Reconstruindo Exu

O ano de 2013 foi um ano de imersão na esquerda. Menos ideologicamente falando e mais religiosamente. Foi neste ano que passei a aprofundar uma pesquisa iniciada ainda em 2009 a respeito de exus e pombagiras, entidades dos cultos de matriz africana. Ao longo do ano, na condição de artista residente em São Paulo juntamente com o artista Alexandre Furtado, criamos uma instalação artística que foi exibida na Casa das Caldeiras, intitulada “Reconstruindo Exu”. Findo o projeto, já em outubro, fui à Madrid com financiamento da Capes para uma temporada de estudos complementares ao meu doutorado. Nesta cidade dos antigos conquistadores e de reis católicos expansionistas passei a refletir a respeito de uma possível presença de exu. Exu jamais teria chegado ao Brasil se não fosse pelas mãos dos europeus. São eles que arrancam os africanos à força de suas terras e o levam ao continente americano para viverem como escravos. Se o Deus cristão conseguiu viajar da Europa para uma terra de outros deuses, é óbvio que o senhor dos caminhos acompanharia seu povo desde a África. Assim é e Exu se espalhou por todo continente. Se encontra em Exu em Cuba, Venezuela e até na Argentina. Mas Exu também mudou. Fora da África se adaptou ao Novo Mundo e se transformou. No Brasil, a partir do início do século XX, Exu não é mais somente um orixá, mas se desdobra em centenas de entidades com nomes próprios e identidades e histórias distintas. Na umbanda e na quimbanda exu (agora no diminutivo) vai se manifestar de muitas formas, remetendo a entidades ancestrais e outras que poderiam ter vivido entre nossos pais e avós. Curiosamente, nem todas as entidades cultuadas no Brasil teriam surgido lá ou na África. Alguns exus e pombagiras teriam vivido em países como a Espanha e Portugal, berço dos algozes do povo de Exu. Mas ao menos na cidade de Madrid não se encontravam exus nas esquinas e encruzilhadas. Oras, se alguns vieram daqui, onde eles estariam? A partir dessas inquietações desenvolvi um projeto intitulado “Exus de Madrid”, que trata de explorar a cidade e a possível coabitação com as entidades. O projeto desenvolveu-se ao longo de todo primeiro semestre de 2014. Uma das obras do projeto consistia em criar impressos, à moda dos lambe-lambe, com imagens de exus. Madrid, como outras cidades espanholas, vive uma relação conflituosa com o graffiti. Os muitos patrimônios históricos e a condição de destino turístico geraram uma política de tolerância zero com constante vigilância e pesadas multas que não deixa muito espaço para o desenvolvimento da linguagem. Por outro lado materiais impressos são usados indiscriminadamente por todos: do cidadão comum que quer oferecer ou buscar algum serviço, passando pela publicidade ordinária, os movimentos políticos e, claro, artistas. Papeis multiplicam-se diariamente por Madrid a uma velocidade raramente vista em outros lugares do Brasil, seja na mão de um distribuidor de panfletos na rua, deixados à sorte em portas e carros ou colados em muros. Neste ambiente não é incomum deparar-se com pessoas colando seus trabalhos em algum muro de modo tranquilo, como pessoas tentando descolar algum trabalho que lhes tenha atraído para levar para casa. E foi aproveitando este cenário propício que se desenvolveu esta fase do projeto: imagens de aproximadamente 1,6 metros para serem coladas em muros da cidade. Os impressos  apresentam diferentes entidades a partir do registro fotográfico de suas respectivas imagens tridimensionais vendidas em casas de artigos religiosos. A série apresenta 14 entidades, e os cartazes foram espalhados pela região central da cidade, nos bairros de Embajadores e Centro. Abaixo está o registro fotográfico da ação.
[author]  [author_info] Leopoldo Tauffenbach
Artista plástico formado pelo Instituto de Artes da UNESP – SP. Mestre e doutorando em Artes pela mesma Universidade, investiga as relações entre gráfica artística e novas tecnologias e atua como docente de ensino superior. Estudou gravura com Norberto Stori, Evandro Carlos Jardim, Claudio Mubarac e Joan Barbarà. Membro do grupo de pesquisa cAt – ciência/ARTE/tecnologia, do Instituto de Artes da Unesp.[/author_info] [/author]

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Artista plástico formado pelo Instituto de Artes da UNESP – SP. Mestre e doutorando em Artes pela mesma Universidade, investiga as relações entre gráfica artística e novas tecnologias e atua como docente de ensino superior. Estudou gravura com Norberto Stori, Evandro Carlos Jardim, Claudio Mubarac e Joan Barbarà. Membro do grupo de pesquisa cAt – ciência/ARTE/tecnologia, do Instituto de Artes da Unesp.

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