Passo a Passo – Nelson Cavaquinho de Leon Hirszman

O que vemos no primeiro plano do filme é uma face cansada, suada, desiludida e enrugada, porém, calma, quiçá, conformada com o seu destino de caminhos tortos.

Nelson é um ser marginal, rodeados por seres abandonados, à margem. Enquanto um bêbado eufórico pula ao seu lado, Nelson se concentra no êxtase de sua tristeza e de sua embriaguez, seu olhar fixo mira o nada. Embora Nelson diga: “tristeza só nas músicas”, sua memória é triste, amargurada. Sua vida é carregada de cicatrizes e seu cancioneiro não se desprende dessa vivência.

Enquanto um menino empina papagaio no telhado de uma casa. Nelson relembra sua infância e a morte sempre caminha em paralelo a sua memória. Ele fala do começo da música em sua vida e a tristeza invade de repente a sua fala. Miséria e golpe do destino. Lembra do instrumento que se desfez em pedaços para ele (Nelson) poder sobreviver.

Agora Nelson esta sentado, sem camisa. Segura com a mão esquerda uma garrafa de cachaça. Custa a desprender a boca da bebida. Soluça. Bebe qual uma criança que, esfomeada, suga os seios da mãe. Sua voz rouca e bêbada invade o filme em off. Uma menina de pernas de fora, bem como a multidão curiosa entre a porta e a janela, observam a bebedeira do velho. Não sabemos se estão curiosos por Nelson ou pela equipe de filmagem. O diretor Leon Hirszman usa uma narrativa sarcástica nesse trecho da fita. Faz um paralelo entre a menina de poucas vestes com a música que fala de um menino precoce e malicioso que diz: “Dos filhos meus, o caçulinha é o fim/ Saiu ao pai, ele é igualzinho a mim/ Já está de olho na filhinha do vizinho aí ao lado/ Parece que mais tarde isso não vai dar bom resultado”. Nelson é um ser abandonado. A menina de pernas de fora também. Quando Nelson canta “ele é igualzinho a mim”, está propagando sua marginalidade para as futuras gerações. Todas as pessoas que aparecem entre a porta e a janela, sejam crianças ou velhos, todos encaram a câmera com um olhar que, ao mesmo tempo, clama por socorro, e fita com os olhos duros da desilusão, como se naquele momento procurasse um culpado.

No mesmo boteco, vemos um pai de família acompanhado de duas crianças novas. Ele incentiva seus filhos a ingerir bebida alcoólica. Nelson está ao lado incentivando também, como se a cena fosse um rito de passagem para a crianças, rumo aos decrescentes degraus da vida.

A certa altura, Nelson aparece como um pateta, com o olhar brincalhão e melancólico de um palhaço, exibe um pintinho preso a sua mão. Crianças em volta. Inocência e a miserável realidade convivem de mãos atadas.

Enquanto a câmera passeia por uma feijoada de rua, ouvimos a voz de Nelson cantando “Caridade”. Nelson talvez seja o mais cristão dos sambistas. E como cristão, só pode ser devoto de seu próprio sofrimento. É o próprio mártir crucificado nos desenganos e nos amores destruídos.

A cena continua na feijoada. Ouvimos agora uma de suas canções mais conhecidas, “Flor e Espinho”, feita a quatro mãos com Guilherme de Brito, seu parceiro mais frequente. A câmera persegue uma jovem no auge de sua beleza. Ela foge, se esconde atrás das amigas, mas a câmera insiste como se estivesse apaixonada. Novamente Leon usa a canção a favor da narrativa. O verso “hoje pra você eu sou espinho/ espinho não machuca flor” parece ser cantada pela “câmera apaixonada” e não por Nelson. Enquanto foge, a jovem (flor) sorri, sua timidez é sedutora. A câmera persegue o seu amor assim como Nelson perseguiu um lugar ao sol, uma “mão amiga” e só encontrou desilusão. O sol não pode viver perto da lua.

Nelson continua a falar de sua tristeza. É um barroco, um sofredor. Está sério, contando seus problemas pessoais, falta de memória para lembrar das suas composições antigas. Mas se alegra ao se ver rodeado de outros pobres demônios, sofredores como ele. Nelson espera a morte, mas ao mesmo tempo, adia o seu fim e diz que ainda tem muita rabada com batata para comer.

Nelson é o sambista da morte, em todos os aspectos imagináveis. A morte do sonho, da ilusão e do amor, mas nunca da fé. Como legítimo barroco, Nelson usa o azedume de sua triste vivência como moeda pra conquistar o reino dos céus. Fique com sua riqueza, que eu ficarei com a pobreza.

No interior de sua humilde casa, vemos um pequeno altar: Jesus Cristo, Preto Velho, São Cosme e São Damião. Ao lado, um velho e miserável colchão, com rasgos e soltando fiapos de palha. Nelson se encontra em outro cômodo, solitário e fumando um cigarro, sentado numa cama de casal velha. Enquanto a câmera continua a mostrar os detalhes da decadência de sua morada, ouvimos em off o que talvez seja o mais mórbido samba de todos os tempos, “quando eu passo perto das flores/ quase que elas dizem assim:/ vai que amanhã enfeitaremos o seu fim”. Nelson é o trovador da decomposição, a morte é a sua musa e a sua salvação.

Na última cena, vemos uma imagem quase celestial. Nelson canta “vou partir, não sei se voltarei…”. Pessoas estão em sua volta, admirando a sua arte. Nelson agora é um rei. Rei vadio. A cena soa como se finalmente Nelson encontrasse a paz da morte e gozasse de suas recompensas após a vida sofrida. “Partirei para bem longe/ não precisas te preocupar”. O plano médio dá lugar a um plano aberto. A escuridão soturna da rua está em volta. Ao longe, no ponto de luz, está Nelson, as pessoas em volta começam a cantar o refrão; são seus seguidores, devotos do Nelson barroco. E o compositor popular é glorificado.

 

Kiko Dinucci – paulista de Guarulhos, compositor, lançou quatro discos. Padê (com Juçara Marçal), Pastiche Nagô (com Bando AfroMacarrônico), O Retrato do Artista Quando Pede (Duo Moviola, com Douglas Germano) e Na Boca dos Outros (com vários interpretes). Realizou o documentário Dança das Cabaças – Exu no Brasil.

2 comentários “Passo a Passo – Nelson Cavaquinho de Leon Hirszman

  1. Olá Kiko, boa noite.

    Interessante a sua visão sobre o documentário. Não sei se moras no Rio – és de São Paulo – mas esse filme retrata algo mais profundo: o subúrbio carioca! Nelson Cavaquinho é um retrato do subúrbio do Rio, onde tristeza e alegria andam de mãos dadas. Levando-se em conta que o documentário data de 1969, hoje em 2017 pouco mudou por aqui… pobreza, dificuldade, ausência do Estado, mas uma esperança latente de que dias melhores virão.

    Representação justa dos subúrbios cariocas!

    Nelson Cavaquinho é comparável a Mané Garrincha: alguém que tinha tudo para dar errado, mas deu certo! Assim como era inconcebível um homem quase aleijado jogar futebol, um outro semi-analfabeto era um poeta genial, como se driblasse sempre para o mesmo lado, mas não conseguia ser pego pelo adversário como o “Anjo das pernas tortas”.

    Nelson Cavquinho era um fenômeno da Natureza!

    Quase inexplicável!

    Tentar resumir o documentário e a visão do diretor, ok! Tentar sintetizar Nelson, precisaríamos de mais. Muito mais!

    Saudações.

    Douglas Vaz.

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