Olhos livres: o cinema de Carlos Reichenbach

(publicado originalmente no Jornal Brasil de Fato)

Os filmes estão vivos. E cada vez que revemos o cinema de Reichenbach, voltamos à frase de Fausto em Filme Demência: “o importante não é chegar, mas viajar”

Alguns dias passaram-se desde que Carlos Rechenbach partiu. Uma comoção intensa tomou conta de amigos, críticos e artistas. Era uma pessoa generosa e a falta que faz transparece na tristeza com que todos ainda comentam seu adeus. Mas ao lembrar o amigo, muitas vezes deixamos de lado o seu cinema. Natural, pois Carlão foi multiplo: professor, crítico, provocador, defensor incansável do compartilhamento livre da arte. Foi o guru de várias gerações de guris. Mas é como realizador que Carlão deixará o seu maior legado. Um cinema particular, único, forjado nas contradições e singularidades de seu tempo. Um olhar generoso e sem concessões aos marginalizados, despido de paternalismo. Unia a erudição do cinéfilo ao amor à cidade e seus tipos. Realizou em imagens uma reflexão crítica e apaixonada sobre sua geração que, nas suas palavras, “privilegiava as sensações absolutas, a amizade e a fé na utopia.”

Atuando como Pancho Villa em um western da Boca.

Foi nos anos 60 que este diretor deu seus primeiros passos. Intelectual, fruto de uma família de editores, possuía uma sólida formação literária. Era um cinéfilo inveterado, frequentador das salas de cinema do bairro paulistano da Liberdade, onde assistia, muitas vezes sem legendas, a fina flor do cinema japonês. Mesmo sem entender os diálogos, viajava pela mise-en-scène, nos ângulos de câmera, e procurava compreender pelas imagens, o que a barreira da língua o impedia. Foi aluno na pioneira escola de cinema São Luís, onde teve aulas com Paulo Emílio Salles Gomes e com aquele que tornou-se seu mestre, o diretor Luís Sérgio Person, autor do clássico São Paulo S.A. Foi ali que Carlão encontrou os primeiros parceiros no fazer cinematográfico. Resolveu partir para a prática no momento em que muitos diretores do Cinema Novo davam uma guinada conservadora, aproximando-se do Estado ditatorial. Era a época da formação da Embrafilme, empresa estatal que fomentou por muitos anos parte da atividade cinematográfica brasileira.

Carlão e sua geração não viam com bons olhos o cinema bancado pelo Estado em tempos de ditadura e resolvem trilhar outro caminho. Admiravam o lado subversivo do Cinema Novo, mas viam seus horizontes tolhidos pela censura e pela tutela da Embrafilme. Tinham também desconfiança do discurso oficial da esquerda e sua iniquidade estética. Partem em direção à um projeto radical de rompimento com toda a linguagem estabelecida em favor de um cinema sem concessões para qualquer traço de paternalismo e ufanismo. São filmes que arriscam-se no campo da linguagem, refratários tanto ao ideário nacional-popular quanto à cosmética publicitária. É nos escombros do projeto derrotado da subversão (a qual se ligavam os primeiros anos do Cinema Novo) que se contrói um cinema da transgressão. A luta agora se dá na linguagem. Não mais um cinema que contrói um projeto de país: frente a este projeto agora moribundo cria-se um discurso de rompimento, um cinema do anti-poder, marginal porque à margem de qualquer estética oficial.

Durante as filmagens de "A Badaladíssima dos trópicos X os picaretas do sexo", episódio no longa AUDÁCIA! de 1969.

No caso de Carlos Reichenbach, seus primeiros filmes ligam-se ao que ele chamava de um cinema “marginal-cafajeste”. Carlão abandona o espaço de conforto de sua cinefilia erudita para mergulhar nas entranhas da Boca do Lixo paulistana, onde uma crescente produção de filmes populares emergia. Era um cinema realizado em sua maior parte por diretores e técnicos advindos de extratos mais baixos da população, que procuravam desenvolver uma cinematografia inspirada em gêneros de sucesso da indústria cultural internacional (comédias eróticas, westerns, filmes policiais) trazendo em sua estrutura os mais diversos preconceitos de nosso cotidiano e o mal-gosto transformado em (in)consciência coletiva. Carlão retira sua matéria prima deste culto ao grotesco, do humor picante e do erotismo das pornochanchadas e converte o “lixo” em seu contrário: uma estética que subverte a lógica da indústria cultural a partir de sua exacerbação. Utiliza-se da pornochanchada para realizar comédias críticas e transgressoras como O império do desejo, A ilha dos prazeres proibidos e Lilian M.

A Boca foi um espaço de aprendizado, onde Carlão tomou contato com os populares, aprendeu na prática a gramática do seu ofício e despiu-se de preconceitos de classe. A construção de um caminho muito particular e coerente permitiu a Carlão seguir produzindo de maneira contínua mesmo depois da decadência daquela cinematografia.

Três pontos distanciam Carlão do restante da produção da Boca. Em primeiro lugar ele nunca deixou de fazer filmes políticos. Não mais um cinema tal qual o realizado nos anos 60, mas filmes com discurso anárquico, libertário, tentando pensar pela estética o papel da esquerda e os dilemas de sua geração. Estão presentes questões sobre sexualidade e interdições, os limites da liberdade e as diferenças entre teoria e prática. Um cinema que procurava recolocar a política na vida após as seguidas derrotas do pós golpe. Em segundo lugar Carlão forja uma estética fragmentária e repleta de citações para dar conta destes dilemas. Consegue criar algo novo, um cinema ao mesmo tempo erudito e popular, contraditório e vivo em suas dúvidas. Um cinema dentro da indústria do sexo, mas questionando este ideário. Uma espécie de terrorismo simbólico através da transgressão dos discursos (tal qual o indústrial de Lilian M, que após uma noitada de farra com o filho e a amante grita desesperado pela “moral” perdida). O terceiro ponto, talvez o mais marcante nos filmes de Carlão, é o papel que as mulheres assumem em seus trabalhos. Na contramão do cinema de seu tempo suas personagens são fortes e independentes, lidando com tabus e desconstruindo caminhos em uma sociedade machista. As lentes de Carlão as captam com um misto de solenidade e tesão, colocando-as no centro das ações não mais como objetos, mas sim como protagonistas do desejo.

Carlão com suas personagens: um mergulho no imaginário feminino.

 As mulheres são também o centro da ambiciosa série de filmes sobre garotas operárias que encerra a carreira do Carlão. Dos quatro roteiros escritos, conseguiu levar dois às telas: Garotas do ABC e Falsa Loira. Num mergulho único no cinema brasileiro, ele consegue participar criativamente do cotidiano destas meninas em um mundo masculino e violento. O dia a dia das fábricas, as horas de lazer, os clubes de baile, o star system do “brega”, a sexualidade transbordante e a ingenuidade das moças bonitas que não percebem as barreiras de classe e exploração que muitas vezes transparecem em relações despidas de romantismo. As jornadas de suas heroínas possibilitam a imersão neste universo, mediado por uma câmera generosa e apaixonada que transforma sua atrizes em personagens míticos. Já em 1986, no belo e implacável Anjos do Arrabalde, as mulheres da periferia paulistana apareciam como centro de suas preocupações, na figura de professoras suburbanas que buscavam virar-se no mundo dos homens. Carlão procurou, segundo ele mesmo, trabalhar o “imaginário a respeito do universo feminino submetido às perversões do progresso desordenado e caótico que caracterizam regiões surgidas à margem da industrialização acelerada”. Em seus filmes não só retratou estas mulheres, mas dialogou com seu mundo, pensando-as também como público de si mesmas.

Mas foi com Filme Demência que o cinema de Carlão chegou a seu ápice. Nesta obra estranha e perturbadora o industrial Fausto (magistralmente interpretado por Ênio Gonçalves) vai a falência após sofrer um golpe do cunhado em conluio com o amante de sua esposa. Fausto parte para uma aventura sem volta no submundo de São Paulo, onde romperá todas as amarras.

Filmando Ênio Gonçalves em "Filme Demência"

Passa então a deambular pelas ruas da cidade, deparando-se com poetas, marginais, prostitutas e profetas. Estranhos personagens surgem em seu caminho, as diversas faces do diabo.Seduzido por uma imagem, parte em busca de Mira-Celi, um paraíso mítico no qual acredita encontrar a resposta para suas angústias. No meio desta jornada, um estranho homem (interpretado pelo próprio diretor) diz para Fausto: “O amigo gosta de  mensagens. Então guarde essa. Cada um aprende com as vilanias de cada um e continua a andar. Não é possível, e é.” A estrada de Fausto não vai a lugar algum. Como ele próprio diz na conclusão do filme, o que importa não é a chegada, mas a viagem. “É preciso recomeçar”, diz Fausto, antes de se chocar com o próprio espelho e voltar para o ponto de partida do filme: “Que eu me reduza à um monte de destroços. É possível que o outro lado surja então fecundo”. A estrutura circular sugere que Mira-Celi é uma miragem de si mesmo.

A jornada interior é também o tema de sua obra mais pessoal, Alma Corsária, uma ode à amizade e à liberdade. Carlão diz no início do filme que este é baseado nas experiências do diretor e de seus amigos. Constrói uma narrativa de memórias sobre uma geração anárquica que mergulhou fundo nos mistérios da cidade. Dois poetas lançam na Pastelaria Espiritual,no centro de São Paulo, um livro escrito a quatro mãos sobre suas vivências compartilhadas.

Alma Corsária: diversos filmes em um filme.

Ao longo da noite amigos, amantes e tipos clássicos da Boca aparecem para a festa. Eles são o mote para que as lembranças do personagem central, Rivaldo Torres (magistralmente interpretado por Bertrand Duarte) venham à tona, intermediadas por precisas elipses temporais. O filme é um mergulho no passado e presente deste que é um dos mais marcantes personagens do cinema brasileiro. O poeta vive na noite de lançamento de seu livro um doce encontro com a morte. 

Alma Corsária, diversos filmes em um filme, a vida do poeta Rivaldo na alma do diretor Reichenbach. Na sua generosidade, no seu despreendimento, na sua verdade. O que foi este cineasta de olhos livres senão a prática de transformar a vida em símbolo? Carlão em sua viagem traduziu diversas experiências na sua. Poderá São Paulo ter novamente um cronista à altura da cidade? Quem verá novamente poesia na patética e sensual dança de uma anã, na performance do pianista proletário ao lado de um fisioculturista em trajes de banho, na luz noturna e misteriosa do centro de São Paulo? Estas experiências jamais se repetirão?

Não há fim. Os filmes estão vivos. E cada vez que revemos seu cinema, voltamos a frase de Fausto em Filme Demência: “o importante não é chegar, mas viajar”.  No final de Império do desejo um profeta visionário incendeia sua cabana e é consumido pelo fogo. Na palhoça em chamas lemos uma frase emblemática: “Vim e irei como uma profecia“. Carlão parte para mais esta jornada com a certeza de que não há ponto de chegada, deixando para nós a profecia nas imagens de um visionário que dos escombros criou seu mundo.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *