Dossiê Mães de Maio: Picharam nossos muros com sangue!

Recentemente, nas ruas de Santos, o Cordão da Mentira da Baixada Santista realizou o desfil&scracho “Nossos mortos têm voz!”. Denunciava as chacinas cujo primeiro capítulo oficial ocorreu em 2006: um movimento de retaliação da Polícia Militar aos ataques vindos do que seria considerado PCC. Uma história que ainda precisa ser melhor contada e que, provavelmente, explica muito do que acontece em nosso tucanistão. O fato é que, desta retaliação, muitos foram os assassinados. Inocentes ou não, pouco importa: o Estado não tem o direito de matar. Esta era a denúncia feita no Cordão em coro com a indignação do movimento Mães de Maio, que até hoje procura saber quem matou seus filhos…

Em meio ao ato, excessos acontecem. O jornal local anunciava com indignação o fato de pichadores marcarem frases violentas contra o patrimônio público.

“Vermes” e “Assassinos” foram palavras encontradas nas viaturas e nas paredes da sede da polícia civil local. É bem verdade que o Cordão não compactuou com isso. A proposta do desfil&scracho procura outros ataques simbólicos, marcando pelas ruas cidade, a geografia dos crimes. Em poucos dias, a polícia já alcançava seus suspeitos, com as mais variadas técnicas de investigação. Técnicas que raramente são utilizadas nos autos dos assassinatos denunciados pelo Cordão da Mentira, e o processo dura quase dez anos…

Interessante notar que a madona indignada, a imprensa local, foi convidada para acompanhar todo o processo do Cordão. No noticiário, a impressão que ficou era de um grupo com certas denúncias, mas com agitadores que aproveitaram a sombra da noite para barbarizar o centro da cidade… Os jornalistas apareceram só no dia seguinte, com a imagem de uma cidade devastada por pichações, uma polícia impotente para conter os ataques às suas bases e suspeitos criminosos. História sensacionalista perfeita que animou vários comentários do facebook em apoio à redução da maioridade penal (sem sequer saber a idade dos suspeitos), indignados com a polícia, pedindo maior ordem, etc.

De fato, em geral, o Cordão da Mentira não é uma manifestação verde-amarela. Sua denúncia tem objetivo e memória. No caso de Santos, foi uma construção que durou um dia inteiro de atividades. O movimento participou da audiência pública da Comissão da Verdade da Democracia “Mães de Maio”, em que as mães deram o testemunho do assassinato de seus filhos, da “dança de carimbos” entre o judiciário e a polícia, da dor sem solução. A imprensa local não estava presente para ouvir isso, apesar de convidada para participar. Da audiência, o cortejo do Cordão partiu para as ruas do centro de Santos, marcando o local dos crimes (e dos criminosos – no caso da sede da polícia), e em direção ao Gonzaga, cartão-postal da cidade e centro da burguesia local, a despeito das reclamações destes moradores, para os quais o “barulho” atrapalhava o sono do cidadão de bem (esquecem que, no caso da periferia, os tiros não seguem a lei do silêncio, mas do silenciamento. Atingem a qualquer hora seus alvos e testemunhas). Foi um movimento importante, pois mostra, como dizia uma das pichações que a “favela resiste”.

Se a imprensa local aceitasse o convite para acompanhar o processo todo, talvez compreendesse melhor o que de fato aconteceu. Despida de sensacionalismo barato, talvez não cometesse alguns exageros em suas denúncias. Nas imagens reproduzidas a torto e a direito, tentaram vincular o movimento aos pichadores mostrando as pinturas nas ruas com o tema do Cordão: “Nossos mortos têm voz!”. Ora, pintar a rua é crime??? Atenção moradores de Santos na próxima Copa!!! Pintar nas ruas o símbolo da corrupta CBF em clima de festa é algo válido? Pintar nas ruas o fato de que estão matando os filhos da periferia passaria a ser crime?

Talvez a imprensa local e a comunidade estejam um pouco desacostumadas a ouvir a voz que vem da periferia. Pensavam que controlavam sua indignação, mas o luto alimenta a luta. A cidade, outrora conhecida como “porto vermelho”, acha que o extermínio da população negra e periférica (com crescente número de moradores de rua) poderia silenciar a violência cotidiana.

Distanciar toda essa longa história de sofrimento é deixar de ver o motivo que levou os pichadores a avançarem sobre as viaturas e atentarem contra o patrimônio público. É preciso compreender os motivos que fazem alguém tomar uma atitude dessas. Dos suspeitos, a polícia apreendeu suas “latas de tintas” (???), e seus computadores… Liberaram os suspeitos, que ainda estão sob investigação. Fizeram exames que seriam bem-vindos para apurar os crimes de Maio, de 2010, 2012, 2014 e 2015, dos quais várias fitas de vídeo sumiram, em que as provas passam a ser insuficientes e o julgamento caduca, com o retorno do criminoso nas ruas, mais empoderados do que antes, abençoados pela impunidade de seus atos.

É preciso dizer que a polícia e os grupos de extermínio local picham os muros da periferia. Não apenas com o símbolo do Batman (marca de controle destes grupos), mas com o sangue dos filhos da periferia. Não é apenas um crime ambiental. Essa violência parece não indignar a população local… Mas esquecem que os nossos mortos têm voz. Contra estes pichadores uniformizados e encapuzados poucas são as provas, nenhum é o controle e aparentemente nenhuma é a indignação.

Em defesa dos pichadores, é preciso dizer que seu ato não é uma molecagem qualquer. Decerto, o movimento não apoia essa forma de ação: o Cordão da Mentira procura ganhar as ruas com suas músicas e intervenções. Mas é preciso reconhecer que as frases pichadas expressam o que grande parte da comunidade sente todos os dias. Pesquisas indicam a justificada desconfiança que a população tem dos policiais “vermes” e “assassinos”. A repressão contra a população periférica mostra que “todo camburão é um navio negreiro”; e, por fim, com a tinta que ainda resta, a “favela resiste”. A verdade dessas frases pode ser reconhecida por todos que passaram e viram a inscrição delas nos muros.

Ficamos felizes em ver que ano que vem tem mais. A disputa simbólica apenas começou e seguirá, pois “nossos mortos têm voz!” e disso não se pode esquecer.

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