O nosso não à Itália de Tabucchi

(texto escrito no blog da Zagaia em agosto de 2011. Na ocasião o escritor Antonio Tabucchi negou-se a participar da FLIP (Feira Literária de Parati) em protesto contra o governo brasileiro que concedera asilo político à Cesare Battisti. O agora falecido escritor italiano comparara levianamente a situação de Battisti com a do torturador argentino Alejandro César Enciso, na época preso no Rio. Enciso, contrariando as insinuações de Tabucchi, segue preso, aguardando a conclusão de seu processo de extradição).

O escriba italiano Antonio Tabucchi escreveu no mês passado um artigo no jornal italiano “La Repubblica” onde atacava as instituições brasileiras devido ao caso Cesare Battisti. Tabuchi cancelara sua visita à Feira Literária Internacional de Parati (FLIP) em protesto ao consentimento de liberdade a Cesare pela justiça brasileira. A Zagaia também não foi a FLIP. A Zagaia repudia o ataque deste senhor, lembrando que à muito deixamos de ser uma colônia européia. Nem todos os brasileiros são submissos (como se mostrou o diretor do Feirão de Parati) ao complexo de superioridade ferida de uma Itália apodrecida até o talo. Tabucchi critica a idoneidade das instituições brasileiras como se fossemos uma república das bananas. Ao contrário das instituições italianas, estas sim (sic) dignas de respeito!? Ao criticar arrogantemente Lula, ele esquece que o presidente italiano se vê envolvido em diversos crimes sexuais, e que estes seguem sem julgamento (envolvido inclusive com uma menor de idade brasileira a partir das redes de prostituição com as quais teve ligação). O detentor do monopólio das comunicações na Itália realiza hoje uma verdadeira caça as bruxas nas TVs estatais, voltando a perseguir antigos militantes de esquerda pelo mundo, ao mesmo tempo que reabilita toda a corja do que um dia foi a base do fascismo. O azar de Berlusconi é que nem todo brasileiro é Pato.

Nós defendemos o asilo político já que há graves indícios de que os julgamentos realizados pelos tribunais italianos foram fraudados. Há inconsistências fortes nas acusações e provas questionáveis. Não se trata aqui de defender os métodos e a atuação das Brigadas Vermelhas, mas de compreender o que está em jogo na disputa diplomática por Battisti, que viveu anos sobre abrigo da França sem que a Itália questionasse por um segundo a idoneidade do Estado vizinho. Battisti teve seus direitos caçados na França após a nova onda de regimes conservadores na Europa, quando resolveu migrar ao Brasil. Até então não era uma questão de honra para o governo italiano extraditá-lo. A comparação feita por Tabucchi entre Battisti e o torturador argentino Alejandro César Enciso é risível. Inciso foi preso no final do ano passado e será julgada em breve sua possível extradição. Ele é acusado de integrar o aparato ilegal da ditadura argentina de tortura e sequestro. De acordo com o italiano Tabucchi, Enciso está sob uma leve tutela da polícia brasileira. Má fé posto que o torturador se encontra encarcerado em um presídio carioca.

De fato nos anos 70 havia um forte desencantamento na juventude italiana ao ver retomar grande parte da antiga turma facista ao poder ao mesmo tempo em que assistia ao fim das promessas de mudança do pós-guerra. Somada à radicalização ocorrida noss anos 60, esta ordem de coisas levou muitos jovens a atitudes extremas como a guerrilha urbana realizada pelas brigadas vermelhas. Não se trata de abraçar esta escolha, mas de compreender o que levou aquela juventude ao embrutecimento.

Vivemos outro momento. E seria mais enriquecedor investir não numa caça as bruxas, mas na compreensão desta juventude amaldiçoada, que se torna hoje na Itália de Tabucchi e Berlusconi a reencarnação do mal. Pasolini denunciou o fascismo que voltava a assolar a sociedade italiana nos anos 70 e foi brutalmente assassinado em um crime atribuido na época à um michê. Hoje poucos acreditam nesta história, que jamais foi explicada.

É mais interessante para o mundo olhar a Itália em perspectiva: compreender as relações entre o fascismo e a política nos anos 70. Pasolini chamava a nova lógica que surgia nestes anos de fascismo de consumo. Talvez assim compreendamos o fenômeno Berlusconi. O Brasil neste caso pode ajudar a Itália mesmo que à revelia.[author]  [author_info]O Coletivo Zagaia é um grupo de crítica e experimentação estética.

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