Marx, Pubs e a formação da classe operária inglesa

Relação estranha entre os três, eu sei… Primeiro, porque Marx nunca foi uma pessoa afeita à farras e muito menos um beberrão. Segundo, o clássico livro de Thompson “A Formação da Classe Operária Inglesa” é um marco do pensamento marxista menos marxista que existe. Quer dizer, Thompson empresta de Marx alguma ideias para mostrar o quanto os valores, crenças, hábitos, modos de vida, cultura, costumes, coisas corriqueiras e cotidianas são também fundamentais para a criação, consolidação e principalmente a percepção de um grupo social (o título original da obra diz muito: The making of english working class (e o making of é como making of do cinema!). Coisa bastante anti-marxista, já que para o amigo barbudo, a economia e o lugar na sociedade de classes determinada pela economia era o fundamental.

E pubs? Bom, pubs a princípio não tem lá muito a ver com essa história. Será? Minha tese é que a relação entre os três pode ser muito mais profunda do que pensa a vossa vã filosofia. Vamos a ela:

Marx era alemão. Como todo alemão, devia beber cerveja. Algumas passagens de O capital, aludem a cerveja (evidentemente que em aspectos econômicos, já que nem Marx ou Engels foram nada além de bebedores eventuais). Marx viveu grande parte da vida em Londres. Morava num pequeno apartamentinho no Soho, um bairro que no século XIX era um bairro operário, muito simples e pobre. Mas cheio de pequenas tabernas, também conhecidas como “public house” (vulgo Pub). Eram lugares em que se vendida refeições, havia música, bebida alcoólica, ou seja, um lugar para dar alento às almas cansadas depois de uma rotina maçante de trabalho. Sabe-se que Marx frequentava os pubs locais. Sem estardalhaço, ia, como muitos outros, tomar um pint para relaxar, descansar, desopilar, bater papo.

Thompson, historiador marxista bemmm heterodoxo, autor de um dos meus livros preferidos, escreve algumas passagens sobre as tavernas (ou pubs) e sua importância para as camadas populares inglesas. Para Thompson, as classes populares, reunidas em tabernas, feiras e qualquer grande concentração que pudesse ser fonte de ociosidade, sedição ou rixa, eram vistas como um perigo aos olhos do governo. O que estava em jogo era menos o fato de “os populares” se reunirem e eventualmente, embalado pela cerveja, acabar trocando uns sopapos. O verdadeiro perigo das tabernas não era a cerveja, mas o fato de que ali, as pessoas se reuniam sem a rígida disciplina da fábrica. O tempo não era controlado, nem as ações, os pensamentos ou as opiniões. As tabernas representavam espaços de liberdade fora do mundo do trabalho, e portanto, eram espaços de conversa, de diálogo, de opiniões e principalmente, espaços de criação. Eram ali onde os trabalhadores cansados de uma rotina fustigante, com o controle absoluto do tempo e das ações da fábrica, podiam se libertar, mesmo que por algumas horas, do controle rígido da estrutura fabril. Não precisam controlar seus movimentos, nem cumprir metas, nem ter um tempo exato para apreciar uma cerveja. Os pubs eram perigosos porque eram templos autônomos que se apresentavam como espaços sem regras numa vida sofrida e desgastante. Se nas fábricas o controle do tempo era absoluto, no pub o tempo era o tempo de cada um, era um tempo sem normas e sem regulamentos. O tempo, era o tempo da pessoa e não do relógio…

Ora, o tempo é o fator mais fundamental de um dos conceitos mais importantes de Marx: a mais-valia. Para Marx, a mais-valia, ou mais valor, é a fonte de lucro que se obtém através do trabalho assalariado. O lucro, a grande mola propulsora do capitalismo, nada mais é que uma parcela de trabalho que o patrão não paga ao trabalhador, se apropria dela por ser o dono dos meios de produção. Se a fonte do valor é o trabalho, o lucro vem de um trabalho que não é pago ao trabalhador, uma parte que é omitida porque o trabalhador não tem outra coisa que não o seu próprio corpo que ele vende para a produção através de um salário. O mecanismo de o dono da fábrica controlar esta parcela de trabalho não paga, é o tempo. Quer dizer, pra obter lucro, o patrão precisa controlar o processo produtivo para obter mais produtos com menos tempo. Mais trabalho, com o menor tempo possível. É por isto que até hoje temos um treco que a maioria de nós odeia, chamada jornada de trabalho. Precisamos trabalhar várias horas por dia para gerar lucro, para obter nosso salário e assim mover a economia. É assim que funciona a parada do tal do capitalismo, diria Marx… Trabalho, controlado no tempo, para gerar lucro.

Mas, o velho barbudo perspicaz, sentadinho num pub, apreciando uma ale, observava que depois das jornadas de trabalho, os trabalhadores no pub se libertavam das amarras do tempo. O relógio deixava de ser um ditador voraz e o tempo se perdia por entre os copos. Thompson, muito mais que Marx percebeu esta relação. Por isto, o pub era um lugar sem tempo, ou melhor, onde o tempo era o tempo humano e não o tempo do capital. Daí o potencial subversivo do pub. Podia-se viver o tempo sem amarras. E com isso sonhar que seria possível uma sociedade em que o tempo controlado da jornada de trabalho, aquele tempo maçante, desagradável, que todos nós rezamos para passar logo, pudesse ser um tempo solto, livre, sem a imposição insuportável dos ponteiros. Não é à toa que Marx se reunia no pub. Ali grandes ideias circularam e movimentos foram planejados. E a cerveja? Bom, a cerveja é o anestésico do tempo. Era ela bem ou mal quem embalava todo este processo. Sem ela não seria possível desacelerar o tempo e muito menos se pensar num tempo em que tudo fosse diferente. A cerveja foi, naquele momento, o combustível das revoluções. Até porque, para se fazer cerveja, é preciso respeitar o tempo e jamais acelera-lo. Uma cerveja mainstream é aquela que fica pronta em uma semana… O quanto de mais valia há nisso? Sem o tempo correto das coisas, das leveduras, da maturação, corre-se o risco de uma cerveja ruim. Assim como sem o tempo dos homens e mulheres, sem o tempo da natureza, o tempo necessário das coisas, corre-se o risco de uma vida ruim… Era isso que Marx não queria. Era isso que Thompson viu. Era isso que o pub proporciona. É isso que a cerveja faz… Uma revolução. Viva la revolucion!! 

Um comentário em “Marx, Pubs e a formação da classe operária inglesa

  1. Precisa de uma outra versão, relacionada aos botecos e copos sujos que sempre estamos a tomar uma e a falar sobre o triunfo da beleza e da justiça. Valeu.

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