memória social, devemos retomar os traumas individuais de modo a reconfigurá-los socialmente, ou seja, despsicologizando-os, desvitimizando-os. Vitimizar implica despolitizar, porque só se leva em conta o sofrimento traumático individual, apagando o alicerce de todo processo histórico-político. E a analise desse processo histórico-político demonstra que a ditadura civil-militar no Brasil veio para garantir a manutenção de certo estágio do capitalismo brasileiro, aniquilando décadas de organização social em torno de projetos socializantes.

Assim, Quem acredita ser urgente, no atual momento histórico, lutar por uma reelaboração do passado unida à autocrítica do presente: reelaborar e revisar o passado, sim, mas sempre atribuindo sentido crítico ao presente, ou melhor, sempre tendo em conta os despojos sobre os quais nossa memória social está se constituindo. Se a memória for lida nesses termos, quer dizer, como instrumento de mediação histórica, cultural, social e política, fazer uma “reconstrução” dos projetos políticos do nosso país é um imperativo.

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