O samba é nosso espírito, nossa alma… É nossa cultura!

Somos nós, não somos os outros; somos os nossos, não somos os dos outros. Caminharemos mais e melhor a partir de nossa própria história. Não se trata de negar e nem desrespeitar a história do outro.(Mov. Cul. PROJETO NOSSO SAMBA de Osasco) [1]

Selito SD

Alma, é isso que o samba é. E é deste modo que ele deve ser entendido. E assim como, por exemplo, também o maracatu, o candomblé, o jongo, o congado, o carimbó, tambor de mina, xangô, umbanda, a capoeira e outras tantas manifestações das culturas afrobrasileiras, é, o samba, muito mais que musicalidade ou música, essa entidade, geralmente, compreendida de modo equivocado e superficial. Compreensão tosca e entorpecida essa em que ela, a música, é considerada esvaída de toda a essência que lhe dá o conjunto dos outros elementos e ou valores que constituem aquilo a que se denomina cultura, da qual lhe é imposta a separação. Deste modo, o samba, nesse processo que se notabiliza por valorizar a folclorização, a estereotipia, a pasteurização e a espetaculização, acaba reduzido a gênero musical, meramente. Torna-se um produto, uma mercadoria resultado da produção massificada e ou alternativa destinada a nicho específico, num caso e noutro vulgarizada, conduzida pela indústria cultural.

Tomada isoladamente, a música (a musicalidade) de qualquer pertença jamais poderá ser compreendida e apreendida de um modo sequer razoável. Tratar-se-á, apenas e tão somente, de um ente reduzido, coisificado, apartado daquilo que lhe é coplementar, os demais elementos do conjunto de valores denominado cultura, ao qual permeia, é por ele permeado e, sobretudo, tanto lhe dá  como dele obtem significado.

A propósito, as ideias constantes deste ensaio norteam-se por noções conceituais segundo as quais cultura pode ser o “ato, efeito de cultivar, desenvolvimento intelectual, saber; utilização industrial de certos produtos naturais; estudo, elegância; esmero; conjunto dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores morais e materiais, característicos de uma sociedade; civilização”.[2] Ou, filosoficamente, “o conjunto de manifestações humanas que contrastam com a natureza ou comportamento natural”[3] ou; no sentido lato, “o aspecto da vida social que se relaciona com a produção do saber, arte, folclore, mitologia, costumes, etc., bem como à sua perpetuação pela transmissão de uma geração à outra”.[4] Ou, sociologicamente, “pode simbolizar tudo o que é apreendido e partilhado pelos indivíduos de um determinado grupo e que confere uma identidade dentro do seu grupo de pertença. Já que para a sociologia não existem culturas superiores e nem inferiores, posto que a mesma é relativa, daí derivando o termo relativismo cultural, segundo o qual a cultura, p. e., de um país não é igual à de outro, i. e., diferem nas maneiras de se vestir, e agir, têm crenças, valores e normas diferentes, ou seja, têm padrões culturais distintos”.[5] Ou ainda, antropologicamente, a cultura pode ser entendida como a totalidade de padrões apreendidos e desenvolvidos pelo ser humano. E, de acordo com definição conceitual primeva sob a etnologia, a cultura seria “o complexo que inclui conhecimento, crenças, arte, moral, leis, costumes e outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade”[6]. Portanto, corresponde, neste último sentido, às formas de organização de um povo, seus costumes e tradições transmitidas de geração para geração que, à partir de uma vivência e tradição comuns, se apresentam como a identidade desse povo. [7] É isso tudo fundamenta a afirmação de que alma e cultura, cultura e alma, devem ser entendidas como sinônimos.

Bastante sintetizadas, aí estão algumas noções do significado de cultura segundo algumas áreas do conhecimento. Daí depreende-se que o ser humano é um ser social, vive em grupo e que, por conseguinte, todo e qualquer humano, toda e qualquer pessoa possue cultura. Todo e qualquer grupo de indivíduos vive, a priore, sob um conjunto de regras de convívio que normatizam seu cotidiano; regem seus hábitos, regulam o seu modo de vida. Daí o entendimento orientado por aquelas proposições que apontam para uma compreensão da cultura como um ente açambarcador da diversidade, não hierarquizada e, logo, desvencilhada do jugo da indústria e ou evolucionismo culturais.

Deste modo, para o samba, para a gente do samba, deve prevalecer aquilo que se sabe de si, o que se apreendeu e se apreenderá da própria história de vida,  da história dos seus em pertença, história do grupo de pertencimento. Em relação às coisas, os valores dos demais grupos, que não devem ser desconsideradas, devem prevalecer as coisas os valores do próprio grupo enquanto centrais. E devem prevalecer não por valer mais que aquelas coisas dos demais, e sim por pertencer ao seu prupo e, por isso mesmo, não valer menos.

Entenda-se que: O grupo de indivíduos que integram e constituem, por exemplo, o Movimento Cultural PROJETO NOSSO SAMBA de Osasco possui uma identidade que é própria, particular, e que os difere de outros grupos de indivíduos como, por exemplo: a Comunidade Samba da Vela[8], o Projeto Cultural Samba Autêntico[9], o Projeto Samba de Terreiro de Mauá[10], o Projeto Samba de Todos os Tempos[11], o Terra Brasileira[12], o Terreiro Grande[13] e muito outros mais, cada qual com sua identidade, com sua particularidade.

Caso haja dúvidas no acima exposto, propomos que sejam entendidas as expressões culturais supra citadas: o maracatu, o candomblé, o jongo, o congado, o carimbó, tambor de mina, xangô, umbanda, etc., como pertencentes, cada uma delas, a um grupo de indivíduos específico, cujas características o diferenciam dos demais outros grupos. Deste modo, temos que, cada um desses grupos, possui uma identidade própria. E isso sem deixar de atentar para o fato de que todos  possuem caracterírsticas que os aproximam conformando um grupo maior de portadores de características que os universalizam – no caso, enquanto afrodescendentes. Posto que refletem em suas práticas cotidianas heranças de matrizes culturais africanas. Heranças essas de diversificadas origens em África e que, desterradas pela diáspora, aportaram por aqui em lugares e tempos diversos, já fragmentadas e às vezes apenas resquícios. Todavia, seus portadores trataram de as submeter a importantes processos de ressigfinificação que implicaram em sincretismos entre si, possibilitadores, a partir da recriação, da manutenção das identidades, das histórias, da continuidade – do sentido da vida. Daí decerto, decorre um fortíssimo hibridismo entre suas práticas. Mas, importa apontar para a diversidade lá e cá, antes e depois da diáspora.

E, como já foi dito, o conjunto de elementos característicos e próprios de cada grupo o diferencia dos demais e, conseqüentemente, faz aproximarem-se os indivíduos que lhe são internos, dando-lhes uma identidade própria e singular. Tais elementos implicam o comportamento, os costumes, o jeito de ser, os hábitos, os valores adotados e que marcam e são marcados pelo dia-a-dia, pelo cotidiano. E, é óbvio, tudo isso inexorávelmente se faz refletir na música, na musicalidade, bem como nos demais entes que expressam os fazeres do grupo. Insistimos que muitos grupos possuem características comuns que os aproximam constituindo, então, um grupo maior marcado por uma universalidade dada pelas tais características gerais, é o caso dos exemplos utilizados.

E no que diz respeito ao samba, para além da historiografia oficial, há também nesse universo sambístico uma tal constelação denominada diversidade. É diverso o povo do samba. Se ficarmos só no Rio de Janeiro, de onde em tempos idos o fenômeno Rádio Nacional impactou contundentemente as culturas de todo o território nacional, é possível perceber e sem muito esforço a diversidade contida no samba, a diversidade do povo do samba que migrou para o Grande Centro Urbano retirante de localidades e regiões diversas do território nacional. Dentre essas localidades e regiões estavam os centros menores e mesmo em lugares não centrais, p. e., a provinciana cidade de São Paulo, na qual havia e há samba, povo do samba, migrante dos interioranos cafezais, com suas características próprias e uma história quase que só veiculada pela oralidade, documento vital para a sua cultura.

Mudando de escala, não é demais lembrar que, p. e., os grupos humanos originários de África e seus descendentes pelo mundo, são bastantes diferentes entre si, porém iguais quando comparados com outros grupos humanos de origem diversa: européia, asiática, ameríndia e da oceanía e seus respectivos descendentes pelo mundo e que também são internamente diferentes entre si e, todavia, cabe insistir, iguais quando comparados com cada um dos demais grupos humanos.

A essas diferenças e igualdades correspondem diversificadas e semelhantes visões de mundo, todas válidas. Não há uma que seja naturalmente hegemônica, o que há é uma construção ideológica de uma hegemonia que impõe a cosmovisão ocidental judaico-cristã a tudo e a todos, aplicando a coisas bastantes distintas uma solução única guiada por uma forma de interpretação única – uma fábula. Decerto que, nas diversas escalas, diferentes cosmovisões embatem-se num jogo de submeter umas às outras, experimentando maior, menor sucesso e/ou mesmo fracasso.

No intuito de desvelar, principalmente para os convivas, a tal fábula é que o Movimento Cultural PROJETO NOSSO SAMBA de Osasco chegou aos mais de 11 (onze) anos de atividade, celebrando seu engajamento na continuidade da incansável luta de resistência, afirmação, manutenção e continuidade da cultura, da identidade do povo Afro-Brasileiro em sua diversidade. Luta essa que é travada cotidianamente desde a chegada do primeiro contingente de africanos escravizados na Terra Brasilis. Foram e são muitos e muitas, os homens e as mulheres que compuseram e compõem as diversas frentes representadas pelos maracatus, candombes, candomblés, carimbós, capoeiras, umbandas, congados, tambores de mina e ainda muitos outros dentre os quais, os sambas espalhados por todos os cantos do Brasil.

Os homens e mulheres da frente formada pelo Movimento Cultural PROJETO NOSSO SAMBA de Osasco, uma das muitas constituídas pelo samba, fazem questão de manter a sua bandeira, a do samba, hasteada o tempo todo e não ocasionalmente. Entendem, pois, como já foi dito, que o samba é sua cultura, logo, é sua alma e que – sem alma não há vida – sem ela não se pode viver.

São muitas as referências; muitos os exemplos nos quais nos miramos e dos quais destacamos um, aqui e agora: Hélio Romão de Paula, o Seu Hélio, o Tio Hélio, o Hélio Bagunça! Figura reta, impar, exemplar. Foi um batalhador, brigou muito pelas coisas da “nossa gente boa gente preta”. O baluarte partiu, no ano de 2007, para tornar-se um ancestral. Mas, deixou-nos reforçada a idéia de que cultura é alma e que, portanto, é algo que não se vende; do qual não se desprende e cujo sentido só é mensurado e, realmente, importa a ninguém mais do que a seus portadores – seu grupo de pertença. Afinal, por que motivo alguém desejaria a alma de outro?

A memória de Hélio Bagunça[14] é aqui evocada com um propósito: o de reforçar a importância de se conhecer a própria história e a de sua gente, pois é daí que vem a substância que torna aos indivíduos plenos – inteiros. Só podemos nos fortalecer a partir de nós mesmos e dos nossos. Não adianta querer buscar a essência dos/nos outros, por mais que de alguma forma nos sejam referência. Acontece que as referências culturais não podem, em hipótese nenhuma ser mediadas pela cultura industrializada: a cultura tornada coisa vendável – mercadoria. Temos que nos libertar disso.

Para explicitar mais ainda o que aqui se defende, os integrantes do Mov. Cult. PROJETO NOSSO SAMBA de Osasco, a exemplo de muitos companheiros (as), somos paulistas/paulistanos, de nascimento ou não, vivemos em São Paulo, não somos cariocas (ou fluminenses). Devemos sim conhecer e reverenciar aos irmãos de samba de todos os cantos, aos mestres, os números baixos (os anciãos – a velha guarda) onde quer que estejam e de onde quer que eles sejam; mas, principalmente, devemos nos reverenciar a nós mesmos e aos nossos.

Para tanto, insistimos, devemos buscar conhecer a nossa história própria, a história daqueles (as) que nos cercam, vivem ou viveram em nosso entorno mais imediato: o nosso entorno da vida – o entorno da nossa vida.

É preciso que conheçamos; faz-se necessário que saibamos mais de nós mesmos e dos nossos para que possamos dar continuidade à nossa linhagem. Temos a responsabilidade de melhor conhecermos a nós mesmos para seguirmos, garantirmos o nosso futuro que será vivido e vivenciado pelas gerações futuras as quais receberão, de nós outros, o legado que nos vem sendo passado com a marca de nossos antecessores a cada geração, e no qual terão que colocar a sua marca para os que virão, pois só assim seguiremos mais e mais fortalecidos – melhores e mais firmes. E que fique claro que se trata de afirmar àquilo que mais universaliza ao ser humano, aos grupos humanos: sua diferença, aqui entendida como diversidade, maior riqueza e soberano patrimônio da humanidade – aquilo que torna a todos os seres humanos iguais.

Saudações Sambísticas!


[1] Postado originalmente no blog do Mov. Cult. PROJETO NOSSO SAMBA de Osasco.

[2] http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx

[3] http://pt.wikipedia.org/wiki/Cultura

[4] Idem

[5] Idem

[6] TYLOR, Edward Burnett (1832). “Internet Archive“. Encyclopædia Britannica (XI edição) Volume XXVII. New York: Encyclopædia Britannica. pág. 498. Visitado em 11-02-2011

[7] http://pt.wikipedia.org/wiki/Cultura

[8] http://www.sambadavela.org.br/

[9] http://sambaautentico.nafoto.net/

[10] http://terreirodemaua.blogspot.com/

[11] http://www.projetosambadetodosostempos.blogspot.com/

[12] http://terra-brasileira.blogspot.com/

[13] http://terreiro-grande.blogspot.com/

[14] http://www.camisaverde.net/helio_bagunca.php

Selito SD: sambista, compositor e pesquisador ligado ao Movimento Cultural Projeto Nosso Samba de Osasco, Geógrafo pela USP, um dos editores desta revista e integrante do Coletivo Zagaia.

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