Rudinei Borges – Poesia

 e-mail para Roberto Piva

o meu espírito é um espírito de porco ela perguntou ela chorou ela gritou ela fez sexo às dez da manhã   anjos & fotos & torres & TRÊS egípcias vodka & bíblia fechada sobre cômoda o guarda-roupa andrógino invadiu a madrugada & deitou no sofá   & espelhos & portas & toalhas de banho & lemes dentro de cântaros o rei acordou assustado & TRÊS amigos num bar o jornal de terça-feira anunciava   receita com bacon & terráqueos zeus andava sobre ares zeus & galdino arrancavam as mãos dos postes secos & dedos de portas amargas sobre o elefante sagrado & crepúsculos acres ardiam no sol

curvas de sal & scraps de felipe garcia no café da manhã ontem ontem ontem depois o mar invadiu a encosta & janelas que partem para o texas & um menino castanho dormiu na calçada da terceira travessa & um menino moreno acordou dentro das luzes dos faróis   & fumou cigarro no pátio ele não sabia o que era poesia ele limpou os lábios ele cuspiu sangue no asfalto                                     asfalto & chocolate                                     na minha boca                                     ele foi com                                     os pastores                                     numa montanha de vidro

& uma câmera digital rick comeu o inferno & o diabo & a maré                             zeus & galdino & dinamites no espelho                            acordes centauros & gramofones                            o meu corpo transpirando a noite no parque a noite no cais a noite na rua                        ele tinha gosto de chuva queimada

 

fragmento 2

ANTImanifestação da poesia-fragmento

poesia-fragmento imunda. queremos quartos & quadros & quatros   

cantos da cama de saturno. neopoesia andrógina metamorfoseada

& poeira & estrada & suor.

 homens caminhando para o litoral.

desconhecer/conhecer & ser vários. doidos criadores de personagens. mil heterônimos contraditórios. amantes fiéis do diabo. extraterrestres & orgias & ruas. asfalto da web. somos asfalto quente. a última árvore da grande floresta. neo(velhos)psicodélicos às margens do Amazonas/Tietê. atores. aturdidos.

devir. sOmOs neo rupestres. skate & grafite & chá de

camomila & reza & êxtase & robôs. Gente com/sem rumo.

Gente-vertigem-veredas.

& terra & água

& anjos-donzelas

& sexo & labuta

& E-mails & palavras soltas 

& imagens & palavras livres

& poetas rezando ao deus sol

& ciranda & mulheres grávidas & louvores aos galos & cantigas & astronautas & estilhaços & átomos & grãos & microscópios & coisas miudinhas do chão da Amazônia & praia & surf & games & música eletrônica & cantos da tribo munduruku & caiapó & apiacás & links & bares lotados & sertão & mesas nas calçadas & esquinas sujas & cacimbas & cais & embriaguez & carne & lavoura

somos o fragmento-vivo dos homens:

 fragmento online

só existe a parte

 

uma mulher em Saksakiyeh  

o poema devolvido

& os dinossauros carnívoros

 

Ao povo seu poema aqui devolvo.

Ferreira Gullar

  Em algum lugar do fim do mundo

um poeta mostra as vísceras

aos ratos. Aos transeuntes.

Espanta cães famintos. Baratas.  

Dinossauros carnívoros.

Escreve versos molhados de sangue

    & os dedica emocionado aos pistoleiros.

Aos canalhas. Aos assassinos de velhinhas.

Em algum lugar um poeta arremessa rimas.

Desordena métricas. Destrói metáforas.

Consome terno o seu cigarro. Respira fundo.

 

Em algum lugar da África, da América do Sul,

um poeta – esquálido, franzino,

com o olhar compenetrado –

reinventa tardes com arrebóis infindos.

Namora o mar. O céu.

As nuvens em forma de pão francês.

Saúda os andarilhos das estradas de chão batido.

Beija o rosto dos anciãos.

Compõe versos como um menino.

 

Num cárcere, num comboio, numa alcova

– um poeta rabisca muralhas com seus cânticos

& utopias. Um poeta anuncia a esperança.

& os que ali passam levam consigo

este manancial estrondoso:

fé na vida, fé nos homens, fé no mundo.

 

Em algum lugar – no deserto de Atacama,

em Joanesburgo, La Paz, Beirute,

Cabul, Belém, Nova Deli

– um poeta colhe palavras nas ruas.

Nos bares. Nas esquinas imundas.

& devolve, feito poesia-viva,

a sua gente despedaçada.

 

o homem-bomba

 

Vive dentro de mim

uma cabocla velha

de mau-olhado,

acocorada ao pé do borralho,

olhando pra o fogo.

Cora Coralina

Vive dentro de mim

um homem-bomba.

Um homem-fábrica.

 

Um homem-chaminé.

Um rosto inerte-escuro: rua.

Um homem-lida: pó.

 

Dentro de mim

o meu povo

celebra o estio.

 

A vida-estupenda,

a veia-mar,

vai jorrando ondas.  

& a manhã pequenina

faz  luzir a esperança

na chama das mãos.

 

uma mulher em Saksakiyeh

Todas as vidas dentro de mim:

Na minha vida –

vida mera das obscuras.

Cora Coralina

Dentro de mim

uma mulher se esconde.

Inofensiva dentro mim

uma mulher me contempla.

Com o olhar cálido

do oriente distante

uma mulher se revela

clara dentro de mim

na penumbra do escombro.

Dentro de mim

ela chora.

Uma mulher em Saksakiyeh chora.

Inunda as paredes,

as flâmulas, os canhões.

Dentro de mim

o coro de  metralhadoras dispara

um cântico de morte.

& antes que eu possa fugir

reprimir

revidar

dentro de mim

ela grita.

Uma mulher em Saksakiyeh

grita

o grito de todas as mulheres

dentro de mim.

 

breviário

Um galo sozinho não tece uma manhã.

João Cabral de Melo Neto

O tijolo sozinho não é nada.

Sozinho é matéria bruta.

Mas imagine este tijolo

com outros tijolos-milhares:

eis aí a tua casa.

O homem sozinho não é nada.

Sozinho não é passagem soturna.

Mas imagine este homem

com outros homens-milhares,

num verdadeiro encontro:

eis aí a tua aldeia,

a tua comunidade.

O poema sozinho não é nada.

Sozinho é voz esquiva.

Mas imagine o poema

para além da solidificação da página.

Nas ruas. Nas mãos do povo.

Imagine o poema, cântico novo,

nutrindo a esperança.

Eis aí a poesia-carne.

A poesia-vida.

ofício da manhã

Toda vida atual é encontro.

Martin Buber

cantemos o regozijo silencioso das manhãs

viver

eu sei

viver

é ajoelhar aos pés da muralha

mas não duvidemos dos que sonham

não duvidemos dos que lutam

vamos

com o peito ardente

para abraçar o tempo 

   (célere)

com os olhos límpidos

     para ver o sol

   (célere)

com os pés firmes

   para sentir a terra

   (célere)

  a vida vale

mesmo na dor

a vida vale

 

 Sim sincretismo

Sou asfalto: poroca: assalto: avenida: aço acre: sou carne sustenida: pataxó: xavante: apiacá: saterê-mawé: filho de oxum, rainha das águas doces: sou Rimbaud: Kerouac: Caio Fernando Abreu: Josef K: Policarpo Quaresma: nasci em Macondo: descobri a escrita através do velho maquinista da Companhia Bananeiras. Já fiz reza para o vento, correnteza, igarapé. Deus me perdoe: já comi ovo de tracajá. Çairé. Çairé. Açaí. Taperebá. Força bruta da alma.

Naná. Nagô. New Orleans. New York. New Jersey. São Luis do Tapajós, onde o menino brincava com o Saci-Pererê e Zé Teles desvendava seringueiras. Juruti. Almerim. Prainha. Monte Alegre. Santarém. Alenquer. Óbidos. Parintins. Todas as cidades às margens do Rio Amazonas, do Missipi, do Rio Ganges. Todas as rezadeiras da procissão de Sant’Ana. Todos os sinos do Círio de Nazaré. Auwê. Axé. Saravá. Saravá. Tacacá. Inhamundá. Anhagabaú. Praça da Sé. Cracolândia. Avenida Nazaré. Rua Cipriano Barata. Lago Lauricocha no sul do Peru. Acarajé. Acarajé. Cidade Nova Heliópolis. Alecrim. Gergelim. Marcel Marceau. Geração Beat. Tristes trópicos. Tropicália. Mangue Beat. The Velvet Underground. Candomblé. Candomblé. Hemisfério sul. Acabou Chorare.

Sou filho de Rosalva Borges, neto de Alzira, bisneto de Eva Lopes. Tamanduá. Tamanduá. Ibiracy. Fred Mercury. Padre Josimo Tavares. Chico Mendes. Irmã Adelaide. Irmã Doroth Stang. Chicão Xucuru. Santo Dias da Silva. Edson Luis. Totó. Pasolini. Sou filho de boto tucuxi. Araçá. Murici. Buriti. Tucuruvi. Jabaquara. Cobra sucuri. Jabuti. Central do Brasil. Queimados. Dendê. Dias Gomes. Flaubert. Tietê. Mandacaru. Munduruku. Pirarucu. Tucunaré. Alter do Chão.

Ela ficava sentada na janela & ria quando o menino passava. Baixada Santista. Baixa da Égua. Baixio das Bestas. Transamazônica. Vicinal dos Doidos. Beirute. Cabul. Mirian Makeba. Cordilheira dos Andes. Goró. Moçoró. Moçoró. Numa praça de Cachoeira eu conversava com Dalcídio Jurandir. Clarão amazônico. Clarão amazônico. Minha oca. Meu chão. Encantaria. Vertigem das aves que voam sobre a várzea. Margem do meu peito aberto ao mundo. Itaituba. Pedra miúda. Pedra menina. Barro na porta das casas. Formiga saúva na folha das mangueiras. Manhã, rebento infindo. Manhã em minhas mãos de menino. Manhã, calidez do meu canto. Cantoria dos botecos. Cantoria das esquinas. Cantoria das capelinhas.

Porto Seguro. Brejo das Almas. Jacareacanga. Cripuri. Trairão. Aveiro. Altamira. Alto Rio Xingu. Xinguara. Carimbó. Carimbó. Catimbó. Macumba. Pajelança. Estação Carandiru. Estação Primeira de Mangueira. Estação Alto do Ipiranga. Marabá. Tapacurá. Jaçanã. Iraxeru. Bogotá. Istambul. Iracema. Capitu. Macabéa. Tieta. Dona Amélia. Maria Moura. Isaura. Minha mãe rezava na gruta escura onde nasceu o Menino Jesus. Minha mãe. Meus irmãos. Meu corpo.

O meu corpo se dissipou no corpo de minha gente. O meu corpo & a cantoria do meu corpo. Corpo: barulho d’água, banzeiro, estrondo. Corpo vivo. Corpo morto. Garça morta na estrada. Árvore em chamas. Espírito de árvore que mora no meu corpo. Floresta sepultada. Minha gente entre cruzes & encruzilhadas: caminhões levam espectros & madeira na escuridão. Campo aberto para o nada. Campo triste sem cipó. Vazio do mundo. Matinta Perera. Matinta Pereira. Mati-Taperê. Mat-Taperê. Matim-Taperê. Titinta-Pereira. Canoa no rio. Curumim na canoa. Curumim na rede.  Manhã. Mañana. Aurora. Tardinha no cais. Vitória-régia. Marajó. Marajó. Mata virgem. Virgem das Graças. Virgem Aparecida. Padre Cícero. Dom Sebastião. Frei Damião. Antônio Conselheiro. Iemanjá. Rio Jurema & Teles Pires. Rio Cururu. Vila Raiol. Rio Cupari. Terra. Gente. Terra. Gente. Olhos de gente em barcos azuis. Pomba-gira. Zé Pilintra. Angola. Afoxé. Ijexá. Agogô. Mestre Thiago de Mello. Bacuri. Tipiti. Palmares. Lundu. Lundu. Luanda. Lua. Jaci. Jacarandá. São Benedito. Irene Preta. Iara. Mandioca. Sinhá. Guaraná. Tupã. Trapiche. Mestre Cupijó. Mestre Vereguete.

Vem, morena. Vem de Canapijó. Vem mostrar pra gente como se dança um carimbó. Vem, mañana. Estrela Dalva. Céu misturado às águas. Tapajós. Tapajós. Ribanceira tênue. Folhas & folhas & folhas dormindo no chão do quintal. Gente luzindo dentro dos barcos. Rosto de minha gente. Lágrima de minha gente. Suor. Labor. Dor. Dor. Estilhaços de minha gente. Fragmento. Mestiçagem. Sincretismo. Cadeiloscópio cingido de mãos & braços & pernas & olhos: corpo entregue ao vento. Fotografia amarelada de quando o menino contava as estrelas. Mulheres partidas. Homens partidos. Voz silenciosa dos cárceres. Voz silenciosa dos casarões. Voz silenciosa das palafitas. Rosário inefável dos pescadores. Rogai por nós todos os santos & pecadores. Putas desvalidas nas corruptelas. Porto de Belém. Mar, imensidão terrível. Silêncio.

 

 

rés-do-chão

“O bicho, meu Deus, era um homem”. (Manuel Bandeira)

Aquele homem viverá – ali – sem rima. A morte será a sua poesia daninha, feito coisa que não serve para mais nada. Viverá sem estrofes e metáforas rarefeitas à esquina da Rua Cipriano Barata com a Travessa Brigadeiro Jordão. Com cachaça e pão seco andará pelas ruas. Sujo. Escuro. Amargo. Falará sozinho. Invejará gaviões e passarinhos. Mas não parecerá nem um nem outro.

Aquele homem – quando vier a chuva – ancorará as suas quinquilharias à porta de um mercado de peixes e adormecerá aturdido sobre sacos de sal. Aquele homem – quando vier o sol – amparará plumas e botões de jacintos sobre um colchão rasgado e um cobertor puído.

Terá cães, gatos e lagartos famintos a sua volta. E os pombos enfeitiçados amarão os seus ombros sofridos. Farão casa. Ninho. Suíte de hotel. O grude do chão amará as suas mãos. Os pés. Os tornozelos. O mau hálito amará a sua boca. O sono estará com ele noite e dia – até que hora ou outra aquele homem acorde e veja o rosto esbranquiçado de Virginia Woolf à sua frente. Quando isto acontecer ele morrerá sem entender por que chove tanto no Brasil.

Lembrará de sua mãe, de seu pai e de Lulu – a cadelinha que cuidava dele quando os pais iam trabalhar no canavial. Terá fome. Sede. Dor de barriga. Terá saudades de quando criança o vô Walfredo dava-lhe presentes de natal e a tia trazia bolo de chocolate.

Aquele homem – velho, podre, barbudo, trapo humano das ruas, aquele rato imundo que só Manuel Bandeira soube descrever – rirá longamente de Deus no julgamento final. Olhará o Senhor dos auspícios e dirá alto: você é o culpado. Tirará do bolso um folheto amarrotado onde está escrito um verso de Fernando Pessoa: tudo vale a pena se a alma não é pequena. Depois andará tribunal adentro para fumar cigarro com o demônio.

dramaturgo, poeta e ficcionista. Autor do livro “Chão de terra batida” (All Print Editora, 2009).Mestrando em Educação pela USP, com pesquisa em artes cênicas. Formou-se em Filosofia.Estudou no Teatro Escola Macunaíma. É diretor e ator do Núcleo Macabéa Teatro de Agruras (com atuação na periferia) e dramaturgo residente da Trupe Sinhá Zózima. Publica poemas no blog “A Rua Sétima”.

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