O espírito da contracultura: a formiga e a cigarra

 

Ao contrário do espírito capitalista, o espírito contracultural é eminentemente errante e vagabundo. Para ele, as virtudes vocacionais da competência econômica são desprezíveis, pois delas derivam todas as formas de injustiça social, além, é claro, da infelicidade do próprio sujeito virtuoso: o bom burguês.

A terra não é, para a contracultura, a herança deixada por um deus que condenou seus filhos a expiar o pecado do conhecimento do bem e do mal com o suor de seu rosto e a destruição da natureza. Ela é, simplesmente, um lugar de passagem, paisagem a ser contemplada durante a viagem cujo destino, todos sabem, é irremediavelmente a morte. E também a chance, ainda que ínfima, de colher os frutos da árvore da vida, da eternidade monopolizada pelo mesmo deus ao expulsar seus filhos do paraíso: a eternidade do aqui e agora, cuja imprevisibilidade destoa do espírito capitalista por princípio lógico, já que o último pensa e age segundo as normas da ponderação e da prevenção, em suma, do adiamento instaurador do tempo psicológico.

Para o espírito contracultural, a cigarra é, em essência, superior à formiga, já que ambas devem, ao fim e ao cabo, voltar ao pó de onde vieram, com uma diferença: a cigarra canta, ao passo que a formiga moureja enquanto espera; e ao cantar, zomba da própria temporalidade à qual sua contrapartida se entrega como serva fiel.

A formiga, como é óbvio, acumula; e, ao acumular, constrói o formigueiro, uma estrutura arquitetônica no interior da qual a rainha, protegida pelos soldados, garante a continuidade da obra; de uma obra que nunca acaba ou, quando chega aos seus limites, se reproduz com a formação de outros formigueiros. O espírito capitalista, para a contracultura, sofre do mal das formigas: na sua crença de que, produzindo e acumulando, remodela o mundo para a glória de Deus ou da humanidade, isto é, para o progresso do gênero humano, na verdade atraiçoa a liberdade que, ao contrário das formigas, é inerente ao homo sapiens.

Seu esforço, para a contracultura, não é senão a confissão de sua insegurança diante de um mundo que, em última análise, é essencialmente inseguro; o espírito capitalista – laborioso e preventivo – é a expressão do medo da entrega ao imponderável, à fluídica metamorfose que define a existência humana e o universo como um todo; um esforço do qual resultam a “construção e a destruição de coisas belas”, pois a arquitetura perfeita do formigueiro é o produto da terra arrasada.

A cultura, enquanto sistema de dominação simbólico, repousa sobre o espírito capitalista; da sublimação dos desejos, do adiamento da vontade associada à virtude da competência, resulta a civilização ocidental: a multiplicação e o aperfeiçoamento ad infinitum de formigueiros no interior dos quais, por medo, cada formiga se encerra. Ao contrário da cigarra que, sobranceira, contempla o devir do mundo e de si mesma e dele faz música, a formiga se enterra na esperança de evitar a finitude, antecipando-se à própria morte.

Para a contracultura, o direito à preguiça, para usar uma expressão de Lafargue [1] é de todos e não só da rainha do formigueiro, pois é no ócio e não no trabalho penoso que repousa a esperança da libertação. Sua utopia, pois, é a da cocanha[2] e não a de Morus;[3] é a do sonho e não a da razão. Para que efetivamente seja de todos, sua abundância não é a do luxo ou do consumo, mas do simples e do necessário e sua eternidade não é a da vida longa, mas a do presente imediato, sempre bem vivido.

O espírito contracultural, ainda que preguiçoso, também trabalha, assim como a cigarra; o que as diferencia da formiga, em um caso, e do espírito capitalista, em outro, é apenas o enfoque, pois dele não esperam senão o que realmente pode dar: o alívio imediato e transitório de necessidades que, a rigor, jamais serão sustadas, por mais que se acumulem meios para tal.

Enquanto o espírito capitalista acumula energias e bens para consumi-los um dia, na eternidade, o espírito contracultural nada acumula, apenas vive do que, com o mínimo esforço, a eterna fluidez do presente lhe pode propiciar. Morre mais cedo, pois é imprevidente; mas, pelo que dizem, morre feliz.

 [1]  LAFARGUE, Paul. Direito a preguiça. 2ª ed. São Paulo: Hucitec, 2000.

[2] Utopia medieval na qual “quem mais dorme, mais ganha.” Vide: FRANCO JÚNIOR, Hilário. Cocanha: várias faces de uma utopia. Cotia/SP: Ateliê Editorial, 1998.

[3] MORUS, Tomas. A utopia. 6ª ed. Lisboa: Guimarães, 1985.

Marcos Alexandre Capellari é professor de História do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo. No doutorado, defendido na USP, estudou o discurso da contracultura no Brasil. É autor de livros didáticos de História e, por enquanto, de uma obra de ficção, o romance “Quase negros”, ganhador do prêmio Nascente USP publicado pela Editora Humanitas.

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