O símbolo e a autoridade – notas sobre A metamorfose de Kafka

O acontecimento que marcará o ritmo da narrativa já é anunciado logo no início da novela. A primeira frase do texto quase que resume toda a história a ser contada: quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.

Curiosa posição esta de despertar. Ainda meio que sonolentos, em um quase-sonho, somos transportados a nossa realidade. É um momento ainda meio nebuloso em que não compreendemos por completo nossa posição e situação e que aos poucos vai cedendo espaço para nossa celebração da realidade do mundo desperto. Muitas vezes, ficamos chocados com a idéia de que tudo que fizemos, nas horas anteriores ao acordar, não passavam de sonhos e que, com o raiar do dia, acabamos reconhecendo os contornos de nossa vida em vigília.

É argumento corriqueiro a crença de que os sonhos sejam uma forma privilegiada de investigação da simbolização que o homem realiza. O que é de profunda importância, na medida em que o homem produz símbolos, inconsciente ou espontaneamente, a todo momento. Tudo que sabemos a esse respeito na Metamorfose, no entanto, é que Gregor teve sonhos intranquilos. Pesadelos?

Mas o que nos chama a atenção na frase inicial de A metamorfose não é o fato de que Gregor Samsa sonhou e depois acordou. Todo o problema inicial se concentra na aparente inversão entre o sonho e a realidade. Gregor não sonha que é um inseto monstruoso e depois deste sonho, certamente intranquilo, acorda em sua cama como um homem normal. Em uma espécie de inversão da ordem do sonho, Gregor acorda metamorfoseado em um inseto monstruoso. É sua nova realidade. Porém, uma realidade meio onírica, por assim dizer.

E, no entanto, o narrador da novela, quase que respondendo a pergunta inicial de Gregor a si mesmo – “O que aconteceu comigo?” – deixa claro aos leitores logo no segundo parágrafo da narrativa: “Não era um sonho.”

Que espécie de escrita é essa que subverte, assim, logo de início, nossas concepções mais tradicionais de enredo? Se tudo não passasse de um sonho, um pesadelo, aceitaríamos sem problemas a transformação de Gregor. Mas não é isso que Kafka nos pede. O autor quer que aceitemos sem contestações a metamorfose de um homem depois de ter acordado. Tanto que a questão não chega nem a ser um problema para o autor, que a resolve logo nas primeiras linhas.

O absurdo da obra de Kafka, como quer Camus, reside justamente nesta posição. Narra-se uma sequência de acontecimentos banais, refratários a qualquer espécie de explicação, de maneira fria, precisa, formal, como se o pesadelo integrasse naturalmente o cotidiano: uma técnica da indiferença. É assim que Kafka exprime a tragédia pelo cotidiano e o absurdo pela lógica.

E nesse caso, em A metamorfose, não poderia ser diferente: o sonho acabou, mas suas características essenciais parecem se perpetuar na realidade do mundo desperto. Afinal, algo absolutamente fora do comum acontece. Algo que escapa ao controle do personagem principal, alguma coisa de extraordinário. Tudo se passa como se o “sonho intranquilo” se tornasse realidade. O pesadelo se dá no cotidiano, no mundo real. De alguma forma, o fantástico está a serviço de um realismo todo próprio. Não é à toa que Gregor sugere a si mesmo: “Que tal se eu continuasse dormindo mais um pouco e esquecesse todas essas tolices?” Nem ele acredita, inicialmente, que alguma coisa estranha esteja realmente acontecendo com ele. Chega a pensar que é um mal temporário, que, depois de algumas horas de sono, já estaria plenamente restabelecido.

Esse curto circuito entre realidade e sonho, em que um parece substituir o outro na ordem de uma lógica cambiante, vai ser justamente o que trará vigor e originalidade para a narrativa.

Temos dificuldade em enquadrar a escrita de Kafka nos moldes literários tradicionais. Seria uma novela? Nesse caso, narraria aventuras imaginárias ou reproduzidas da realidade. Mas, não é justamente uma realidade absolutamente fantástica o que está em jogo? Talvez, uma parábola? Mas, se assim fosse, teria uma função pedagógica ou moral. Conto de fadas às avessas?

Quando Gregor Samsa acorda de sonhos intranqüilos, alguma coisa a mais acontece na literatura. É um realismo diferente o que está em jogo. Um realismo que se utiliza de símbolos improváveis, talvez até grotescos, para compor seu esquema – não é de forma alguma uma escrita inocente.

Por isso, é preciso tomar cuidado com as interpretações psicológicas automáticas, aquelas que enxergariam em Gregor Samsa, por exemplo, uma enorme metáfora do homem comum, oprimido pelo tédio do cotidiano, pela família que sustenta ou pelo trabalho que não lhe apraz.

No entanto, para compreender em que extensão Kafka parece levar toda possibilidade de compreensão de sua novela a partir de um universo simbólico, carregado de expressões da opressão humana, é preciso uma investigação mais aprofundada justamente desses símbolos que aparecem no enredo da narrativa e que denunciam esse universo particular.

Comecemos, assim, pela montagem simbólica da metamorfose em si.

Para além da interpretação literal da metamorfose de Gregor em um inseto gigante e repugnante, qual poderia ser o significado dessa súbita transformação? Para onde ela aponta no jogo da criação artística que somente o gênio de Kafka poderia armar? Certamente, a escolha pela metamorfose do personagem principal da novela em um inseto não é gratuita.

Uma palavra ou imagem é simbólica quando implica alguma coisa além do significado manifesto e imediato. Assim, não podemos, sob o risco de ingenuidade, interpretar esse inseto monstruoso, apenas como uma transformação aleatória. No jogo dos símbolos literários, A metamorfose de Kafka representa certamente o fantástico de uma lógica que desconcerta o real.

Este desajuste, no entanto, é proposto de uma maneira singular. Não só Kafka evitar classificar o monstruoso inseto, na medida em que em nenhum momento o nomeia por sua espécie, como também nega a possibilidade de uma ilustração figurativa para a edição da Metamorfose. Kafka, assim, subvertendo o jogo tradicional do simbólico na literatura, fala de um animal que não nomeia e o descreve sem o recurso da imagem. Como diz Benjamim, “nenhum escritor seguiu tão rigorosamente o preceito de não construir imagens”.

Esta diluição do caráter imagético, de fato, não chega a ameaçar a construção do simbólico no texto de Kafka. Tanto isso é verdade, que a questão do porquê da metamorfose não é posta sequer em questão.

A verdade é que a metamorfose em bicho não é coisa nova na literatura, desde que reversível ou, ao menos, justa. O problema, em Kafka, é que ela não é nem uma coisa nem outra. Além do mais, na literatura, esta conhecida transformação em animais, em geral, escolhe animais que podem ter lá suas vantagens: um leão, uma águia, uma raposa… O inseto, digamos, por exemplo, uma barata, não é lá algo muito tradicional, mesmo para o universo kafkiano que apresenta animais tais como cães, chacais, camundongos e cavalos.

Acreditamos que o inseto possa ser entendido como um símbolo. Símbolo de algo inferior. Algo nojento e repugnante, que significa sujeira. A autodepreciação, um quase nojo de si mesmo, é tema recorrente em Kafka.

Talvez este homem-inseto, sub-homem, nos pareça ser menos que um homem. Reações físicas são apenas uma das formas pelas quais se manifestam os problemas que nos afligem inconscientemente. O que dizer de uma reação física, melhor, uma verdadeira mutação do corpo, que não se dá no campo dos sonhos (lugar em que se expressam, com frequência, os problemas que nos afligem), mas no universo do real?

A metamorfose extrema de um homem, como nos é apresentada por Kafka, pode ser entendida como a tentativa de levar ao limite uma inadequação. Como se o personagem somatizasse a tal ponto suas incompletudes psíquicas que, inclusive, se transformasse em um outro. No caso, não um outro qualquer, mas em um inseto gigante e repugnante. Esta reação física extremada, meio que mágica, que altera o corpo a ponto de não reconhecê-lo, não seria mais uma das táticas de composição de Kafka que procura em um universo simbólico demonstrar todo estranhamento do humano?

E o pior é que esta mutação extrema não pode ser alterada. Até o fim da narrativa, veremos que o personagem não sabe por que mudou de aparência tão profundamente, não consegue voltar a seu corpo original e mais, que sua inadequação devido à transformação não encontrará qualquer espécie de compreensão pelos outros.

Nosso herói é um tipo e tanto. Melhor, ele somente tem algum interesse porque se transforma em um inseto grotesco. Antes da transformação, ao que tudo indica, era filho dedicado, empregado exemplar e irmão carinhoso. Para falar a verdade, não era nada de mais. Não era, inicialmente, alguém que valesse a pena escrever a respeito. É sua metamorfose improvável que o coloca no roteiro da literatura, no circuito das grandes criações literárias do Ocidente.

E ao mesmo tempo, este homem que se transforma não apenas tem a aparência de uma barata, mas se sente como uma barata. A simbologia é como que jogada a nossa frente por Kafka. Esse homem que se modifica profundamente, talvez já se sentisse como um ser inferior antes da mutação. “Pequeno e nojento como uma barata”. Alguma coisa nele aponta para uma vida sem brilho, opressiva, medíocre, em que os dias passavam mas não alteravam uma situação de subserviência na vida familiar e no mundo dos valores do trabalho .

Em certo momento, o narrador da história assim coloca a posição do personagem: “Por que Gregor estava condenado a servir numa firma em que à mínima omissão se levantava logo a máxima suspeita?” Existe, assim, uma certa culpa por parte de Gregor. Uma culpa anterior que ele não sabe bem identificar e que é comum à maioria dos textos de Kafka. Um mundo em que a acusação precede a culpa.

A situação em que Gregor é colocado é tão estranha que, em certo momento, o gerente da firma em que trabalha resolve visitá-lo e, não compreendendo porque o personagem não sai do quarto, assim afirma: “Acreditava conhecê-lo como um homem calmo e sensato e agora o senhor parece querer de repente começar a ostentar estranhos caprichos.”

Formidável compreensão esta do gerente! De repente, a metamorfose de Gregor é diminuída até o nível de um mero capricho. E o capricho, como bem sabemos, não passa de um vontade volúvel, de uma extravagância sem motivação justificada aparente. Porém, a transformação de Gregor é inexorável, não comporta alternativas e determinará, completamente, o seu futuro. A mutação de Gregor é exatamente o contrário do capricho. Está certo que ela é profundamente inexplicável, mas, por outro lado, ela é totalmente independente da vontade do personagem. A metamorfose aparece como se estivesse pré-determinada na vida de Gregor. É nesse universo de incompreensão, nesse mundo em que um homem não pode se modificar, que vive Gregor. É um mundo opressivo, em que muitas vezes podemos nos sentir como uma barata, uma barata entre homens – algo de menos.

A relação com o gerente, chefe de Gregor, é, aliás, algo que deve ser ressaltada em nossa análise do jogo dos símbolos em A metamorfose. Ao lado do pai, constitui uma daquelas figuras típicas da tirania da autoridade. De fato, Walter Benjamin aponta para o fato de que há muitos indícios de que o mundo dos funcionários e o mundo dos pais sejam idênticos para Kafka. O pai e os funcionários são figuras que punem. Figuras que são atraídas pela culpa. O pai, é bom que se diga, não é apenas quem pune, mas também quem acusa.

Esse pai que é opressor não será diferente na Metamorfose. É ele que, no limite, estabelecerá a punição máxima para Gregor: atira uma maçã contra ele com tal força que o ferimento será uma das causas da morte do personagem principal.

“Nas estranhas famílias de Kafka, é o pai que sobrevive às custas do filho, sugando-o como um imenso parasita”, analisa Benjamin. Até a transformação de Gregor, era ele quem sustentava a família, corroída pelas dívidas dos pais, obrigando-o a trabalhar como caixeiro viajante, profissão que não o agradava e o deixava completamente extenuado. O fim do texto aponta para a nova empreitada dos pais de Gregor: se aproveitar da beleza juvenil de Grete, sua irmã, como se ela tivesse que substitui-lo no trabalho para manter a casa. O corpo de Grete havia se transformado em uma jovem bonita e opulenta com o passar do tempo, e, contrastando com a degeneração do corpo de Gregor, desponta como solução para os problemas de economia doméstica de seus pais.

Aliás, a estrutura da metamorfose que alterou a rotina diária da residência dos Samsa tranca o filho transformado em seu próprio quarto, local em que em hipótese alguma pode sair, como se estivesse em uma estranha prisão domiciliar – por sinal, outro tema recorrente em Kafka. No simbólico das disposições da estrutura da casa de Gregor, ou seja, na lógica da ocupação do espaço, algo que escancara, evidentemente, dimensões de poder, Gregor fica reservado em seu pequeno quarto, trancado à chave, sendo alimentado com detritos.

Os pais de Gregor se mostram, assim, especialmente ingratos. A verdade é que quando pensam em se livrar de Gregor, ele dá muito trabalho, ele já está muito fraco e adoentado e praticamente obedece aos pais que o querem longe de casa, na medida em que morre logo em seguida. E é a irmã que anuncia, inicialmente, que a família deveria se livrar da idéia de que “esse monstro é o nosso Gregor”.

A posição de estranhamento, de não ser quem sempre se foi, de ser alguém novo é claramente um dos temas da novela. A sociedade, representada simbolicamente pelo gerente da firma, pelos familiares e pelos locatários da casa de Gregor, não aceita com facilidade aqueles homens que querem se modificar, fazer algo novo, criar uma nova possibilidade de si mesmos. Em uma espécie de inversão bizarra, a vontade de largar o emprego aborrecido, se sentir livre das obrigações familiares, parece ter se manifestado em tal grau em Gregor que ele simplesmente e inexplicavelmente mudou. Mas mudou para pior, para um ser que simbolizava todos os seus complexos, para algo quase inumano.

Em certo momento da narrativa, ao fim do texto, Gregor escuta o som do violino que sua irmã está tocando para entreter os locatários que habitam a casa de seus pais. Ele já não pode mais falar, todo som que sai de sua boca tem algo de animalesco e incompreensível. Já não pode comer direito, na medida em que nada o apetece e definha cada vez mais. Tem dificuldade de locomoção, desde que seu pai atirou aquela maçã que ficou cravada em seu corpo. Mas ainda quer ver sua irmã tocando o violino. Sente prazer nisso. E a dúvida aparece, em uma manifestação clara de seu caráter humano: como poderia ser um animal, e assim ser tratado, se ainda ficava tão emocionado com a música?

BIBLIOGRAFIA

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 CAMUS, Albert. “A esperança e o absurdo na obra de Franz Kafka” In: O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1989.

 CARONE, Modesto. “A mais célebre novela de Kafka” In: A metamorfose. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

 JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

 KAFKA, Franz. A metamorfose. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

 OST, François. Contar a lei – As fontes do imaginário jurídico. Rio Grande do Sul: Unisinos, 2005.

 SCHWARZ, Roberto. “Uma barata é uma barata é uma barata” In: A sereia e o desconfiado – ensaios críticos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.


CAMUS, Albert. “A esperança e o absurdo na obra de Franz Kafka” In: O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1989.
Camus, op. cit., p. 152.
Kafka não queria que seu inseto de A Metamorfose recebesse uma ilustração figurativa. Pede isso a seu editor, Kurt Wolff: “O próprio inseto não pode ser desenhado. Não pode sequer ser mostrado de longe”.
SCHWARZ, Roberto. “Uma barata é uma barata é uma barata” In: A sereia e o desconfiado – ensaios críticos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981, p. 60.
JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008, p. 16.
KAFKA, Franz. A metamorfose. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 16.
Schwarz, op. cit., p. 64.
Kafka, op. cit., p.19.
BENJAMIN, Walter. “Franz Kafka. A propósito do décimo aniversário de sua morte.” In: Obras escolhidas vol. 1 – magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 139.

Benjamin, op. cit., p. 139-140.

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