“O leão mata observando” de Subcomandante Marcos – Tradução

Pequeno comentário do tradutor

Recuperar uma forma antiga como a fábula para trazer uma nova mensagem – eis um dos desafios deste conto do Subcomandante Marcos. Revolver os símbolos para renovar as forças de transformação. Há que se ter em vista que a fábula opera no território da moral. Trazer pelas metáforas modos de condutas, como Mandeville fizera na modernidade – tendo como exemplo maior sua “fábula das abelhas”. Mas a fauna do Subcomandante está longe destes símbolos naturais do trabalho e do desempenho, da astúcia calculada que Mandeville retratava. São animais cujas forças estão onde menos se espera. A toupeira, na sua cegueira tem a cicatriz de ver onde se fere os deuses. A “velha toupeira” que vive no subterrâneo da história, como a revolução que um dia Marx havia descrito. E o homem? Entre o pragmatismo de acertar o alvo e a capacidade de matar observando, traça uma prosa que do simples extrai o mais profundo: no sofrimento que impede dizer-se humano; na humanidade que está por vir.

O velho Antonio caçou um leão da montanha (que é muito parecido ao puma americano) com sua velha chimba (espingarda de pólvora). Eu havia zombado de sua arma uns dias antes: “estas armas usavam quando Hernán Cortes conquistou o México”, disse-lhe. Ele se defendeu: “sim, mas olhe agora nas mãos de quem está”.

Agora estava limpando as últimas tiras de carne da pele para curti-la. Mostra para mim a pele, orgulhoso. Não tem nenhum furo. “Apenas no olho”, se gaba. “É a única maneira para que a pele não tenha nenhuma forma de maltrato”, diz. “E o que vai fazer com a pele?”, pergunto. O velho Antonio não me responde, segue limpando a pele do leão com seu facão, em silêncio. Sento-me a seu lado e, depois de preparar o cachimbo, tratei de preparar-lhe um fumo de rolo. Pegando-o sem palavras, ele o examina e o desfaz. “Falta chá”, me diz, enquanto volta a refazê-lo. Sentamo-nos a participar juntos dessa cerimônia de fumar. Entre tragada e tragada, o velho Antonio vai desfilando a história:

“O leão é forte porque os outros animais são fracos. O leão come a carne de outros porque os outros se deixam comer. O leão não mata com as garras, nem com os caninos. O leão mata observando. Primeiro se acerca do espaço, em silêncio, porque tem nuvens nas patas e o ruído as mata. Depois, salta e dá uma cambalhota em sua vítima, um tapa que derruba mais do que pela força, pela surpresa.

Depois, se deixa, vendo-a. Observa  sua presa. Assim… (o velho Antonio enruga a sobrancelha e me crava os olhos negros). O pobre animalzinho que vai morrer, se não fica sem ver nada mais, observa o leão que o observa. O animalzinho já não se vê a si mesmo, observa o leão que o observa, observa a imagem do animalzinho no olhar do leão, observa que, no olhar do leão sobre ele, é pequeno e fraco. O animalzinho não se pensava se é pequeno e fraco, era pois um animalzinho, nem grande e nem pequeno, nem forte e nem fraco.

Mas agora observa no olhar do leão sobre ele, observa o medo. E, observando que o observam, o animalzinho se convence, sozinho, de que é pequeno e fraco. E, no medo que observa que o leão lhe observa, tem medo. E, então, o animalzinho já não observa nada, paralisam seus ossos assim como quando nos toma a água na montanha, na noite, no frio. E, então, o animalzinho se rende assim, sem mais; se deixa, e o leão o devora sem pena. Assim mata o leão. Mata observando.

Porém, há um animalzinho que não faz assim, que quando topa com o leão não faz caso disso e segue como se nada tivesse acontecendo. E se o leão o golpeia, ele responde com uma unhada de suas pequenas patas, que são pequenas, mas faz doer o sangue que tiram. E este animalzinho não se descuida do leão porque não observa que o observam… é cego. Toupeiras, dizem  a respeito destes animaizinhos”.

Parece que o velho Antonio acabou de falar. Eu tentei um: “sim, mas…”. O velho Antonio não me deixa continuar, segue contando a história enquanto prepara outro cigarro. Faz isso lentamente, voltando a me ver de instante a instante para ver se estou atento. “A toupeira ficou cega porque, no lugar de ver para fora, pôs-se a observar o coração, imobilizou-se olhando para dentro. E ninguém sabe porque chegou na cabeça da toupeira isto de observar-se para dentro.  E aí se põe de idiota a toupeira ao observar-se o coração e, então, não se ocupa de fortes ou fracos, de grandes ou pequenos, porque o coração é o coração e não se medem como se medem as coisas e os animais. E isso de observar-se para dentro só podiam fazer os deuses e, então, os deuses castigaram à toupeira e não a deixaram olhar para fora, além de condená-la a viver e caminhar debaixo da terra. E por isso a toupeira vive debaixo da terra, porque os deuses a castigaram. E a toupeira nem dor sentiu porque continuou a observar-se para dentro. E por isso a toupeira não tem medo do leão. E, tampouco, o homem que sabe observar-se ao coração, tem medo.

“Porque o homem que sabe observar-se ao coração não vê a força do leão, vê a força de seu coração e, então, observa ao leão e o leão observa que o homem o observa, e o leão observa, ao olhar do homem que é apenas um leão, e o leão observa que o observam e tem medo e corre”. “E você observou a seu coração para matar a este leão?” – interrompo. Ele responde: “Eu? Não, homem; eu mirei a pontaria da carabina e o olho do leão… e aí, sem mais, disparei… do coração, nem lembro.” Eu coço minha cabeça assim como aprendi, fazem por aqui aqueles que não entendem nada.

O velho Antonio se levanta lentamente, pega a pele e a examina detidamente. Depois a enrola e me entrega. “Toma”, me diz, “presenteio você para que nunca se esqueça que ao leão e ao medo se matam sabendo para onde olhar…” O velho Antonio dá meia-volta e se mete em sua choupana. Na linguagem do velho Antonio, isto quer dizer: “Já acabei, adeus”. Eu guardei em uma bolsa de nylon a pele do leão e fui embora.

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