No dia de São Cosme e São Damião, também dia da MPB, decerto os “P” da “MB”* pediram muito a ajuda dos santos gêmeos.

 

Ontem foi vinte e sete de setembro e, antes de qualquer coisa, saudei as crianças – os erês e ou ibejis – nesse dia dedicado, pelo Candomblé, Batuque, Xangô do Nordeste, Xambá e a Umbanda, aos santos gêmeos Cosme e Damião. Para a Igreja valeu o dia de anteontem – vinte e seis.

Ontem também se comemorou o dia da MPB que, pensando bem, poderia, a exemplo da Igreja, ter tomado para si a data de anteontem – vinte e seis.

O paralelo é devido ao fato de uma coisa e outra, Igreja & MPB, estarem de um mesmo lado no que tange ao entendimento de que o popular ou “populacho” necessita ser substanciado por ser, a priori, destituído do conteúdo ao qual necessita ser apresentado. E os agentes portadores da substância com a qual o “populacho” necessita ser preenchido são ícones pertencentes às essas instituições da superestrutura – Igreja & MPB.

Mas vou me ater, por hora, a uma delas apenas, a MPB (que poderia se denominar: MPB CIA LTDA). É sabido e/ou é aceito que seu surgimento remete ao momento de declínio da Bossa Nova, movimento que se quis “o gênero renovador” na música brasileira e surgido na segunda metade dos anos 50 do século passado – com forte influência do Jazz norte-americano – e a pretensão de dar “novas marcas” ao samba tradicional ou, em outras palavras, higienizá-lo – limpá-lo – tornando-o mais próximo a um sabor mais agradável ao palato das classes obesas (mais e ou menos), como diria Milton Santos.

O interessante a ser observado é que ela, a MPB, tal qual sua antecessora Bossa Nova é um movimento de universitários (que se querem, insistem em ser, populares), logo, um movimento da casa grande, na/da indústria cultural à qual têm, desde sempre, o acesso e o domínio. Historicamente, os integrantes desses movimentos têm um mesmo lugar de pertença e hoje se fazem representar pelo Movimento Cultural Universitário de Raiz (de alface hidropônica). E seguem sendo os “Senhores & Senhoras do Engenho”, obviamente, agora, da “Engenhoca High Tech” que se tornou a indústria cultural. São, no mínimo, “Sinhozinhos & Sinhazinhas” – de CIAS LTDA’s submetidas às great international corporations – porém soberanas na relação de escambo com o “populacho” com o qual “negocia” e do qual costuma eleger meia dúzia de premiados para auferirem alguma fama e lhe emprestarem o (ainda) necessário lastro em suas performances – simulacros.

Igualmente interessante é que também num vinte e sete de setembro, precisamente em 1952, passava dessa para outra um ícone da era do rádio conhecido como o “rei da voz”, o cantor e “comp(r)ositor” Francisco Alves ou Chico Viola. Um ancestral – legítimo representante do segmento social gerador da Bossa Nova, da MPB.

Mas, definitivamente, o mais interessante é que (lendo um texto, deparei com o seguinte alerta) ela, a MPB, não pode ou não deve ser confundida com Música do Brasil que abrange: o baião, a bossa nova, o calango, o choro, o frevo, o samba, o samba-rock, o swingue, o xaxado, a própria MPB y otras cositas más.

E é por essas e outras que os do “populacho”, os “P” da “MB”*, bem a propósito, devem se agarrar à Patota de Cosme e, principalmente, devem se lembrar de todo vinte e sete de setembro  dar “cocada, paçoca, suspiro e pipoca; bolo, bala, bola, cuscuz e manjar”** à Falange de Erê.

(*) Nei Lopes afirmou certa vez que: ‘O Samba é o mais “P” da “MB”‘.

(**) Trecho da letra da música Falange de Erê de autoria de Arlindo Cruz, Jorge Carioca e Aluísio Machado.

Selito SD: sambista, compositor e pesquisador ligado ao Movimento Cultural Projeto Nosso Samba de Osasco, Geógrafo pela USP, um dos editores desta revista e integrante do Coletivo Zagaia.

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