Método de cozimento a vapor – Prosa

Não estava disposta a estabelecer um relacionamento entre mim e ele. Algo de terrível dispunha-se inteiro ante minhas intenções mais razoáveis de vida a dois, uma espécie de derrame de lucidez, espasmos de realidade atravessada na coluna, no canto dos olhos, no fôlego. Me propus ser acintosamente feminina, feminina de esmalte e cabelos lavados, o tipo de fêmea que surge no ideário grisalho dos machos médios.Tudo dependia de atributos e retornos, de um samba sincopado dançado às três da manhã com um qualquer de pau duro e sorriso de alface. Era preciso manter a sociabilidade, um micro território relacional intermediário, abrir para outros minha superficialidade indigna. Convívio raso e encontros casuais, felicitações em mictórios públicos, no grau de aleatoriedade que os amores saudáveis deveriam ter, se houvesse saúde nas relações.  Minhas experimentações me levavam ao estágio primário do ser humano, entendi ter sido feita para relacionamentos curtos, para doses pequenas. Sentia que sujeitos desconhecidos me encarando com fervor e carência era o ápice da sensação de arrebatamento, não só eu fui feita para relacionamentos curtos, como minhas tetas foram feitas para contatos breves. Como de praxe, me sentia tomada por um desejo insaciável. Encontraria com ele logo mais à tarde, já sabendo de sua insistência em matrimônios e bolos de glacê e, ainda que ultimamente parcimoniosa nas demonstrações de afeto, não me furtava às fodas de fim de tarde. Coisas a serem guardadas na memória da pele, no tato do falo. Nesse ânimo segui aos preparativos festivos de calcinhas e outras civilidades eróticas e, na quietude de fêmea indócil, escorava pelas paredes como que tentando frear. Segui pelas ruas convocando meus recursos, me controlando, me limitando à passagem dos carros e senhoras comendo paçoca. Um dia cinzento, daqueles que vemos em noticiários de TV: “Dia cinzento mata 4 no Rio de Janeiro”. Era assim. Borrada em cinza dobro mais um quarteirão, atravesso a rua, olho para os lados, ajeito predicados, fortaleço o egoísmo, cuspo o chiclete gasto na calçada, entro em seu prédio, abro a porta, me dissolvo. O cheiro áspero que os perfumes masculinos tentam sublimar permeia o ambiente. Ele um homem triste. Eu, toda oferenda. Não me interessava sua vida, apenas seus desdobramentos. “Linda” ele diz, já me pegando por trás com a mão esquerda estendida nas ancas, afrontando o corpo num tesão travestido de educação e postura, com a fome do sexo tardio, com o gozo ansiando o momento do sim. Sua voz me atinge o diafragma, me atravessa quente e macia, estimulando contrações musculares involuntárias e pensamentos lascivos e inconformados. Eu vociferava com o corpo avulso e lhe lambia as esquinas com a devoção de um monge, gemia minhas úlceras com a entrega de quem espera a morte. No meu sonho o cheiro do seu sexo me confortaria naqueles momentos em que a vida arde. Seria o júbilo dos dias desfavoráveis e me convenço por instantes em contrair núpcias como se um drama que legitimasse minha vida, como se à espera do caralho prometido, do brigadeiro nos sábados de eu-te-amo-querida. Eu me verteria em penumbra silenciosa sabendo que, no pós-coito seria a mulher da sua vida. Neurótica e estridente visualizava o que poderíamos ter. Teríamos bichos em volta. Um cachorro pequeno e portátil para facilitar as viagens e a vida de apartamento, o chamaria Roberto e a solidão se dissolveria nos latidos e passeios a fim de aliviar suas necessidades diárias. Roberto seria feliz conosco. Roberto não usaria meias. Não simpatizo com Roberto. Não me satisfaço com as benesses do verbo. Minhas cicatrizes observadas por estranhos confortam mais. Caminho pra vida e na minha cama bate sol.

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