Cibely Zenari – Poesia

poesia de terça

com você quero

cama mesa e banho

com você quero

barba cabelo e bigode

com você quero

lavá enxugá e guardá

com você fico

com riso frouxo

perna bamba e

zóio troncho

a alma nua

a boca crua

a carne pura.

nada menos que três,

três beijos

três vidas

três dias sem ver a luz do dia

nós três:

eu

você

e nós, dando nó.
 

guarda roupa

Engavetei tudo.

Etiquetei as letras

Dobrei os discos

Fracionei as blusas

Encabidei vestidos

Sacrifiquei calcinhas

Pendurei as ancas

Troquei as calças

Emaranhei as mangas

Tranquei colares

Misturei os brincos

Vesti as alças.

No armário, ao fundo,

o par de meias ainda me olha.

Não sei mais que verbo andar.
 

conto sem fada

nossa história

é uma anti-história de amor

tem princesas velhas

príncipes mancos

e cavalos nos barrancos

o aluguel do castelo vencido

os ratos fugidos dos porões

os amores antigos –

fantasmas

os fantasmas –

restos dos vivos

no reino tão do avesso

criado por nossas monarquias

o amor começa

quando tudo entre nós

já se acabou

mas um amor

que preenche

alguns cômodos

e acomoda

incômodos
 

post

imagina só

guardo aqui

sem tirar o pó

um postal

escrito lá

para você

lá de longe

você noutra

eu na tua

nunca leu

nunca viu

nem sabe

nem eu sei

quando foi

que o amor

pelo mapa

se perdeu

um postal

sem endereço

sem leitor

colado agora

no mural

no avesso

só a cola

ninguém vê

teu texto

tuas lágrimas

só vêem

tuas terras

fotografadas

ao longe

numa Itália

poente e só.
 

Dia do fico

Só fico se jurares que desta casa nunca uma lasca da parede se

desprenderá

Nenhum garfo há de escurecer

O telhado não há de pingar

Planta não murchará

Lágrimas sem transbordar

Fome não assolará

Nem jogados

Nem pobres

Encolhidos

Doentes

Nem sem

Se mentires direito juras impossíveis

Mesmo que já sei o que escondes

Ficarei.

Senão,

fico só.
 

hai kai de quatro (linhas)

gosto do seu gosto

gosto do que gosta

goste ou não

gosto

 
ode ao ânus ou boca suja

os arrogantes, pretensiosos e sabichões

nasceram com o cú no lugar da boca

no desfrute da vida (e) privada

alimentam o conteúdo que se instala entre as duas orelhas

para então devida evacuação

quando então tornam o espaço público privado

ou privada

desvie,

cuidado!
 

Bamba

Sujei no samba meu novo sapato

agora com que cara vou pro trabalho?

Foi muvuca, vuco-vuco, esfrega-esfrega

umas branca

umas preta

uns bamba

Umas geladas, suor, empurra-empurra

uns pisões

uns amassões

uns chacoalha

Foi cantoria, foi roda de causo

tinha amigo, tinha hómi, tinha caso

Pandeiro, surdo, cuíca e política

Sete corda, atabaque, agogô e amor

Ai ai ai quanta euforia.

Se sua sola dissesse,

meu pé nunca esquecia.

e o chefe nem se abatia.

uma ponte sem margens

flutua sobre um mar

que cobre um mundo circular

engendra-se assim

a ponte sem começo nem fim

Carne nova no pedaço, brota poemas brutos, antigos e novos no blog PENSO LOGO DANÇO – nome para contrariar Descartes. Foi bailarina, agora musica e canta sua poesia. Também é psicóloga e psicodramatista, pois gosta de quando esses, humanos, se juntam. Atende por Cibely Zenari. É de 78. Conta só para ela: pensologodanco@gmail.com

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