Pílula Vermelha Ou Carta Ao Cordiais

O texto originou-se uma carta destinada ao elenco [Alex Rocha, Camila Urbano, Carlos Gaúcho, Monica Simões, Reggis Silva e Renata Rosa] de Algo de Negro, cuja direção musical assino [uma singular experiência]. A peça foi criada em processo do grupo Cordiais, a partir do Projeto Êxodo Homem Cordial do Folias d’Arte.

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E, na constituição da trilha sonora, foi trabalhada junto ao elenco a  idéia de música e/ou musicalidade enquanto um dos elementos constituintes da Cultura. Tal concepção enfatiza a importância da música no universo africano e, consequentemente, no afro-brasileiro, nos quais este ente cultural (como outros) é carregado de sacralidade – e não decorativo. Buscou-se despertar no elenco a percepção para os elementos que permeiam essa musicalidade, os quais podem ser observados (p. e.) no universo do Samba (Maracatu, Congado, Boi-bumbá, etc.) entendido como Cultura, como Gênero de Vida – Habitus permeado por um conjunto de valores ancestrais.

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A missiva  versa sobre a interação entre emoções e razões proporcionada pelo encontro do teatro e o samba; o teatro no espaço do samba… Mas também o samba no espaço do teatro, eu dirigindo musicalmente a peça a partir da minha vivência e experiência musical de sambista compositor e integrante do Movimento Cultural PROJETO NOSSO SAMBA… Uma reflexão sobre cultura, de dentro pra fora?!

Miseráveis – Algo de Negro no Projeto Nosso Samba, Casa de Angola, Osasco 21.11.2010 – Foto: SSD

23 de novembro de 2010 11:18

Salve, salve, Cordiais!

Como já lhes disse em SMS enviado, foi sensacional a tarde-noite de domingo, p. p., na Casa de Angola. Todos os convivas do Movimento Cultural PROJETO NOSSO SAMBA de Osasco, mais os simpatizantes e frequentadores de nosso espaço (nossa casa), enfim, os presentes no Terreiro ficaram profundamente emocionados com a apresentação de ALGO DE NEGRO. Muitos choraram. Alguns explicitamente, outros com discrição. Outros ainda tiveram que esmerar-se para conseguir disfarçar o acometimento emotivo… Após o encerramento da quizomba, muitos foram os relatos, muitas foram as confissões, da forte comoção que sucumbiu a todos no nosso lugar de encontro e troca de razões e emoções – sentimentos fomentadores da nossa energia vital.

Foi uma tarde-noite de magia, num lugar que é mágico – sagrado. Reza a lenda, que nos chega por meio da oralidade, que, em tempos idos, o espaço onde está hoje o complexo da Secretaria de Cultura de Osasco (Centro de Eventos e a Casa de Angola), outrora pertenceu a uma fazenda. E a Casa de Angola, o nosso Terreiro, está assentada no lugar onde era o cemitério dos negros da tal fazenda, onde eram, foram, enterrados os corpos de escravizados mortos. Para os integrantes do Projeto Nosso Samba estar naquele espaço tem um significado simbólico muito forte. E é comum pessoas que visitam o espaço, o lugar, relatarem ter experimentado sensações das mais diversas, que as mesmas imputam a manifestações espirituais – de outro plano.

Zé – Algo de Negro no Projeto Nosso Samba, Casa de Angola, Osasco 21.11.2010 – Foto: SSD

Feito o preâmbulo, mais interessa versar sobre o significado, para mim, da presença de vocês no terreiro. Gostaria que tivesse acontecido muito antes, pois, entendo tal experiência como essencial para a compreensão e apreensão daquilo que venho tentando transmitir-lhes com falas e mostras de áudio, vídeos, etc. Até porque, em que pese o fato de que estão cantando e, principalmente, tocando diversos ritmos de modo aceitável – estão mandando bem -, entendo que há ainda potencial para muito mais, e que só será atingido com prática e vivência. Quero e vou extrair muito mais de vocês. Na verdade, vocês é que vão perceber, sentir, ouvir os tambores pulsando, batendo interiormente (imagino que isso seja já possível).

Como o Thiago já explicitou, há ainda probleminhas a serem reparados. Mas é bastante perceptível o crescimento do grupo no todo e de cada um em particular. E isso deve ser motivo de maior entrega e não de acomodação. Certo?

Posso estar equivocado, todavia, tendo a crer, muito sinceramente, que muitos de vocês não têm ainda a dimensão da grandeza e relevância daquilo que estamos produzindo, a saber: um muito importante e contundente instrumento de embate, de enfrentamento (sem concessão), para ser utilizado em favor da luta pela transformação do estado de coisas sob o qual vivemos e do qual somos parte, inclusive enquanto (senão produtores) reprodutores de suas mazelas… Enfim, pelo qual somos também responsáveis.

Por isso tudo, fui levado consolidar (num processo no qual e conheci e mantenho contato com pensadores, verdadeiros intelectuais, dentre os quais destaco aqui, Thiago B. Mendonça e Carlos Francisco) a percepção de que não posso transformar aquilo que me é externo sem antes transformar o que me é interno. Portanto, é necessário entender que este nosso instrumento, para realizar-se enquanto tal, tem que absolutamente ser capaz de introjetar-nos um constante autoquestionar-se. Sem o que ele tornar-se-á estéril, inócuo, ineficaz para a realização daquilo para o qual está sendo desenvolvido.

 
PNS em Sorocaba / Encontro familiar / Cultura viva. Pulsante. Nov-2011 – Foto: Jucelia Pereira – Efeitos: SSD

Obviamente, tais encontros configuram um instante – instantâneo. O que deve, contudo, ser entendido, percebido, é que tais manifestações refletem, num muito breve instante, um pouco (o possível) daquilo que pulsa de modo constante no interior de cada indivíduo daquele grupo. Ou seja, a Roda de Samba, o entorno da Roda, no momento do canto, no momento da fala; o conversar, o dançar, o brincar efusivo das crianças soltas no terreiro; o comer, o bebericar, o sorrir, o chorar; tudo o que ali se dá tendo por trilha sonora o som dos tambores que são ouvidos mesmo quando não estão sendo fisicamente tocados, batidos, é o que pulsa dentro de cada indivíduo portador da Cultura Samba.

Para encerrar. A nossa peça Algo de Negro, creio que posso falar também em nome do Carlão e em nome do Thiago, busca instigar a reflexão, a conscientização, a insubordinação e a transformação frente ao Establishment ou Status Quo ou Estado de Coisas ou Sistema Vigente. Posso dizer-lhes que todos os esforços dessa trinca, desse trio de chatos (Carlão, Thiago e Selito), resultam do objetivar ser ao mesmo tempo: arco e flecha, mas também alvo – dialeticamente.  Eu, particularmente, entendo que se não for por este caminho, é ilusão achar que se está engajado na construção de um mudo melhor para todos. E, desejamos contaminá-los, contagiá-los… Cordiais, o conforto faz acomodar, arrefecer os ânimos! Somos [pretendemos ser] a pílula  vermelha! (Matrix)

Há braços!**

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(*) O Samba praticado de forma coletiva num espaço que guarda uma certa sacralidade, herança da espiritualidade de matriz africana.

(**) Copiando o camarada e parceiro Renato Fontes.

Selito SD: sambista, compositor e pesquisador ligado ao Movimento Cultural Projeto Nosso Samba de Osasco, Geógrafo pela USP, um dos editores desta revista e integrante do Coletivo Zagaia.

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