Ó de Nuno Ramos, ou o anti-Narciso literário – Crítica Literária

“Estamos afundados em nossa carne, com mínimas janelas de conexão. Toda linguagem, toda ciência, toda poesia quer aumentar a transparência desse vidro frágil, mas acaba por aumentar sua espessura – em vez de fazer durar a epifania, substitui-se a ela, criando uma nova camada de isolamento.”

Nuno Ramos, Ó

 Esta obra tinha tudo para dar errado. Livro de reflexões que fala de uma experiência de si, modelo repetido encontrado nos manuais mais manjados de auto-ajuda ou nos blockbusters literários (entre espíritas e místico-juvenis). Nesta série, todos tratam de uma experiência de si, da longa jornada progressiva que, a cada desafio, perde-se muito (e não à toa, há muito sofrimento nesta literatura) para se ganhar ao fim, um eu fortalecido, produto exigido, ilusão dos nossos tempos.

No entanto, o livro Ó de Nuno Ramos é um êxito em meio a esta selva que virou o mundo das Letras. Suas reflexões não seguem o destino narcísico do muito que se apresenta como roupagem literária. Escapa da armadilha em associar reflexão e literatura como uma espécie de ensaio de si mesmo, de uma linguagem que se fecha para si e para o mundo – um produto frequente nas produções poéticas e da prosa. Como Ó realiza esta façanha?

Não se trata apenas de uma questão de estilo. A letra aqui está conforme a forma ensaística que se pretende, valendo-se do melhor de Montaigne mesclado às associações livres do surrealismo – sem assumir nenhum deles. De Montaigne, recupera o estilo livre dos ensaios, a arte de “pensar contra”, colocando a si mesmo como um outro. Do surrealismo, traz à tona elementos da associação livre, criando constelações perfeitas de mundos que se estranham entre si, presente nos títulos de cada peça; “Recobrimento, lama-mãe, urgência e repetição, cachorros sonham?”, “Coisas abandonadas, gargalhadas, canções da chuva, previsão do tempo, ida à Lua, ida a Marte” e “Mulheres Nuas, segunda via autenticada” são apenas alguns exemplos desta criação.

Ó é mais do que estilo, visto que seu objeto – que confere o título – escapa a qualquer forma literária. Estragando aparentemente a surpresa do leitor, Ó é “então alguma coisa como canto sai de alguma coisa como boca, alguma coisa como um á, um ó, um ó enorme, que toma primeiro os ouvidos e depois se estende pelas costas, a penugem de ventre, feito um escombro bonito, um naufrágio no seco, um punhado de arroz atirado para o alto (…)” (primeiro “Ó”). Este objeto que forma a órbita dos diversos ensaios deste livro. O autor faz questão de marcar: são sete Ó´s, intercalados por uma série de ensaios que buscam não definir, mas circunscrever este objeto peculiar nomeado por “Ó”. A descrição deste objeto lembra bem aquilo que Freud denominava o “estranho” [Unheimlich]: aquilo que habita o campo ambíguo do que nos é familiar e, neste sentido mesmo, distante. Como uma sombra que nos aparece de modo fugaz, que conhecemos mas não sabemos de onde. Neste sentido, a “criação em sete dias” para Ó é, pois, a descrição de uma experiência peculiar da existência.

Seria, pois, aqui, que a narrativa de Ó adquire uma força anti-narcísica por excelência. Não se trata apenas de apontar o Ó como uma mera experiência de diluição do eu. Haveria um engano na crítica estética que busca na experiência da dessubjetivação uma resposta aos ímpetos narcísicos, que cada vez mais moldam as formações subjetivas da entidade burguesa de nossos tempos de consumo e celebridades. Neste caso, tudo se passa como se a resposta ao espelho de Narcísico fosse quebrá-lo com as potências destrutivas da pulsão de morte, como se a todo instante devêssemos nos lembrar que o eu é a parte mais frágil de nossa configuração, um antídoto à patologia narcísica dos nossos tempos; como se a todo instante, tudo o que singulariza merecesse ser anulado, restando apenas a forma estética acima da matéria-formal da mercadoria.

Mas Nuno Ramos opta por uma saída mais dialética: verificar na inscrição deste eu, um sentido erótico que escape da mera auto-identidade. Seu livro começa e termina na mesma imagem: a nódoa no queixo que o personagem percebe diante do espelho. Naquele instante da relação íntima consigo mesmo, no momento privado do espelho, a nódoa é o ó que dispara a narrativa do estranhamento; Dispositivo estético que recupera sentidos esquecidos do corpo, para além das configurações estéticas mais comuns: aqui, o corpo não é mercadoria, mas também não assume a forma ingênua de uma potência infinita. O ó do corpo é carne, que se harmoniza com o mundo, não da forma infantil, da ilusão narcísica: o erotismo de Ó é a harmonia que não é auto-identificação totalizante, mas harmonia com os monstros (incluindo o tempo que devora), recuperando como fundamental, a experiência do encontro com o estranho.

Não por menos, ao fim dessa série de reflexões, o personagem de Ó encontra-se com o Outro, ou melhor com os Outros, seja na maneira da violência, seja na maneira erótica – mantendo assim, a força erótica que, um dia, Marcuse denominaria em suas revoluções. É a primeira vez que a narrativa se volta para além das suas lembranças e se relaciona com o outro mediante a identidade da diferença e da identidade, como o velho Hegel chegaria a afirmar um dia. Jogo duplo, como dupla é a existência pretendida por Ó: bidimensionalidade que se relaciona com o Outro, sem jamais esquecer com isso, as marcas da violência. Enigma que é convite para o leitor.

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