Movimento Hip-Hop desafia a sociedade.

“As favelas aumentam e com elas aumentam os sonhos”

MC Careca & Pixote (mortos em 2012), Vai dar Guerra.

Perdoem-me a epígrafe que cita um um funk proibidão em um ensaio que pretende comentar o último movimento do Hip-Hop na cidade de São Paulo. Mas, a partir da Carta de Reivindicações do grupo apresentada ao Secretário de Cultura do Município, Juca Ferreira, é possível pensar uma política além do “passa pires” cultural a que se tem reduzido muitos movimentos culturais da cidade. Se aqui indicamos a presença do Funk, é porque a transversalidade natural ao Hip-Hop (que agrega diversas frentes de expressão artística: da dança ao grafite, da poesia à música) também se permitiu pensar para além das fronteiras do movimento, sem tomar a voz de outras expressões artísticas. Nesta Carta estão representadas muitas das reivindicações do Hip-Hop, mas podemos encontrar as sombras do que têm sofrido as diversas manifestações culturais das quebradas deste mundaréu.

Este diálogo teve um tom diferente do primeiro Encontro “Existe diálogo em SP”. Agora, a revolta dos proponentes do diálogo (foi o movimento Hip-Hop quem convocou este diálogo, diga-se de passagem) não se silenciava com a histeria reivindicatória que aconteceu anteriormente. Este havia sido um fato natural: após anos de silenciamento, as vozes diversas reivindicavam sua vez – mas a configuração daquele primeiro encontro acabou por tornar confusa as inúmeras perspectivas. De outro modo, o último diálogo com o movimento Hip-Hop levou os encontros com a Prefeitura a outro patamar: um diálogo de igual para igual. Longe de ser apenas a “sociedade civil organizada”, o que se mostrou na última reunião foi um movimento político cultural com impasses claros e uma vontade de superá-los, de preferência com a Secretaria da Cultura.

O clímax, decerto, foi a leitura da carta de reivindicações do movimento, que cito abaixo:

ATA DA REUNIÃO PREPARATÓRIA AUTÔNOMA DO MOVIMENTO HIP-HOP ORGANIZADO, CONVOCADA POR MILTON SALES E OCORRIDA SÁBADO (6/4) NA FAVELA DO MOINHO:

Presentes: MH2O São Paulo, Fórum Municipal do Hip-Hop SP, MH2O Guarulhos, MH2O ABC, Casa do Hip-Hop Diadema, Família Ducorre, Apocalipse Urbano, Rap Nacional, Rimatitude, Movimento Mães de Maio, Mutirão Cultural da Quebrada, Luta Popular, Movimento de Solidariedade à Palestina (Mop@t), Desinformémonos, Organização de Moradores da Moinho etc Indicações: – AUTONOMIA: Garantia e Fortalecimento da Autonomia do Movimento Hip-Hop (sem intermediários de ONGs e Empresas Culturais; Nóis por Nóis); – DESCENTRALIZAÇÃO DO PODER E DEMOCRATIZAÇÃO DO ACESSO: Descentralização do Poder Decisório e Democracia Direta sobre os Aparelhos e Recursos Públicos da Cultura (criação de Subsecretarias Temáticas do Hip-Hop e Regionais); – RESGATE DA HISTÓRIA: Projetos para Resgate, Preservação e Difusão da História do Movimento Hip-Hop Organizado em São Paulo; – FORTALECIMENTO DO FÓRUM MUNICIPAL, SUAS DELIBERAÇÕES, DA SEMANA MUNICIPAL DO HIP-HOP (LEI MUNICIPAL 14.485/2007): Fortalecimento da Autonomia e ampliação do orçamento anual da Semana Municipal do Hip-Hop em SP (atualmente em apenas R$ 100.000,00, com parte do dinheiro ainda sofrendo interferência); – RESGATE DA “CASA DO HIP-HOP” DE CIDADE TIRADENTES E CRIAÇÃO DE + 4 CASAS DO HIP-HOP (Z/L, Z/S, Z/N, Z/O E CENTRO): Resgate da Lei Original da Casa do Hip-Hop de Cidade Tiradentes (Projeto de Lei 422/2004), posteriormente transformada em “Estação Juventude”, e criação de + 4 Casas do Hip-Hop (como a Casa da Cultura Hip Hop Malcom X, PL. 763/2003), uma em cada região da cidade. – HIP-HOP CULTURA DE RUA CONTRA VIOLÊNCIA: Apoio a projetos e atividades que valorizem o Hip-Hop como a principal “Cultura de Rua Contra Violência” – valorização das propostas das posses, dos coletivos e grupos que estejam integrados ativamente às diversas articulações contra o Genocídio da População Preta, Pobre e Periférica; – FOMENTO A ESTÚDIOS PÚBLICOS DE GRAVAÇÃO; RÁDIOs E TVs COMUNITÁRIAS DO HIP-HOP ORGANIZADO – Criação de Estúdios Públicos Municipais, Rádios, WebRadios, TVs e WebTVs, Espaços para Produção Autônoma para o Movimento Hip-Hop poder canalizar o seu trabalho de forma independente; – VALORIZAÇÃO DAS POSSES, BANCAS, COLETIVOS E GRUPOS MILITANTES DO HIP-HOP ORGANIZADO, E NÃO DO HIP-HOP COMO SIMPLES SHOW/ESPETÁCULO: Maior apoio às posses, bancas, gangs de break e grafitti, coletivos e grupos do Hip-Hop Organizado: o Rap, o Break e o Grafitti das Ruas e do Cotidiano; – PROGRAMAS DE RECONHECIMENTO PROFISSIONAL, FORMAÇÃO E APOIO A NOVOS MCs, DJs, BBOYs E GRAFITEIROS; – HIP-HOP COMO CONHECIMENTO E FORMAÇÃO, “RAPENSANDO A EDUCAÇÃO”: Reconhecimento e apoio aos participantes do Movimento Hip-Hop como Educadores e Arte-Educadores. Resgate das experiências históricas (Rapensando a Educação, Hip-Hop nas Escolas, Sarau nas Escolas, Programa Hip-Hop é Educação – PL 609/2003), e criação de um grupo de trabalho entre a Secretaria de Cultura, Secretaria de Educação, Secretaria de Direitos Humanos e Secretaria de Promoção da Igualdade Racial para garantir as condições e a realização de Programas Educacionais a partir do Hip-Hop; – PROJETO DE OCUPAÇÃO DO HIP-HOP NA PROGRAMAÇÃO DOS CENTROS CULTURAIS, CASAS POPULARES DE CULTURA E NOS CEUs DA CIDADE; – PROGRAMA VAI – HIP-HOP: Construção de um Programa de Valorização de Iniciativas Culturais específicas do Hip-Hop, com critérios sócio-econômico-culturais bem definidos, e uma Comissão Julgadora com reconhecida história no Hip-Hop de SP; – FOMENTO AO INTERCÂMBIO CULTURAL DO HIP-HOP DE SÃO PAULO COM OUTRAS PERIFERIAS DO BRASIL E DO MUNDO; – PRÊMIO MUNICIPAL “SABOTAGE” E “DINA DI” DE HIP-HOP (Resgate da Resolução Municipal 008/2004): Construção do Prêmio Municipal do Hip-Hop a partir de uma Comissão Organizadora Autônoma formada por Julgadores com reconhecida história no Hip-Hop de SP; – PROPOSTA DE FORMAÇÃO DO “CONSELHO DA FAVELA” EM SP: Em contraposição ao recém-anunciado “Conselho da Cidade”, o “Conselhão” do Prefeito Fernando Haddad, como o movimento Hip-Hop, os Saraus, o Samba, a Cultura Popular, a Periferia, ou seja, a Maioria não foi convidada a fazer parte – contrariando inclusive tudo aquilo que o sociólogo Haddad sempre defendeu junto a outros dos seus pares que também fazem parte do Conselhão, a crítica do abismo entre Cidade e Favela – o Movimento Hip-Hop Organizado de SP propõe a criação do “Conselho da Favela”, com o mesmo número de integrantes e com a mesma periodicidade de reuniões, que serão realizadas de forma autônoma a princípio na Favela do Moinho; – QUE AS PROPOSTAS ENCAMINHADAS NO #EXISTE DIÁLOGO SEJAM APLICADAS NA PRÁTICA (PARA ALÉM DA CONVERSA), COM GARANTIA DE ORÇAMENTO, AUTONOMIA E EXECUÇÃO DE QUALIDADE PARA AS POLÍTICAS DO HIP-HOP E PARA A CIDADE.

A leitura da carta, aparentemente, foi reconhecida por todos que participavam do diálogo. Muitas destas propostas foram ditas durante o encontro, de modo fragmentado entre os participantes. O que mostra a força do movimento.

Não se trata de propostas descabidas, mas de uma série de reivindicações contrapostas à denúncias graves de uma política cultural cada vez mais segregatória.  Uma carta que não admite mais a diferença gritante (e sem justificativa) de cachês entre os artistas do movimento nos eventos patrocinados pela Prefeitura (se o bem é público, porque a diferença privada?); que não admite mais a ausência de espaços para a manifestação de sua arte: seja porque as Casas de Cultura ainda está nas mãos de vereadores que tratam estes aparelhos populares como o latifúndio de suas políticas, seja por conta da denúncia grave em que alguns CEUS, dominados por uma cultura religiosa intolerante, não permite que a cultura negra tenha seu espaço. E, por fim, a política de criminalização dos artistas da favela (seja do Hip-Hop, seja do funk), quando esta seria uma das maneiras de dar novas cores aos sonhos que nascem na favela. Por tudo isso, lembramos aqui Herbert Marcuse, a Grande Recusa desta carta.

Mas esta é apenas a metade do processo. A Grande Recusa é também um modo de auto-organização, mais do que uma luta por reconhecimento público. Algo também presente nas propostas mais interessantes deste documento. Seja na organização de prêmios e eventos (um exercício de memória entre seus pares), seja na possibilidade de auto-organização e reprodução de cultura para as futuras gerações, a Carta do Movimento Hip-Hop Organizado prepara uma nova possibilidade de política cultural para São Paulo: modo de criar um espaço público para as mulheres, para os negros, para os artistas da fome. O Estado seria aqui um parceiro importante para que esta voz seja dirigida por gente  “com reconhecida história no movimento Hip-Hop de São Paulo”. O poder público seria a vaca gorda que alimenta o rebanho há muito sofrido pelas pragas que assolam a região. Lembra Milton Sales, uma nova dinâmica que permita o fortalecimento de todo o rebanho é o que se espera deste diálogo entre o poder público e o movimento Hip-Hop organizado. Uma política sem intermediários culturais, sem cuidadores, sem espaços cultivados pela praga neoliberal e intolerante que fizeram um estrago no imaginário de muita gente. Como dizem, “é nóis, por nóis mesmos”, modo diverso de falar “autonomia do movimento”.

Destacamos, por fim, o importante passo, que justifica a presença do funk no início do texto. Ao remetermos a esta expressão artística (e podemos lembrar outras formas estéticas das comunidades que povoam a cidade, como o samba) estamos atentando para o que o movimento chamou de “Conselho da Favela” – um dos instrumentos políticos mais criativos que apareceram em São Paulo até então. Contraponto ao “Conselho da Cidade” (que pretende unir agentes sociais diversos (entre Luiza Helena Trajano,  dona do Magazine Luíza e Zé Celso Martinez Corrêa, do Teatro Oficina – todos com reconhecida história: entre o pior e o melhor da cidade), o conselho da Favela apresenta-se como a necessidade de um poder descentralizado de fato. Um poder que não se apega pelo acordo de classes, mas que se apresenta para as diferenças gritantes que divide a sociedade brasileira. Um poder itinerante, que circula e, possivelmente, se transforma no contato de osso e carne que as comunidades, em suas mais variadas formas e questões (locais e globais) acabam por apresentar. Um conselho que apresenta os piores pesadelos e os melhores sonhos que se materializam nas quebradas deste mundaréu. Nesta carta, o mais instigante é seu desafio à sociedade: um desafio que exige desta, a criatividade de políticas culturais.

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