Serginho Poeta – Poesia

  Assassino dos Meus Sonhos Olho para o impávido móvel no canto da sala Que devora parte de mim enquanto vivo Vigilante posto em minha casa que sempre me avisa Quando faltam dez minutos para todas as coisas Sua antiga carcaça de madeira não enruga Como enruga a pele do meu rosto, Como enruga o tecido do meu corpo Não enruga como não enruga a carne de minha avó na fotografia Maldito aparelho que tanto preciso para me lembrar da liberdade que não tenho Dentro desta caixa de madeira existe um olho E espíritos calados nos seus giros De pessoas padecidas desse mal que me assola Relógio, impávido relógio, para quem o tempo não passa Enquanto envelheço, remoça e se alimenta da minha pressa Já vou que são seis horas e o patrão me espera E o relógio me olha severo através do dia que ainda é tão novo E me aponta a porta por onde lá fora o povo todo caminha Mas me desvio entre a gente sem vida E potentes automóveis, e pontes E ruas que não me levam a lugar algum São sete horas exatas no relógio de ponto E sete também na Praça Central Por todos os lados a mesma indicação: Sete horas no bolso do velho avarento No pulso do moço os números digitais apontam No rosto de todos está escrita a mesma coisa: – São sete horas e nada mais se pode a não ser calar-se. Há um terrível silêncio nessa manhã Falam por nós as engrenagens As portas de aço se levantam e as máquinas acordam “dormiram mais que os operários” As escolas públicas soam as suas sirenes E acostumam os meninos aos sons das fábricas Ninguém nota minha ausência, pois tudo tem pressa O patrão, pelo vidro de sua sala que dá para o pátio, Conta uma, duas vezes, mas somos muitos e se confunde Seus olhos lhe enganam, mas não ao seu instinto Seu ouvido apurado sente que uma nota ausente desafina a orquestra Corro desesperado entre os transeuntes Preciso achar a saída, ainda não perceberam os vigilantes Que alguém ali está fora do contexto Artistas riem das pressas e choram das indiferenças Não somos livres quando a fome fala – Pegam-nos pela barriga estes canalhas! Estradas que dão para longe dos relógios São estas que os meus pés procuram Há muito a perder caso eu fuja? Mas não responda a esta pergunta Que eu não tenho tempo para ouvi-lo Piso um passo fora e já me chama a dúvida Outro mais e a certeza me detém agora Mais não posso, o horizonte escurece E um despertador acorda minha cabeça Vou levantar que as seis chegam logo Nos próximos minutos estão a cara mal lavada O amor deixado pra depois e o pão comido às pressas Há o ônibus e o cansaço dos pingentes Uma greve a se fazer, há recessão A política e o som ensandecido das caldeiras e das prensas Há o olho do patrão de hora em hora Há o carnê no fim do mês e a hora extra Mas não há moratória ao operário Em qualquer canto onde os relógios não existam Estão os sonhos a serem descobertos E à casa torno como o filho bom de minha mãe Onde espera-me o senhor de todos os segundos É hora do jantar e está servido É hora de dormir e o amor diz que já é tarde O relógio lá em baixo é um fantasma Seu toque soa como passos pela escada E assassina os meus sonhos ainda em flor Eu, arma em punho e um desejo Escorrego pela escada sem ruído Ou mato este estorvo ou a mim próprio Não quero morrer sendo seu servo Noto ainda um último badalo e a bala estronda no seu vidro Jazem dois ponteiros adiante, Assassino e volto ao sono sem remorso Amanhã não vou para o trabalho     A Espera do Eclipse Ouvir Schuber no rádio Enquanto dormes e consumo tua beleza Por que não? Haverão de dizer que sou pedante Mas a lua está no céu, esplendorosa E por isso sou poeta Para entender (sem entender) O que é belo Esperei e não vi o tal eclipse Mas a tua silhueta na brancura do lençol É mais bonita que a sombra da Terra Passando sobre a Lua E no instante em que te escrevo este poema Ela clareia nosso quarto (Seu corpo é o planeta que habito) Por isso estou sem sono Para contar-te a beleza que não vês E por isto sou poeta Para ilustrar os teus sonhos Com os poemas que escrevo.  

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