Por um cinema pedreiro

cinemapedreiro Em sua esmagadora maioria, o cinema brasileiro é feito de engenheiros e arquitetos. Eles sabem, com distância, de tudo. Sabem pela mente, intelecto… e só. Claro que devem haver engenheiros e arquitetos com uma formação humana, que sabem ir além, mas ainda pertencem a uma classe e podem ou não serem traidores dela. Falta ao cinema brasileiro um cinema pedreiro. Daqueles que na quebrada ajuda a levantar a casa do vizinho e a sua própria. Daquele que sabe ser peça, sabe ser tijolo, consciente de tudo o que circunda essa função. Cinema que saiba ser função*. O pedreiro sabe como levantar uma casa, seu aprendizado vem do corpo inteiro, o que quer dizer que é da mente também, do intelecto. O pedreiro sabe em todos seus poros ser arquiteto e engenheiro, não como condição de uma classe opressora, mas como uma necessidade bruta de levantar um espaço, um lugar, uma coisa. Um cinema pedreiro significa revoltar-se de corpo inteiro contra uma opressão clara, opressão estética-política, opressão ideológica. Um cinema pedreiro virá de uma formação pública em cinema de risco, ou das ruas, não das escolas de cinema e seus esquemas, que formam robôs cineastros para ganhar editais ou trabalhar dirigindo publicidade e vídeo institucional (além de suas vertentes que passam nas telas grandes). Essas escolas continuam com a conivência e apoio de artistas-professores-frustados, escolas públicas e privadas, formam cineastros e vítimas, que definham nas mãos de produtoras exploradoras e são máquinas de sugar dinheiro e cérebro. É de um cinema pedreiro que surgirá alguma revolução na linguagem, no mundo. “Trabalhais para a humanidade. A classe operária tornou-se hoje o único representante da grande, da santa causa da humanidade” Mikhail Bakunin em Três Conferências feitas aos operários do vale de Saint-Imier, maio 1871. Tradução de Plínio Augusto Coelho “Meu beck, a caixa e o bumbo e o clap Cresci ali envolvidão qua função Na sola do pé bate o meu coração Esse som é do bom, dá uns dois e viaja Nós somos negros não importa o que haja O ritmo é nosso trazido de lá Das ruas de terra sem luzes e pá O fascínio não morre ele só começô Das festa de preto que os boy não colô Sô o que sô vivo aquilo que falo Meu rap é do gueto e não é pros embalo Vagabundo, se for pra somar chega aí” *Eu Sô Função – Dexter (part Função e Mano Brown) no disco Exilado Sim, Preso Não

Lincoln Péricles é diretor, fotógrafo, técnico de som, roteirista, montador e professor de cinema. Nasceu e mora no Capão Redondo. Também escreve poesia, faz uns vídeo doido, colagens bêbadas e tira fotos por ai.

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