O Encontro – Prosa

O encontro estava marcado. Dois meses de trocas diárias de emails e Ana finalmente iria conhecer o dito cujo. Tanta excitação! Banho demorado. Na ducha, óleos afrodisíacos. A lingerie preta, rendada. O vestido gelo com flores vinho. A sandália de salto, as pernas alongadas. Uma última conferida no espelho, o retoque do batom e o olhar dizendo perfeito. No bar, Ana pediu: um conhaque! A garçonete sorriu simpática. Ana tensa, a mão gelada, o estômago saltando pela boca. Faltavam 10 minutos, ela se adiantou. Enfim, o relógio de parede marcou: meia-noite. Horário estranho pra um primeiro encontro, mas ele insistiu. Meia-noite e meia e nada. Hum, atrasado… Garçonete, mais um conhaque, por favor! A garçonete serviu a dose. E mais outra dose. Uma e meia da manhã e o seu encontro tinha virado fumaça. Ana, na jukebox, escolhia todos os hits “eu tô na fossa” possíveis e inimagináveis. O bar esvaziou. A garçonete se aproximou: quer uma carona? Não, eu não quero ir pra casa. A garçonete sugeriu uma volta pela cidade, adorava dirigir a noite. Ana pagou, catou a bolsa e seu conhaque. Tentando se equilibrar no salto, entrou no carro. Como é seu nome? Beatriz. Ele não podia ter feito isso comigo, não podia… Beatriz sugeriu uma água de coco no mirante da cidade. Ana disparou a chorar, ele dizia ser este o seu programa predileto. Ana se acalmou, abriu a janela, respirou. A música invadiu todos os espaços. Num reflexo inexplicável, Ana se voltou para o banco traseiro e viu ali jogado o romance de Paul Auster, tantas vezes por ele citado. Ana olhou Beatriz entendendo tudo. Ele estava ali, e era ela. O ar pesou. Uma tonelada. Ana, enganada e atônita, sentiu-se perdida. Pediu pra parar, queria descer. Beatriz concentrada continuou o percurso. Descontrolada, Ana gritava. Beatriz calmamente anunciou, chegamos! Um homem as esperava. Com um sorriso bonito abriu a porta do carro. Sentiu medo, o que estava acontecendo? Levaramna para dentro de uma casa. Num quarto aromatizado, com sedas escorrendo pelas paredes, eles a envolveram. Ana mergulhou numa sensação de prazer jamais sentida. No auge, num delírio explosivo, ouviu uma voz longínqua que a chamava: hei! Moça, moça! Você está bem? Estava gritando… Ana ergueu a cabeça. Tudo rodava. O relógio na parede marcava: quase cinco horas da manhã! Solícita, a garçonete disse num sorriso: se quiser, eu posso te dar uma carona!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *