Dossiê Secundaristas: Os incompreendidos tomaram as escolas!

Nunca um lema como o Pátria Educadora causou tantos efeitos colaterais. Abrindo o ano com um documento tenebroso da agora extinta Secretaria de Assuntos Estratégicos, passamos por um ano de barbárie, cuja brisa de liberdade se recupera nas ocupações.

As ocupações nas Escolas do Estado de São Paulo são um capítulo de ouro na história de um ano cheio de reveses e que parecia interminável. Tentam abolir a questão do gênero, ameaçam a existência do pensamento crítico, procuram repassar escolas públicas aos vícios privados, militarizam o ensino em nome da ordem e do progresso.

Ao lado disso, toda uma gama de discussões várias sobre o estatuto da educação como lugar central da formação do que está por vir. Somos convidados a repensar todo o currículo em bases nacionais, bem como as estruturas de avaliação e a carreira do professor.

No meio desse turbilhão, uma greve de professores que durou 3 meses em muitos Estados, com cenas de pura barbárie – como no Estado do Paraná.

Em termos governamentais, lembremos também o debate em torno dos Planos de Ensino (sobretudo, nas esferas estaduais e municipais). Lembremos aqui alguns casos, como São Paulo, em que o Plano está nos trâmites legais sem quaisquer debates com as comunidades envolvidas.

Deu no que deu.

Pois, por mais mirabolantes que sejam estes documentos, por mais que tentem encerrar as forças da educação nos papeis das leis, nas notas de avaliação, na arquitetura panóptica das escolas, esquecem os poderes que existe um corpo a partir do qual se expressam subjetividades várias.

São estes corpos que ocupam as escolas. Eles nunca foram ouvidos, e por muitas vezes, são silenciados à violência normalizada de nossa sociedade mais-repressiva. Tais corpos lutam para não se tornarem outro tijolo na muralha erguida pelo orgulho bandeirante dos grandes planos educacionais de formar mão de obra barata às corporações.

São estes corpos que ocupam as escolas. Eles falam de maneira organizada sobre seus direitos e abrem o espaço escolar em uma outra dimensão: recuperam o sentido público em verdadeiras aulas de democracia.

Abrem o espaço para a comunidade que entende o sinal.

E fazem o educador pensar o que tem feito até agora. Da velha pergunta: “quem educa o educador?” é possível ver aqui uma nova resposta: o processo de ensino-aprendizagem e todos os agentes nele envolvidos. Não são apenas pessoas que ocuparam as escolas, mas processos. E a conquista dessa descoberta será difícil de retirar.

O professor agora sabe que o estudante do século XXI está mais próximo da escola do que nunca. Não são novas tecnologias por si, muito menos novas modas pedagógicas que revolucionarão o ensino. Sejamos honestos, dispostos como onda de consumo nas vitrines, isso tudo é parafernália mercantil.

A ocupação demonstra isso. Com simples mudanças de sentidos de relação, com a carreira digna do ensino e uma escola bem estruturada para tanto, o diálogo do ensino-aprendizagem recupera seu valor formativo. Talvez o que falte seja a “ociosidade do espaço”, presente nas raízes gregas de scholé, elemento que mais teme o pedagogo neoliberal. Pois o que a pedagogia bancária mais deseja é mobilizar os corpos e disponibilizá-los à lei da competição a todo instante para que nunca pensem, critiquem e transformem.

Contra tudo isso, a ocupação tem a força de 400 golpes. Os incompreendidos de Truffaut voltaram para a escola, ocuparam-na e ofereceram novo significado. Não por menos, os garotos do filme escapam da disciplina escolar em aulas de educação física. De lá, libertam seus corpos e ocupam as cidades.

Na antológica cena final de Os incompreendidos, o jovem Antoine Doinel, leitor de “O absoluto perdido” de Honoré de Balzac, leva seu corpo ao esforço máximo e encontra o mar (símbolo máximo do infinito). Mas chegar aí não basta: como o filósofo que sai das cavernas, volta-se para nós. Encontramos sua máscara novamente nos corpos que estão nas escolas de São Paulo. A escola virou mar e o mar virou escola. Tomemos o infinito pelas mãos!

   

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