O país de André Ristum e o cinema de lugar nenhum

Muitas vezes assistir um filme ruim pode ser instrutivo, como bem lembrava Paulo Emílio. Mas no caso de “Meu país” de André Ristum, será que esta máxima é aplicável? Talvez sim, como sintoma de uma atual indigência estética. Como explicar seus prêmios no Festival de Brasília, assim como o bom acolhimento por parte da crítica? Em parte (acredito) porque o filme articulou pela primeira vez no cinema brasileiro um projeto até então inconfessável, mas que fazia-se presente para grande parte da elite nacional: a aspiração de um Brasil sem brasileiros, de uma nação sem povo. Ou, melhor dizendo, um projeto de povo que de tão calado torna-se invisível e portanto passível de desaparecer na tela.

“Meu país” conta a história de dois irmãos que se reencontram no enterro do pai. Marcos (Rodrigo Santoro) é um capitalista bem sucedido que vive na Itália. Seu irmão Tiago (Cauã Reymond) é um playboy inconsequente, viciado em jogo e no pó. O que seria um encontro rápido acaba estendendo-se quando os dois descobrem a existência de uma irmã (Débora Falabella), portadora de deficiência mental. O médico da irmã convence Marcos de que a única coisa que poderia evitar sua piora seria o carinho familiar. Ele então enfrenta o dilema: voltar aos negócios na Itália ou cuidar da família.

A princípio seria só mais um drama burguês onde o capitalista frio, ao se deparar com os problemas dos irmãos, acaba por humanizar-se. Uma espécie de “Rain Man” sem brilho. Mas o filme vai além disso. A aspiração de humanização do capital constrói um Brasil sem pobres, onde as especulações na bolsa de valores só prejudicam os especuladores e onde uma empresa falida é um drama restrito aos proprietários e acionistas da mesma. No país de Ristum não há perdedores. É um mundo onde ricos só convivem com ricos e a invisibilidade dos serviçais formaliza-se na sua incorporalidade. O projeto do diretor só pode se dar por completo com o desaparecimento de qualquer vestígio de povo. Trata-se de uma higienização simbólica. Seria trágico se não fosse cômico.

A dicotomia central do filme estabelece-se entre Marcos, o homem de negócios, com formação européia e portanto sério, e Tiago, o playboy fanfarrão, infantil e descontrolado como a nação tupiniquim que o criou. A obra possibilita portanto a reconciliação da elite colonial com a matriz europeia, a partir de uma política dos afetos (para usar uma expressão da moda na crítica brasileira contemporânea). Central para isso é o aparecimento da irmã doente, a mulher-menina que precisa de cuidados. A defesa da família e de seu patrimônio acaba por unir os três irmãos neste desterro de Ristum chamado Brasil. Os filmes de máfia costumam ser mais convincentes.

As inconsistências dramáticas estão presentes ao longo de toda a estrutura. É notável a forçação de barra na construção do personagem de Cauãn Reimond como jogador viciado. Não há no filme qualquer esforço para construir o universo do jogo como algo sedutor. O que vemos é o personagem cumprindo a função dramática de perder dinheiro para justificar a continuidade da trama e a construção da superioridade moral do irmão “italiano”. Somam-se novas características à contraposição já apresentada entre o homem de negócios de formação europeia e o playboy fanfarrão. O irmão “italiano” preocupa-se com a família, tem seriedade frente ao patrimônio, não comete excessos. O “brasileiro” é viciado em jogo, drogas, bebe demais, é promíscuo, irresponsável com o patrimônio e avesso às questões familiares. A verdadeira desumanidade não está no capitalista, mas na vida desregrada do jovem bárbaro e infantil, que ao longo do filme será civilizado pelo ambiente doméstico.

A mediação entre estes dois mundos é feita em parte pela esposa italiana de Marcos, uma voz polida e lúcida em meio ao confronto. Ela dá ao drama um toque de “civilidade europeia”. É lógico que a indigência dos diálogos acaba por prejudicar um pouco este projeto. Frases como “sua mala parece um quadro de Pollock” ou “A vida é como o golfe” não ajudam muito. A cena da menina deficiente cantando a música “Exagerado” causa vergonha alheia. Mas nada impede que o projeto civilizador de Ristum e seu mundo branco, bonito e rico avance no imaginário nacional, como bem demonstrou o último festival de Brasília. O conto de fadas do diretor cria um país anódino, sem cor, sem cheiro. Uma espécie de ilha de caras convertida em nação, habitada pela fina flor dos financistas e empresários. As utopias da TFP acabam por encontrar o seu mais fiel retratista.

A conclusão deste novelão globalizado é a defesa dos valores da família e da propriedade perante o capital descontrolado e seus vícios. Na última parte do filme os três filhos assistem um vídeo onde o pai falecido (Paulo José) canta uma música de ninar em italiano. O pai chora enquanto canta e o “comovente” ato acaba por unir os três irmãos.  A canção, em italiano, humaniza definitivamente as relações. O projeto de ascese se completa. Marcos (Santoro) consegue pela primeira vez demonstrar amor e dizer à esposa “Eu te amo”. É um novo homem. Está aberto o caminho para o grand finale: os três irmãos e o mar redentor! Não a praia lotada, barulhenta, popular. Mas a praia deserta, particular, o paraíso tropical das elites. Eis, em resumo, o país de André Ristum.

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