O saco de Daniel Funes – Prosa

 

O saco de Daniel Funes

 

Vejo meu saco e penso que é um órgão muito frágil. Penso nos homens das cavernas, grosseiros, fortes, com músculos feitos de tronco de arvore ou de pedra, mas com aquela coisa delicada, quase uma jóia entra as pernas. Imaginar a dor de levar um chute no saco ou de sentar erroneamente num banco de motorcicleta me dá arrepios. Quando tinha uma Caloicross, de tanto saltar, um dia o quadro quebrou ao meio e eu caí com o saco naquele ferro onde as pessoas sentam ( de lado, off course). Doeu muito e desconfio que fiquei estéril mas so vou ter certeza daqui um mês. Aí conto pra todo mundo.

Acho um erro de projeto o saco, com toda sua fragilidade, ficar embaixo. Faltou uma espécie de protetor de cárter, imagino, mas isso ia encarecer demais o projeto ou dificultar a sentada. Se eu fosse Deus, faria o saco (se é que precisamos desta merda), num lugar mais protegido. Sob as axilas de repente. Não usamos ele pra nada mesmo, podia ficar até interno, como os rins. Outra solução, se é pra exibir esta geringonça, que fosse na garganta de repente, como um papo auxiliar. Ficaria feio, mas alguém reclama do nariz ou das orelhas? Van Gogh provavelmente entrou num dilema estético, sacou que a orelha era uma gambiarra de deus e cortou. Hoje, nos tempos modernos, não temos tempo nem de pensar no que vamos comer (ligamos a TV e vemos um programa de receita e pronto), quanto menos para questionar a arquitetura do corpo. Só falo em particular do saco, porque ele me causa aflição. É feio, é mole, não endurece, é velho desde o princípio e necessita de movimentações corretas para se moldar a diversas situações da vida. Homens com saco grande não podem deitar de bruços. Mulheres tem ovários, concordo, mas ficam pra dentro. Não dá nem pra imaginar aquilo pendurado pra fora como dois ovos de páscoa número 5. Agora nossos ovos número 1 ficam a céu aberto, escondido apenas por pelos e sem nenhuma proteção. E depois dizem que o sexo frágil são as mulheres. Não, decididamente e literalmente somos nós, que carregamos este fardo de mostrar força o tempo todo, sendo que temos um saco, esta coisinha ridícula que paira como um bibelô, que nos obriga a sentar com a perna aberta. Impossível ser de outro jeito. Não sei que exercício ou técnica usam estes caras que cruzam a perna de lado, como mulher. Provavelmente já espremeram há tempos o conteúdo do saco, ou fizeram com que ao longo dos anos ele se movesse para a bunda. Talvez não seja uma má idéia, mas de qualquer forma vai causar constrangimento, principalmente na praia. Outro problema do saco é que ele também não pode ser lavado, por ser mole. Mas pode ser coçado com uma vareta desde que se estique a pele. Existem técnicas pra isso em livros de auto ajuda, basta procurar. O que afirmo decididamente é que o saco me parece uma imperfeição feia e inútil, uma gambiarra decididamente e a prova que ninguém é perfeito, nem deus.

 

Daniel Funes – é autor dos livros Bawakawa (pela Ediouro), Histórias Secretas (pela ARX), Oh Dívida Cruel (pela Matrix) e O Adivinhador. Em 2002 participou da coletânea Crônica dos Anjos de Prata, com a crônica Brotas para Principiantes. É roteirista dos curtas A História Secreta do Telemarketing, e Par Perfeito e da série Locumentário. Escreve no blog: blogdodanielfunes.blogspot.com.

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