Santa Efigênia, Boca do Lixo, Cracolândia

Todos os anos, principalmente em ano eleitoral, assistimos o mesmo espetáculo nos programas jornalísticos, depois repetidos exaustivamente nos horários políticos. Operações militares de vulto ocupam a cracolândia paulistana. Os viciados em pânico espalham-se pela cidade. Três ou quatro supostos traficantes são presos e alguns hotéis fechados. Renovam-se as promessas de revitalizar o espaço, a volta aos tempos áureos da região. Propositalmente confunde-se a história dos Campos Elíseos (este sim outrora nobre), com a do Bairro de Santa Efigênia, onde se localiza a Cracolândia, numa promessa mítica de volta à uma belle époque tão glamurosa quanto falsa.

A chamada Cracolândia está localizada no bairro de Santa Efigênia, ao lado dos Campos Elíseos. O bairro de Santa Efigênia já conhecia a prostituição desde o século XIX. Foi celebrado indiretamente por Álvarez de Azevedo em suas Noites na Taverna (era ali que ficavam os inferninhos frequentados pelos estudantes de direito do Largo do São Francisco). Bairro de maioria negra e índia, da população menos abastada que fora jogada pro outro lado do Vale depois da limpeza urbana que derrubou a 1a igreja dos homens pretos do centro, localizada ali onde vemos hoje o prédio do Banespa.

Nos anos 40 a região era ocupada em grande parte por cortiços e habitações populares. A “saudosa maloca” cantada por Adoniran Barbosa era inspirada nas casas populares que se localizavam na Rua Aurora, derrubadas em uma das muitas tentativas de higienização.

Nos anos 60 a região fica conhecida como Boca do Lixo, em contraponto à Boca do Luxo (região da Vila Buarque e adjascências, frequentada pela elite paulistana). Ou seja, a Santa Efigênia era região da “baixa” prostituição. A Boca do Lixo, hoje Cracolândia foi palco do maior núcleo de produção do cinema brasileiro nos anos 70 (concentrada principalmente na Rua do Triunfo). Foi palco também de grandes encontros musicais devido às diversas lojas de instrumento de percussão e cordas (principalmente na Rua General Osório). Ali surgiram algumas das melhores rodas de choro e de samba de São Paulo.

A Boca do Lixo, Cracolândia, Santa Efigênia foi desde sempre o Bairro do populacho que se movimenta, que cria, e que luta contra o poder instituído para continuar a existir. A história do bairro é a história de resistência aos diversos projetos de limpeza e higienização há pelo menos 60 anos. Tornou-se moeda comum em tempos recentes considerar Santa Efigênia como um pedaço do bairro Campos Elíseos. Esta pequena confusão geográfica ao que tudo indica é parte do proposital apagamento da história da região. Ao abandonar a história dos populares que sempre ocuparam o bairro, torna-se possível defender a volta aos míticos “tempos áureos” do passado, como o faz Andrea Matarazzo, secretário da cultura, pré-candidato a prefeito e um dos orquestradores da atual limpeza do centro. Nega-se a partir daí tudo o que há no lugar: sua cultura, seu povo, sua história.

Por isso a confusão proposital que se faz entre os diversos moradores da região e os usuários de crack (como se os vários prédios localizados na região fossem ocupados só por traficantes e viciados). Confusão que começa pela imprensa, continua na política e  termina nas violentas ações militares.

Por isso a imprensa ignora a intensa mobilização dos comerciantes da Santa Efigênia para não serem desapropriados pelo projeto de limpeza urbana, denominado “Nova Luz”. Protestos tornados invisíveis pelos meios de comunicação, ocupados em lembrar com saudosismo os tempos áureos que nunca existiram.

Por isso em 2009 retiraram a já tradicional Rua do Samba Paulista da Boca do Lixo e a jogaram para o Anhamgabaú. A Rua do Samba é um evento popular que chega a juntar 5 mil pessoas em suas apresentações. Ele acontecia na Rua General Osório, próxima à erudita e elitizada sala São Paulo, sem apoio estatal, justamente no lugar onde os políticos prometiam construir um corredor cultural. Mas nem todas as culturas são válidas. A Rua do Samba foi desalojada. Na mesma esquina, num antigo prédio, foi aberta uma escola de música. Não a música da patuléia, das batucadas, breques e sincopados, mas uma música “de nível!” Na rua onde acontece a mais tradicional roda de choro de São Paulo, onde o samba paulista ferve, onde talentos e mais talentos populares da cidade exibem um pouco de sua arte, surgia a escola Tom Jobim.

As políticas públicas da região nunca foram direcionadas para o bem estar da população, para resolver este grave problema de saúde pública que é o crack, nunca se voltaram para a habitação popular e para a valorização da cultura local. Ao contrário, sempre foram calcadas numa expectativa de transformar aquela região em um grande acontecimento imobiliário. Trata-se simplesmente de tirar os que vivem ali e colocar outra coisa no lugar. Não se trata de resolver o problema, mas aproveitar o problema criado pelo total abandono de políticas públicas, para transformar aquela região em um paraíso da especulação imobiliária, gerando divisas para empreiteros, especuladores, políticos e empresários. O discurso se repete com maior ênfase nos governos do PP, PSDB, DEM e PSD, e com mais timidez na Gestão do PT (de Marta Suplicy).

Por fim muitos repetem que até a prostituição sumiu do bairro por conta da cracolândia. Isto é falso. A prostituição continua (r)existindo na região. A diminuição se deve justamente pela política violenta e covarde da prefeitura e do governo do Estado, que autorizam a barbárie policial frente às garotas de programa, ao mesmo tempo que lacram e desapropriam a maioria dos prostíbulos que ali existem. Uma forte política repressiva instalou-se nos últimos anos em torno do “mercado do sexo” da região. Algumas ainda resistem, mas a maioria migrou para bairros onde a repressão é mais leve.

Lembremos as palavras de Gabriela Leite, presidente da Daspu e ex-prostituta da Boca do Lixo: “as pessoas sofrem, mas elas voltam.” E um dia, espero em breve, a história da Boca do Lixo será a da saga da construção de um bairro popular no coração de São Paulo, e não mais a crônica dos fracassos higienistas.

Neste dia, precisamente neste dia, pela primeira vez muitos sentirão algo novo. O orgulho de fazer parte desta cidade máquina, demolidora de utopia, convertida em vertigem e sonho.

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