Gabriel Megracko – Poesia

Maré Cheia

.

Nas esquinas estão traficando

olhares,

drogas,

sustos.

Estão transitando nas calçadas:

vômito,

fumaça,

dinheiro.

Baixaram esbanjando charme,

poeira.

 

Lua

e sombra.

 

Brancos são os faróis do inferno.

Negros são o sono e a paz.

Não enxergo! Não enxergo!

E por quê, então?

 

Mas não há tempo…

Um presságio cruza o ar…

O clarão repica no céu…

Lágrimas!

Algumas bocas tolas se abrem…

algum mosquito sempre entra,

mas nunca os vejo saírem…

enfim.

 

Enquanto chove, relâmpago.

É noite de lua cheia,

sexta-feira.

 

Sob os toldos dos estabelecimentos comerciais onde

                                                                      [os trabalhadores cansaram

o futuro se esconde

da água que Deus mandou para si mesmo.

Relâmpago.

 

No escuro casual estão traficando

sorrisos,

filhos,

sexo ilícito! Sexo ilícito!

Passou a polícia…

 

Relâmpago!

 

“Estão todos proibidos! Mendigos fascistas!”

 

(Do lado de fora de um casamento luxuoso

a maré vai subindo…)

 

Um rugido grave e distante quase não se ouve:

Alguns sentem uma pontada de ansiedade…

O coração vibra,

a chuva passou,

vamos andar.

 

O pólen das fêmeas

faz coçar o nariz dos machos.

Cachos dourados de nuvens rápidas

e vestido negro.

 

Sonhos rastejam no ar.

 

O futuro se espalha pelas ruas.

A lua espia,

faz sombra…

Relâmpago.

A lua sumiu.

 

Estou animado: o mundo de olhos estalados!

Lindas lágrimas inocentes.

 

Eu não desisto,

procuro vultos no negro de toda pupila.

 

De passagem, o poeta fala,

encarnado em sua cobaia:

“Cobaias!”

E o espírito do poeta se dissipa no ar…

sua cobaia cai,

bêbada, esquecida…

Relâmpago!

 

Na noite vigorosa

o tempo pára…

e um velho amigo me lembra daquele pântano.

Fico excitado.

Respiro fundo.

Desejo a estrada.

 

Mulheres gargalham como lobas bêbadas para a lua cheia.

 

“Mãezinha está aqui, mãezinha está aqui!,

toda de azul”,

(Relâmpago!)

fala a criança

e passa.

 

Espírito?

Passou um…

agora mesmo.

E passa.

 

Vejam! Realmente…

o mundo está doido.

Os cachorros latem…

a lua está cheia demais!

Insisto.

 

(…estou de olhos fechados.

Meu bem segura a minha mão.

Estamos na beira do mar.

Relâmpago no Fundo do Mar!)

 

Dou um trago na fumaça,

abro os olhos, seguro e passo.

Agora vejo seres imortais desmanchando no solo.

Soa a sirene da fábrica, estamos em guerra!:

Vem a tempestade!

Relâmpago.

Vento de sonhos.

Cidades, Esconderijos, Florestas:

Relâmpago.

(O clarão repica no céu)

Saudade…

efêmera.

O futuro aparece e esconde.

Pântano!

Aí vem a tempestade.

Os corações transbordam juntos…

memórias, relâmpago!

(o tempo pára)

(Os gatos se escondem, atentos.

Os cães detentos choram;

os livres se juntam aos gatos)

A cidade está subindo, relâmpago!

O mar está crescendo… tântrico…

 

Rua, ar fresco, pessoas, bares, música.

Mulheres & Homens.

Bonança, agora.

Risos & Sorrisos.

Noite…

Vozes doces, tilintar de copos de cerveja…

Silêncio…

Risada, vozes doces, brindes, olhares…

olhares & sons…

Silêncio… um presságio cruza o ar.

— o vento…

Acendo um cigarro, contemplo o movimento

e espero…

espero…

(sons)

vozes, brindes, a rua…

o coração palpita: um trago…

Uma lembrança, o futuro, uma angústia…

um tempo, um vulto…

bonito!

Um trago… solto… olho:

estrela, nuvem, lua…

Cheia! Cheia!!

Maré?, a vida?, surpresa!:

Memória?:

Relâmpago!

Quântico?

Relâmpago! Relâmpago!!!

Marejam

os olhos

e entendo!:

Relâmpago!

A vida está sendo!

Meu Deus, Relâmpago!

Os homens estão a sonhar.

Vejo os olhos, negros, no ar…

relâmpagos…

Os homens estão a sonhar.

 

(pausa…

silêncio…

expectativa…

 

…)

 

Em um único, potente e grave estrondo,

exatamente no meio da noite,

sôa o Trovão

 

(…

 

…),

 

enche de ondas o coração…

A vida vibra

como se tivesse acabado de criar.

 

Todos, disfarçadamente, olham para o céu,

desconfiados…

e, sem pressa, voltam a conversar.

Dou o último trago

e vejo tudo continuar.

O estrondo ecoa pelo meu corpo.

Vozes doces, noite fresca para amar.

 

A paixão continua no ar

e os copos a dançar.

Me levanto, vou embora.

Agora caminho na rua molhada,

brilhante.

 

Cachos negros de nuvens lentas

e vestido branco.

A tempestade passou.

 

Nas esquinas estão rindo,

beijando,

passando…

passando…

 

Um último, disperso e grave coro

ruge do céu já de estrelas…

sonhos flutuam luar…

E a noite abre suas asas…

porque a noite é infinita.

 

E a lua dourando me lembra,

como no velho presságio,

que também é infinito o mar.

 

Alex

.

Vai-te, irmão

Ser vida no vale das sombras

e na chama das velas

Não deixas nada que nós aqui

almejamos ganhar

.

Vai, Alex

Ser luz de tarde nas ondas

e do mangue os insetos

Ser o Oeste e o deserto diz:

“Tua alma é meu lar”

.

Vai sem dó dos que ficam

porque estes homens têm muito o que andar

Torna-te em luzes que singram

no vácuo do sangue em nós a pulsar

.

Vai-te no pó do infinito

porque o teu nome não vão mais chamar

Porque os homens que dormiram

não vão mais poder contigo voar

.

Porque agora és sagrado

Um sol cravado no fundo do mar

Porque agora és mistério

Um velho prado na luz do luar

.

És a fé dos homens sábios

como a vida te deu de pensar

Porque agora és o ferro

da estrada de trilhos e a tarde a findar

.

Vai, irmão

Dizem que os mais espertos vão antes

Você agora é mais esperto que eu

Você agora passeia entre os elefantes

E a tua alma eu agora canto

pra lembrar teu batuque entre os meus

.

Descanse em paz no ventre de Deus.

 

Retirante

.

Depois do tumulto, quando me vejo a sós com a noite

Então é tempo de a terra vibrar

e tudo à volta é luz

e é sombra

.

Então meu coração já não espera. Descontrolado, rastejo no ar

Choques violentos alimentam a quimera

Lentamente gozo

até chorar

.

Já não me escondo. E não me importo

Estou alado e não quero pousar

Não me espere, não fale alto

Estarei comungando com os mortos

.

Nada mais suave, lento terremoto

Vivo nos corpos corre o sangue louco

Ouço as horas, são sinos histéricos

Junto os ossos e agradeço o passeio

.

Adormeço.

 

 

O Anjo

.

Alimento-me do cheiro imaculado das ninfas virgens

Perambulo pela noite suja gozando de amizades macabras

Escarneço dos transeuntes contentes em seus romances

Arrasto meu coração tétrico; compartilho a água com os ratos

 

Agradeço ao Inferno por me apresentar a essência da vida

Contemplo a paz que a morte trouxe a meus irmãos

Tenho qualquer vida de mais valor em uma de minhas mãos:

a outra dou de comer aos cães

Cuido bem dos filhos das mães

Dois pães para sete fomes

 

Na minha morada sem paredes acontece um milagre avesso:

Multiplicam-se as bocas para a mesma migalha.

 

E como única verdade de meus dias sem Sol

apresento-lhe um sentimento que nenhum Papa conheceu melhor do que eu:

Deus.

 

Irmandade

.

Quando encontramos a morte nos sonhos

nasce nas flores o nome da estrada

Olhos no mundo e os pés na muralha

Nossos impulsos derrubam rebanhos

Nenhum de nós se espanta entre os ossos

Nenhum revés detém nossa entrada

Por entre os homens da nova cidade

o corpo vibrando acordes nos olhos

Ah, irmão na estrada só

Eu estou contigo lá

Feito horizonte em pó

Peito ao sol, cantiga ao mar

Não te esqueças, nem por dó

Teu caminho é sem parar

Segue o vento enquanto choras

Corta o céu rasgando o ar

 

Desdia

.

Vamos comemorar a minha demissão

Vamos celebrar a morte do meu irmão

Cinquenta anos da Bomba Atômica

Vamos brindar à chacina no Carandiru

Uma cachaça pelo assassínio do Lorca

Um baseado em homenagem à burguesia

Um tiro no pó nas notas dos comerciantes de Arte

Uma na lata em homenagem aos produtores de Crack

.

Vamos comemorar na Praça Central

Junto com os mendigos e os viciados

Junto com as putas e os travestis

Com os poetas e com as poetisas

.

Ando procurando na face vazia do Senhor

Refletida nos caldos negros da praça da Sé.

.

Será que eu perdi alguma coisa, senhores?

Que mais vocês deixaram pra Maria e pro Zé?

 

Cessar Fogo

.

E se me desfaço em lágrimas, não é mais tristeza

E se agora deserto, amigos, é a secura do mundo

que se me apresenta após conhecê-lo às entranhas

Se agora sou estranho, é para guardar vivos os punhos

.

Abandono as aglomerações extasiadas de ilusões

Vomito dentro dos beijos das donzelas maquiadas

Agora já é dia e não temo mais os segredos da noite

.

Me retiro do front onde matei incontáveis alvoradas

a decifrar um a um os olhares cheios de estórias

despidos pela loucura, sem saber o que os guiava

.

Confino-me no lúcido caos que há dentro da mente

e deixo-os arrasando tudo no desatino mecânico

que vez ou outra arrebenta um coágulo vermelho

que atravancava a catraca cinza do motor satânico

.

Adeus! O caminhar anda sozinho

Meu sangue não é óleo de máquina

Eu não tenho miras, tenho olhos

Não vim ouvir berros, vim ouvir música

Não faço discursos, faço versos

Nasci em São Paulo, a 11/1/1984. Moro em Santo André desde 2009. As atividades principais são a poesia (tenho um trabalho completo publicado no site www.megracko.blogspot.com) e a música (violão e voz). Componho algumas canções e às vezes me arrisco no instrumental. Ainda não gravei profissionalmente. Fotogtrafo às vezes por dinheiro, mas prefiro fotografar por prazer. Escrevo desde que sei. Curso o 3º ano de Letras na Fundação Santo André, onde tudo o que faço é contestar a concepção de “conhecimento” do mundo acadêmico, que no período corrente é bem mercadológica e de população sectária (isto por ignorar os valores fundamentais da vida (não generalizando, claro, mas quase)). Milito pela Arte, evitando sempre que possível a discussão teórica sobre o tema. Gosto da Arte existindo. Os maiores políticos da Terra são os artistas, num conceito bem amplo. É necessário combater os charlatões.

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