Serbian Film – o filme fascista e o demo censor

A neo-censura no Brasil tem Partido. O demo (cratas) ou PFL ou Arena, esta mutação partidária do que foi a força política hegêmonica do país nos anos de chumbo. Portanto não é nenhuma novidade que os demos carreguem em seu DNA o gosto pela tesoura. Noves fora o disfarce fajuto de democratas, trata-se da mesma Arena política do AI-5 tentando o impossível – revestir de roupagem humana velhos corpos de suínos.

O que surpreende portanto neste novo capítulo da história da censura no Brasil (Serbian Film é o primeiro filme censurado após a volta à democracia) não é o gosto pela interdição, mas sim o conteúdo interditado.

Há quem compare “Serbian Film” a Saló de Pasolini. Nada mais estúpido. O filme do italiano era um libelo contra o fascismo que voltava a contaminar a política na Itália nos anos 70. A violência da denúncia de Pasolini tinha endereço claro e estética rigorosa. Nada mais distante do filme sérvio.

Serbian Film é um filme contemporâneo. Típico de uma juventude que mistura sem nenhum pudor a estética da MTV e a ética de esgoto do Vaticano. É o moralismo extremado revestido de linguagem moderna. Sua estética em alguns momentos namora a publicidade, em outros é um arremedo de filme independente norte-americano. O discurso é claro – a imoralidade e a pornografia levam o ser humano à bestialização e degradação.  A pedofilia aparece como o mais baixo grau que o ser humano pode chegar em sua irracionalidade sexual. O personagem central é um ator pornô, pessoa apta (para o diretor do filme) a cometer os crimes sexuais mais brutais se colocado em uma situação extrema.

Onde portanto está a novidade da censura dos “demos”? Ao proibir Serbian Film, eles interditaram o próprio discurso moral no qual se apóiam.

Mas há mais uma semelhança óbvia entre este filme e a neo-direita brasileira. Ambos se travestem com roupagem moderna para defender a velha ordem de interesses dentro do espectro ideológico no qual se encaixam. E mais: ambos possuem explicações semelhantes para as mazelas de seu país: a degradação moral e o materialismo sexual (ou libertinagem) agridem a ordem tradicional e são as causas de uma crise maior (espiritual?) do homem contemporâneo. E é em nome da ordem (ou dos costumes da família) que devemos interditar sexualidades desviantes, comportamentos imorais e filmes que não reflitam os hábitos e tradições estabelecidos. Em resumo: ambos defendem o discurso fascista da sexualidade “desviante” como pornografia e perversão.

Os demos sem saber interditaram o próprio discurso. Para agir de modo diferente precisariam ver o filme antes de censurá-lo e para além disso compreendê-lo. Se assim fizessem, dariam as mãos ao diretor sérvio. O fato é que vivemos neste momento uma situação inusitada: um filme fascita barrado por uma interdição fascista. Meu desejo mais íntimo é que Srdjan Spasojevic (o diretor sérvio) abrace nossos demos e explique para eles suas razões. Que feito isso iniciem um namoro casto. E que mais tarde, após um longo e púdico abraço, se joguem do mais alto abismo, em direção ao vazio que a censura e o filme trazem ao pensamento.

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