Rafinha Bastos, ¿por qué no te callas?

Não se trata de defender ninguém. “Eles que são brancos, que se entendam”, como se diz. Mas o fato circulou e a zagaia precisou ficar a postos, antes que se confundam os terrenos. Encanto natural da ideologia que inverte os papéis, tomando o carrasco por vítima, o sujo pelo limpo, a ofensa pela moral. Não se trata também de criticar os discursos que, embora avancem no caminho nebuloso da comédia (onde os exageros são permitidos), naturalmente encontram limites. Estão aí as “Marchas das Vadias” que atingiram em cheio o problema deste stand-up, modelo importado de análise do cotidiano, numa versão 1.0 se lembrarmos modelos mais antigos como os Seinfield e outros que já não existem mais.

Tudo seguia o roteiro, até que um deles se torna persona non grata, em um movimento autoconsciente dos próprios integrantes do programa. Por quê? Seria a transgressão? Ora, mas este é o papel do comediante que todos ali praticavam: através da ironia e do sarcasmo, quebrar as formas estabelecidas, tornar incorreto pelo politicamente correto, levar ao limite todos os antagonismos desfeitos pela caixa de risos. Portanto, de onde vem a censura quando o jogo é a transgressão?

Da política? De fato, em ano eleitoral, protestaram, contra a decisão do judiciário, na marcha com outros comediantes ilustres, globais até, formando um fuzuê pelo direito de ridicularizar os políticos (como se por eles mesmos não se bastasse). Em movimentos anteriores, protestaram contra o impedimento promovido pelos deputados da presença deles que não puderam fazer suas “tiradas geniais”, mostrando o ridículo, o ínfimo da classe política. Esperneavam porque foram barrados no baile, quando queriam apenas mostrar os limites, transgredindo custe o que custar. Em contrapartida, ficavam na porta da festa, esperando atiçar as celebridades, espicaçando ou rindo com eles através de imagens editadas.

Curioso… Rafinha não foi rifado nem pela política e nem pelo judiciário. De modo que a questão permanece: de onde vem a censura?

Haveria Rafinha saído do papel que lhe foi confiado? Nada mais incorreto para concluir. O formato do programa é cópia argentina do Caiga quién caiga (reproduzido em parte da América Latina e Europa pela empresa Quatro Cabezas) e, como muitos outros quadros da indústria televisiva em que a cópia se passa por originalidade, risco, ousadia, Rafinha não saiu do script. Fez o papel que lhe foi reservado: aquele que produz o riso por transgredir o limite moral. Fórmula manjada no formato argentino. O mesmo se passa com Marcelo Taz e Marco Luque, ambos fora do eixo da originalidade, mantendo a tensão do trio encontrado em todo modelo deste produto televisivo, entre o moderador e a piada inocente, não menos nefasta, do idiota infantil. Em suma, todos desempenham seu papel conforme o figurino, sem assumir qualquer risco, embora nada digam a respeito de seu plágio. De modo que Rafa não fez nada além do que entendeu caber a sua figura. E assim seguiu numa série de falta de senso do ridículo, perigo constante do cômico, da piada homofóbica à racista, incorporando o gaúcho que achava ser típico.

Pena, deixou de lado tantos tipos cômicos, gaúchos como os de Bajé, e entrou na Roda Viva que encanta e assombra os egos. Acabou censurado por onde menos esperava: a própria horda. Sacrificado como uma hiena inebriada pelo próprio humor assassino, Rafinha deu seu último suspiro devorado pela ciranda que pertencia. Foi censurado pelos seus. Gesto antropofágico que é defesa não da alteridade que sua piada feriu (afinal, tantos foram os judeus, mulheres violadas, pretos e gays vítimas da piada grosseira destes infelizes), mas defesa daquilo com que os comediantes do CQC se identificam: o poder econômico que permanece intocado e, por isso, mantém-se soberano, censurando aquilo que fere seu arbítrio.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *