Partida Adiada; Viagem Retomada (ou Parque Esmeralda) – Prosa

A Edgard Allan Poe (in memoriam) e Binho Para Dri . Eu tinha que partir. Irrefragável a despedida. intransferível a viagem. O voo marcado. Abandonados o sono e o sonho. A exígua mala pronta – ir embora, ir embora… O maço de cigarros, o celular, o molho de chaves, os óculos escuros, o passaporte. E o relógio – era hora! – na gaveta semiaberta da escrivaninha. Ir. As turbinas. As nuvens. A aeromoça gentil. A certeza doendo – sem regresso. Para trás, as pungentes testemunhas do deleite noturno: Um resto de rum no litro, um bombom mordido, bitucas espremidas no cinzeiro. Partir. Partir. Um derradeiro olhar para a escada. Ir-se embora. O corrimão não guardava a maciez de seus dedos. Dos quadros, dos móveis, dos livros, do tapete Não ressudava nenhuma saudade. Apenas a torneira da pia pingando no silêncio da louça suja. Era agarrar a alça da mala e girar a chave – só. No entanto, surgia o vestido. A miração verde. Não no cabide, no carpete ou no espaldar da poltrona. Nem nos ladrilhos do chão do banheiro, nem n’algum degrau da escada. Jazia pousado (nunca mais!) Sobre a frescura do filtro de barro. Uma bandeira – feito um musgo no frescor da moringa – a desfraldar o meu deserto. Estampa da minha inevitável solidão. Materializando a ausência de um corpo. O vazio que emprenhava a sala. Expunha e predizia a insaciabilidade de uma sede fatal – minha morte.                                                            Nunca mais!   Nunca mais? Não. Os corvos não são verdes. O vestido era. E de azeviche a estrela clamando no quarto por meu desejo. Perdi a hora – as horas -, lancei fora as chaves, rasguei o passaporte. Desfiz a mala; refiz a alma. No meu genuíno compromisso – o prazer -, mergulhei pra outro voo. Rumei pra novo porto. Desnudei-me. Vesti-me de asas e remos. E com a ave crespa palpitando como um oceano negro na minha mão, sem bússola, flutuei. Um rosto na fronha. Um corpo no céu. Etéreos: seios, flanco, coxas. Todavia, não me perdi em nenhum espaço sideral. Antes, me achei no tempo sideral. Desenfreei minha gula pelo recheio daquele manto verde. Embalados pelo citrino rio luarento, Enlevados pela voz dum felino – cio e lamento, Embriagados pelo som de tal hino – esse mio ao vento, Agasalhados tão-somente pelo cheiro fino – pavio e alento Do pé de alecrim – extensão do divino verde -, Que, varando o quadrado da janela aberta, Escalava nossa cama e ia unir seu manso murmúrio vegetal Aos nossos hiperestésicos uivos animais, Penetramo-nos. Escalamo-nos. Mergulhamo-nos. Voamo- nos. Para sempre. Perenes. Livres, gozosamente atados num comum destino vestido de esmeralda.  
SEDIÇÃO + SEDUÇÃO = ELA (MEU SONHO DE POESIA) ou DEVANEIOS

Anair (ad): sedição (motim!) arrastando sedutoramente meu coração; sedução (sortilégio!) envolvendo revolucionariamente minha cabeça.                                                                                      

Ela (ilécebras genuínas): lascívia poética, langoroso lirismo; fascinantemente revoltosa, subversivamente encantatória.                                                                                                         

Sua presença (feliz, imorredoura, infinita lombra) derrama-se no meu ser – o sol de seus dentes, o vento melodioso de suas coxas, o luar de suas mãos, o sereno de seus cabelos, as quatro estações de seus olhos, a calmaria e a procela (bonançosa tempestade) de sua boca e seu púbis.                                                                                                                                              

Um afago destes dedos de meiga corsária – viagem regressiva às alegrias e sustos da infância (alumbramentos e venturas de se ser muleque); condução ao éter – desconcerta-me (e enleva!), delicada e simultaneamente suscita-me um amanhecer, faz pousar pores-de-sol sobre minh’alma…                                                                              

Renitente garoa (nos telhados, nos quintais) ou roliça e efêmera chuva (nos campos, nas florestas) não me refrigeram mais que o frescor de sua voz (epífana fala!). Menos me aquece a canícula do que a voluptuosamente sagrada estrela negra em cuja órbita, fantasiosamente (um velho com quimeras juvenis), voejo feito atordoado morcego (ou condor) no cio de cósmicos versos.                                                                                      

Adormeço mascando seu coração; desperto sorvendo seu sexo. Ah, afagar a epiderme de sua sensibilidade; vasculhar o âmago de sua libido; abraçar a luz de sua inteligência… e mergulhar – menino de alados pés – no lago de sua ternura: meus sonhos de poesia.

   

Tico – é do J. Umarizal, zona Sul de São Paulo. Tem um conto publicado na Literatura Marginal (Caros Amigos) e dois livros de contos editados: ELAS, ETC. e AS NÚPCIAS DO ESCORPIÃO. Além de uma peça teatral esperando um grupo interessado em montá-la. Trabalha atualmente num romance e noutro livro de contos.

Um comentário em “Partida Adiada; Viagem Retomada (ou Parque Esmeralda) – Prosa

  1. Linda poesia! Pena que o autor não tenha se lembrado de dirigir algumas palavras doces e suaves aquela pessoa que o amparou e o salvou da sua partida.Apenas se lembrou daquela que o estava levando a morte.

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