Metrópole: Pane na Máquina ou Doença no organismo?

São Paulo é uma cidade sem cidadãos. Não digo que não ocorram protestos, inquietações de grupos ou ações individuais contra este espaço que nos engole a cada dia e que não pára de crescer. Mas basta ter a experiência de algumas horas para se notar que, apesar de tudo, as pessoas se fecham em seus vidros, olham o lado de fora como se fosse distante, espaço exterior do pequeno cubículo. Fechamento que não é desinteresse, pura e simplesmente, mas sinais de uma doença crônica própria ao viver em grandes metrópoles. E assim, seguem suportando o modo violento fino, as surras diárias que se tomam ao não ter um transporte digno, e nele ter de passar quase metade da vida consciente, trabalhar e voltar pra casa. Assim, a ausência de cidadãos está na ausência de um espaço público verdadeiramente plural, com pessoas que não tenham dúvida em ampliar as passagens para as pessoas e não para os veículos, em que os serviços básicos vitais estejam à mão.

É corriqueira a comparação das cidades com os corpos orgânicos. Lembra-nos que a cidade é um espaço vivo, um tecido social. Tem seus órgãos e suas vias circulatórias e respiratórias. E cada um de seus habitantes convive com este núcleo vivo conforme seu habitat. A comparação com o organismo também é interessante porque possibilita o olhar crítico em perceber a cidade como um ser saudável ou doente. Ou, para não generalizar, e não tomar uma perspectiva unilateral dos entusiastas com os pólos urbanos, ou dos críticos que veem a vida no campo como o que há de melhor diante de uma cidade corrompida, é possível pela mesma metáfora compreender a cidade com suas infecções, seus cânceres, mas também com seus anticorpos e suas pulsões de desejo.

E aqui entram em cena os mais diversos exercícios de intervenção urbana, com grande força entre situacionistas como Guy Debord, para os quais – críticos de uma cidade-chave na correia de produção do capitalismo – não partiram para uma crítica rousseauísta de afastamento dos grandes núcleos urbanos, mas pensaram em estratégias cirúrgicas que, no mínimo, fazem com que os males da cidade entrem em pequenos curto-circuitos. Num primeiro momento, Debord e seu grupo optaram pela “psicologia urbana” e os exercícios de deslocamento espacial. Algo que ainda hoje se nota, quando andamos em pleno centro urbano e nos deparamos com um sinal trocado do cotidiano, um grafite que mistura símbolos, uma foto colada na parede que nos distancia dos signos comuns presentes nos programas de TV e nas mercadorias.

Debord fez um exercício interessante para entender como o indivíduo convive com o espaço urbano: acompanhou a trajetória de uma jovem pelas ruas de Paris, notando assim como ela percebia o espaço que percorria. Da grande Paris, a jovem conhecia apenas uma pequena parte – a trajetória de sua casa para a escola e as aulas de piano. Hoje, se o mesmo exercício fosse feito, acompanhando alguém no seu trajeto – mesmo que a moradia seja distante do seu local de trabalho – talvez não notássemos um fenômeno diverso. Pelo contrário, ainda que os quilômetros rodados sejam consideráveis, os indivíduos não têm noção das metrópoles em seu todo, mas apenas nas partes que lhe cabem.

Talvez, menos do que um tecido, a cidade possa finalmente ser comparada a uma máquina. Têm peças substituíveis, outras que devem ser jogadas fora mesmo, em nome de uma nova cara, de um novo centro – a comparação com a máquina confere à cidade sua aproximação com o ritmo do progresso. Teoria do progresso que está no coração das críticas da intervenção urbana situacionistas, cujos exercícios nos fazem parar, ver e escutar o que normalmente não vemos e escutamos, porque não paramos. Tudo está administrado, até as crises do próprio sistema.

Intervenções são possíveis e seus sentidos variados e potências críticas diversas. Rodas de choro, operações cênicas, jogos circenses. Exercícios de nostalgia que procuram voltar a uma cidade que não existe mais? Ou exercícios de vivência, ainda que apelando à violência natural de quem sai do seu habitat, escuta uma nova língua, oferece ao público a perda da segurança uterina? Eis algumas questões que a intervenção urbana ainda está se perguntando.

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