Rodas Sagradas Da Tradição Africana: Espaços De (Re) Construção Das Identidades Profundas

“Canto, música e dança – presentes nas rodas sagradas africanas – revivem nos textos da memória coletiva – as páginas das grandes narrativas orais que embalam os sonhos e realizações dos diversos povos do continente negro.” (Léopold Sédar Senghor)

As três rodas sagradas do universo afrodescendente brasileiro formam o espaço onde ocorre a maiêutica[1] africana. As rodas de candomblé, samba e capoeira dão a liga necessária para que aflore a experiência tradicional de povos africanos, nos seus aspectos mais singulares: o canto, o toque a dança.

O candomblé – pelas características já apontadas pelo antropólogo francês, Roger Bastide (1898 – 1974) – permitiu aos africanos a constituição de uma linha de corte, entre a sociedade global e seu macro-universo tradicional – cartografia cósmica e geográfica – reinventado no terreiro sagrado, dentro dos padrões e valores africanos.

A despeito da violência da escravidão, os afrodescendentes tiveram à sua disposição uma manancial de conhecimentos tradicionais, que lhes permitiu a reconstrução de sua identidade e do seu ecossistema humano, em simetria com a experiência africana.

Assim, esse espaço sagrado converteu-se na pedra angular que serviu de modelo para as demais rodas. Tanto o samba como a capoeira – e as demais rodas que estão nas fronteiras de ocorrência do futuro – beberam dessa fonte cristalina de conhecimento.

ORALIDADE.

Nessas rodas, encontraram-se três experiências profundas da continente africano: o canto, a música e a dança. A onda que embalou essas experiências foi a oralidade, fator fundamental da compreensão do universo negro-africano.

Para muitos dos povos africanos, a oralidade não é a incapacidade de produzir textos grafados, como se acreditou e se difundiu no ocidente. O africano tem uma ligação intrínseca com a oralidade. Ela é um fio permanente que o conecta com seus ancestrais, com sua história e com sua identidade mais profunda.

Amadou Hampâté Bâ (1900 – 1991) – um dos grandes tradicionalistas africanos – destacou que, para os povos do continente negro, a oralidade tem duas dimensões: uma ascendente – do homem em direção ao sagrado – e outra descendente – do sagrado em relação ao homem. Isso faz com que, segundo ele, a oralidade é mais do que uma mera forma de comunicação. Ela é um instrumento poderoso de preservação do hálito sagrado, concedido pelo ser supremo à humanidade. A função da humanidade é preservá-la, cristalina e livre da mentira. Para muitas sociedades africanas, a mentira é um erro imperdoável.

Por essa razão, o espaço sagrado do candomblé tornou-se local privilegiado para o exercício da oralidade.

Os cantos sagrados são as formas musicadas das grandes narrativas africanas: histórias de heróis fundadores de tradições, grandes visionários das sociedades africanas, mulheres poderosas que fundaram reino e reorientaram os destinos da humanidade. Esses cantos presentificam o passado ancestral, e reproduzem o momento em que o sagrado emergiu na terra. O ancestral – orixalizado ou ancestralizado – apresenta-se ao seu descendente, e com ele toca e dança, mobilizada e renova a existência.

O estadista e poeta senegalês Léopold Sédar Senghor (1906 – 2001) destacou a importância da dança para o africano. Ao dançar, explicava ele, o africano coloca-se em sintonia com o movimento do cosmo. Para o africano, o corpo não é a prisão da alma. Ele a completa e o coloca em consonância com os sons que vibram o universo africano: eu sinto o Outro, eu danço o Outro, então eu sou, acentuou Senghor.

Canto, música e dança – presentes nas rodas sagradas africanas – revivem nos textos da memória coletiva – as páginas das grandes narrativas orais que embalam os sonhos e realizações dos diversos povos do continente negro.

DIMENSÕES.

Nessas três rodas, reinventam-se as quatro dimensões presentes na maiêutica africanas: a dimensão cósmica, a dimensão mística, a dimensão sociológica, e a dimensão pedagógica, apontadas por Joseph Campbell (1904-1987), quando desvendava as funções do mito nas sociedades antigas e modernas.

As rodas trazem à tona a complexa cosmologia africana, onde impera a dinâmica, a mudança, a incerteza, a transformação – destruição criativa, criação destrutiva -, o movimento perpétuo. Nessa rede de forças que se encontram e se entrechocam se tece o universo mutante das tradições africanas. A existência é um fluxo permanente que corre num rio sem fim. Para muitos povos africanos, o criador não criou o mundo num número de dias predeterminado, mas deu inicia à criação, que se desdobra no infinito.

Ao invés de um universo plasmado, idêntico a si mesmo, despontasse a visão de um universo que se reinventa, criativamente, a cada movimento, a cada ação.

Universo que se desdobra em duas dimensões: uma dimensão real e outra, virtual, em comunicação permanente. O mundo dos ancestrais, das forças cósmicas, do sagrado, comunica-se com o mundo da humanidade, com o mundo da história. Nos atos sagrados, num solo sagrado, e na liturgia conduzidas por pessoas sagradas, abre-se um portal onde material e imaterial se encontram, e os ancestrais vêm dançar, cantar e conduzir os destinos dos seus descendentes – filhos, netos, bisnetos, tataranetos.

Dessa forma, o ancestral é um ser ativo na vida dos descendentes e na condução dos destinos e atos da comunidade.

A dimensão sociológica apresenta o quadro da organização das tradições africanas. Nela, os velhos e as velhas ocupam espaço especial e de destaque. Sua presença tramite a força daqueles que experimentaram o sabor da vida, por longos fios de vida, e os transmitem para a sociedade. Essa é a razão de se ter por todo o continente africano o conceito de que o velho e a velha são bibliotecas vivas de seus povos, onde estão arquivadas as memórias individuais e coletivas. Nessas sociedades o velho e a velha não são descartáveis. Eles são os epicentros da sociedade e da comunidade, seus conselheiros.

Condutores nas questões morais – regras sociais compartilhadas -, nas questões éticas – regras de conduta que se aplicam no cotidiano e procura responder às novas e velhas demandas-, e nas questões deontológicas – regras de conduta dos iniciados nas tradições africanas, os preservadores dos segredos sagrados.

Nessa dimensão, destaca-se, ao lado dos velhos e das velhas, a figura da mulher. Para muitos povos africanos, a mulher é o útero da existência. Sem ela, a existência não seria possível, não teria sentido.

Num dos grandes poemas que compõem os Versos Sagrados de Ifá, (oratura – nas palavras de Cremilda Medina – sagrado dos iorubas) – Oxetura -, Oxum[2] é apontada como a mãe da humanidade, da existência, e de toda a criação.

No cenário de fundo apresentado pela tradição, o quadro sociológico que desponta apresenta – diferente da experiência no ocidente – os velhos, as velhas e as mulheres como pedra angulares da organização das sociedades africanas tradicionais.

E, por fim, na dimensão pedagógica, encontram-se enfeixados os conhecimentos ancestrais da divinação, dos ancestrais masculinos, dos ancestrais femininos, das formas de transcendência – relação com o sagrado – e imanência – organização litúrgica de acesso ao sagrado -, do conhecimento da natureza – fauna e flora -, e do conhecimento da natureza humana.

Toda essa enciclopédia tem na oralidade o seu veículo privilegiado, não de memorização – pois os povos africanos são como “antenas parabólicas com os pés fincados no chão”, como disse o compositor baiano e ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil – mas pela veiculação da energia ancestral (axé, para os iorubas), que se transite pelo hálito dos iniciados na tradição: da boca adocicada pela verdade, para o ouvido sedento de conhecimento (Iyakemi Ronilda Ribeiro).

TRÊS RODAS.

No plano geral da tradição, as três rodas sagradas são mais do que espaços de sociais. Eles são dimensões retro-alimentadoras das tradições africanas. Em cada pedaço, em cada fiapo de expressão, em cada uma de suas dobraduras encontram-se os fios que ligam as experiências dos afrodescendentes aos seus legados e patrimônios culturais e civilizatórios.

O velho Hampaté Bâ, quando observava o poder que as tradições tinham para a reconstrução da identidade profunda dos jovens africanos aculturados pelos valores ocidentais, dizia que a reconstrução da identidade era um problema para os que se afastaram da tradição.

Para os que se mantiveram imersos nos valores da tradição, a reconstrução não se colocava como um problema. Para a juventude afrodescendente da diáspora, os espaços articulados pelas rodas sagrados podem propiciar a possibilidade de (re) construção dessa identidade profunda, da qual falou o velho tradicionalista. Identidade ancorada em valores ancestrais dos povos africanos, guardados, com zelo e carinho, pelos velhos e pelas velhas da tradição, que legaram esse tesouro para as gerações futuras.

[1] Método de ensino socrático que se baseia pergunta, como forma de “dá à luz” idéias novas (parto). [2] Na mitologia iorubá, Oxum é um orixá feminino; da cidade de Oshobo; cujo nome deriva de um importante rio que corre na região. É considera a iyalode – proeminente senhora chefe das mulheres. O antropólogo e babalaô – literalmente, pai do segredo – Pierre Fatumbi Verger colheu importantes relatos sobre esse orixá, nos dois lados do oceano Atlântico, no Brasil e na região iorubana, do continente africano.

Juarez Tadeu de Paula Xavier é professor da UNESP/FAAC; pesquisador do Laboratório de Estudos em Comunicação, Tecnologia e Educação Cidadã (Lecotec); coord. do Núcleo de Estudos e Observação em Economia Criativa (NeoCriativa/FAAC/UNESP/Bauru), e representante da UNESP no Conselho Municipal de Cultura, Bauru-SP.

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