Macunaíma no caveirão do Nascimento

É possível que, de uns tempos pra cá, a figura do herói brasileiro esteja sofrendo algumas mudanças. Paralelamente, o sucesso de filmes que investigam o universo paralelo das favelas e da miséria da nação aos poucos se apropria não de um modo de ver o outro, mas de narrar a história deste outro. Começou com o olhar inocente e infantil de Central do Brasil, cresceu e tomou forma no bang-bang à italiana e tarantinesco da Cidade de Deus e agora, o imaginário coletivo entra na onda da Tropa de Elite. Neste ponto, o olhar e a letra sobre a miséria configuram uma nova ordem de discurso que se identifica na voz de um homem contra o “sistema”. É a narrativa do herói, que por mais distante e polêmico que seja, cala a socos e pontapés qualquer alternativa política que não seja a do bom moço. A luta do bem contra o mal está posta. Resta o preto e o branco do pensamento maniqueísta, coloração monótona que encanta os espectadores pela ladainha da luta contra o sistema, espectador mantido desperto graças aos tiros e rock pauleira que a estratégia do choque sustenta. Nesta ordem em que a guerra é o que mantém vivo o protagonista-narrador, Macunaíma é o primeiro “a ser passado”, torturado no patrimônio maior de Padilha: o elogio à polícia justa.

Quem manda ser vagabundo e preguiçoso? Viver de cacau, fugindo das saúvas – símbolo do trabalho de que Macunaíma tanto quer se distanciar – consumindo lagostas, cunhãs ou produtos industrializados da Rua dos Ingleses. Maneira irônica de se apresentar um herói brasileiro em fins da década de 1920, deixando em dúvida se o projeto de Mário de Andrade parte de um campo conservador do Brasil-paulista, ou de um elogio do Brasil que insiste em não ser moderno. Seu herói representa o povo das terras distantes que visitou. Negro, branco e índio têm suas representações entre o adulto, o porvir e o velho, respectivamente. Malandro por excelência, “o herói sem nenhum caráter” representa a astúcia amoral de quem não deixa de querer ficar por cima na hierarquia social, contrastando com o fim moribundo em terras de origens. Através do herói estão cifradas tanto a lenda de que “aqui tudo se colhe”, quanto a do povo que sempre se “arranja no jeitinho”. Eurocêntrico ou tropical, Macunaíma ainda preserva a ambiguidade que prepara um discurso aberto de um país que ainda não encerrou sua história.

Herói datado de um país que não existe mais? É bem provável que sim; sobretudo, se o ponto de partida de sua interpretação for localizado historicamente: o país dos anos de Macunaíma é bem diverso dos labirintos do Secretário Nascimento. Mas se analisarmos pela ordem das razões do discurso macunaímico é bem provável que algo se preserve para pensarmos a instância nacional. Macunaíma já esteve bem próximo do que seria o jeitinho brasileiro de resolver a vida. Seu maior embate se daria com o burguês-paulista-ameríndio-italiano Venceslau Pietro Petra, morto por seu próprio capricho, no caldeirão que a Caipora preparava suas vítimas. Assim como o Ulisses homérico, Macunaíma jogava astuciosamente com seu adversário. Não há um enfrentamento, apenas pequenas peças pregadas pelo herói que busca, assim, recuperar sua muiraquitã. Se em alguma hora, o herói invade a casa de seu adversário, logo trata de esconder-se, fugir, blefar – modos de se esquivar daquilo que projeta como destino.

O Nascimento de Tropa de Elite opta por um caminho diverso… Não se trata de adotar estratégias esguias, mas de estabelecer táticas eficientes para se ganhar espaço. Aqui, o único prazer é a guerra e a aniquilação a sangue frio dos adversários.

Por que a mudança do roteiro? A resposta de que o Brasil mudou – e, com ele, seus heróis – é ainda insuficiente para se entender o sentido eleito desta mudança. Por que o substituto eleito de Macunaíma é Nascimento, uma vez que são tão distintos?

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A comparação é fértil, mas gostaria de atentar alguns pontos sobre a natureza da personagem literária do herói, compreendendo o que se deixa para trás quando Macunaíma entra no Caveirão do Nascimento (estranho nome para um assassino). É provável que o meliante jamais fosse compreendido pelo exército de Nascimento. São duas gramáticas distintas, quase estrangeiras entre si. Enquanto o primeiro procura catalogar as espécies de um Brasil em aberto, o capitão articula o vocabulário do estado sitiado. “Não gostou? Pede pra sair, fanfarrão!” – um dos motes sádicos que mais circulam neste imaginário. Na contrapartida, é bem provável que Macunaíma responderia com longas reticências: “Ai! Que preguiça…”. Ficamos assim: “Ame-o ou deixe-o!” contra o “Deixe estar…”. Seguir esta trilha nos leva a explorar uma característica muito apropriada do herói enquanto voz de um universo discursivo. Através dele, um mundo passa a ser organizado.

Sob este prisma, Macunaíma seria reprovado. Aparentemente, nada mais contrário à ordem do que este herói. Ao primeiro olhar, sua narrativa está longe de impor uma ordem: mitos europeus se misturam com lendas nativas; por vezes, aquilo que seria o fio condutor, a busca do muiraquitã na luta contra Piaimã, é entrecortado por aventuras cujo sentido parece não aderir aos intentos do herói. Diferentemente ocorre em Tropa de Elite, que, em suas duas edições, projeta missões que devem ser cumpridas – o que orienta a narrativa heróica: seja arranjar o substituto do cansado Capitão Nascimento ou derrubar o “sistema”. Assim, a sequência deste filme procura organizar o nosso olhar, discernindo o mundo civil do policial e, no interior deste, o policial incorruptível do corrupto, o incompetente do competente, a polícia e a política. A objetividade da câmera é implacável na sua capacidade de desenvolver categorias, mesmo que desviada por recuos no tempo narrativo. Com este realismo categórico vem a necessidade de estereótipos: o estudante classe média maconheiro, o policial bonzinho, o capitão severo, o político corrupto, o político bonzinho (ainda que faltem tipos sociais essenciais: a elite propriamente e os eternos invisíveis – que servem mais como figurante e alvo de bala do que propriamente como alguém portador de direitos e linguagem).

Contrário a estereótipos, Macunaíma assume a todos: é o preguiçoso, o triunfante, o derrotado moribundo, o branco que segue para a cidade grande, o homem com cabeça de criança, o bicho-do-mato que se transforma em príncipe. Referências de transformação, metamorfoses difíceis de acompanhar. Seria Gilda de Mello quem procurou o que sustenta o discurso do livro como algo coeso. Não se trata do fato de que a narrativa está centrada nas peripécias de um personagem – posto que é metamorforseante. A unidade de Macunaíma também não está, para a leitora, na circularidade quase odisséica do herói. A coesão se faz pela forma estética, naquilo que Mário de Andrade sempre preservou: a forma musical – traduzida em literatura no Macunaíma. De maneira diversa à imagem, a arte musical fornece um território de abstração pelo qual suas formas se entrelaçam. A ousadia de Mário de Andrade está em compor uma obra que circule por entre formas rapsódicas, e que desvia a criação artística para territórios que seguem além das dicotomias clássicas: Erudito versus Popular, Nacional versus Europeu, são oposições ultrapassadas nos episódios de Macunaíma.

E o autor ultrapassa em dois sentidos: o nivelamento estético, quando as formas estéticas ascendem para um nível superior de arte culta; e o desnivelamento estético, quando o movimento segue o sentido contrário (Souza, 2003, pp. 20-21). Não se trata aqui, pois, de estilizar a produção popular. Mário de Andrade estaria atento para o fato de que nas canções de roda infantil estão expressas formas estéticas elaboradas. Ou seja, o que se pretende aqui é uma dialética entre os níveis de produção artística capaz de alcançar uma integração que não descarte do universo da linguagem nenhum elemento. Algo neste sentido aparece em sua “Carta pras Icamiabas”. Ali, Macunaíma é capaz de falar com o populacho e com as ciências, de travar debates com seres naturais e celestiais. E através da narrativa de sua aventura, todos estes elementos ganham vida, conferindo ao outro um lugar na ordem discursiva.

Movimento que, insisto, não existe em nenhum momento em Tropa de Elite: os estereótipos não dão conta de mostrar suas diferenças. Sob o olhar do Capitão Nascimento o universo discursivo não permite as zonas de dúvida, senão as dele próprio. Mesmo quando André, o policial “racional” e “do bem”, resolve se misturar com o universo paralelo dos civis, o herói já antecipa ao espectador: “vai dar merda…”, conforme repete insistentemente Nascimento em diversos episódios. Aqui, aos poucos, se revela o sentido do universo discursivo do novo herói: sua linguagem é a da guerra, sua gramática é a estratégia de um general solitário prestes a perder a luta contra “o sistema”.

No universo da imagem, a câmera também sustenta este universo bélico: uma luz verde-claro que acompanha o ambiente de escritório, outra que sustenta a imagem noturna na batalha da favela; um movimento de câmara que acompanha a ótica de Nascimento. Dentre todos estes elementos, nada mais fechado do que o universo discursivo apresentado pela estética de Padilha. Longe de algumas experiências feitas por seu companheiro Marcos Prado, como Estamira, o olhar de Tropa de Elite é o da guerra, algo que ainda fica mais explícito no segundo filme, quando Nascimento sai da cena do front e ocupa os escritórios da inteligência do Estado. Em ambos os casos, embora com mudanças de cenário, o sentido discursivo ainda é o fechamento, a definição, o juízo sobre as categorias e seus estereótipos. De modo diverso a Macunaíma, há apenas um sentido estético, o nivelamento (com a competência na captação de imagem), dispensando qualquer disposição dialética de seus estereótipos. Há o enfrentamento da força das imagens, mas não há movimento: apenas a monotonia discursiva do Nascimento. Peças estereotipadas que fazem correr o sistema imóvel: definitivamente, o outro é o inimigo.

E Macunaíma não expressa a violência? Não há lutas, sangue e morte? Venceslau Pietro Petra não seria o inimigo-outro a quem Macunaíma havia jurado vingança? De fato, não podemos esquecer este lado. Mesmo o erotismo deste herói sem nenhum caráter é, no episódio com a amada Ci, banhado de sangue no interior da mata. Desleal com seus amigos, Macunaíma não ocupa o lugar do herói-santo – é o “Grande Mau” (conforme Mário de Andrade traduz pela leitura do folclore das tribos venezuelana e guianas descritas por Koch-Grünberg). Macunaíma é, pois antes a passagem das ambiguidades, e não a síntese de um projeto de Brasil. Antes de nossas conclusões comparativas com o herói Nascimento, vejamos alguns aspectos desta ambiguidade macunaímica.

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“Muita saúva e pouca saúde, os problemas do Brasil são”, eis um dístico que Macunaíma insiste. Aqui se apresenta o conflito macunaímico: simbolicamente estão dispostos o trabalho das formigas e o estado natural a que a doença procura nos limitar. Escapar deste paradoxo da formação é o sinal do Brasil moderno projetado por Mário de Andrade. Desta dupla, Venceslau Pietro Petra seria apenas o resultado, o Latino-europeu ganancioso, devorador de gente, colecionador das riquezas e felicidade do país cujos males são o excesso de saúvas e a falta de saúde. Argumento mais astucioso do que a saída fácil de declarar guerra ao “sistema”, seja lá o que isso significa.

De fato, é considerável que a leitura de Macunaíma e sua vitória sobre Piaimã seja menos triunfante do que é narrado. Mário de Andrade deixa aqui a marca de uma dúvida, que permite o exercício de reflexão. Seu herói volta, embora restituído, moribundo para Uiracoera. Paralelamente, não se pode dizer que teve uma vida de rei na cidade, onde, impulsionado por seus desejos, perdia nos jogos de azar e do amor. Conforme lembra Bosi, não há síntese possível na dinâmica desta obra: o herói não encontra felicidade nem na mata, nem na cidade: “nem a cidade representa uma saída para a selva, nem a selva para a cidade. O sentido é o impasse” (Bosi, 1988, p. 139) – e por isso mesmo, o destino final – desolado, e não apoteótico – é a esfera celeste, quando Macunaíma transforma-se em Ursa Maior.

Algo da ordem do impasse ainda sustenta as reflexões do Capitão Nascimento – mas não do secretário. Por isso, Tropa de Elite 1 contém elementos mais interessantes do que sua sequência. Nesta primeira versão, o herói ainda não se determina enquanto tal. Naquele momento, várias foram as entrevistas em que Padilha insistiu em desclassificar o heroísmo de Nascimento. Havia até então neste personagem algo de ambíguo, na medida em que, em seu trabalho de formação, ele fazia e não fazia parte do sistema, encarnando por vezes a voz desta gigantomaquia criada socialmente. Ao mesmo tempo em que procura solucionar estratégias e, em alguma medida, faz o que considera ser justo, não deixa de resolver sua ordem no impulso da violência, sob a justificativa eterna de que estamos numa guerra. Na ordem da ambiguidade, era interessante ver como a ideologia local se aterrorizava com o Nascimento que, ao mesmo tempo, espanca os maconheiros da classe média e os “aviõezinhos” da favela.

Em Tropa de Elite 2 esta ambiguidade do Nascimento se esvai. Agora é ele contra o sistema. Padilha resolve assim responder a algumas críticas. Até mesmo, a classe média sai um pouco satisfeita do filme, quando o filho do Nascimento procura aliviar sua amiga que levava consigo algumas “trouxas” e é presa em flagrante. Nada mais satisfatório para seu público. Nada mais agradável a este mesmo público do que o espancamento catártico no político corrupto. Chuck Norris com falas e uma melhor interpretação, Nascimento não perdoa a quem sai dos rigores da lei. Neste sentido, o segundo filme perde muito do que poderia ser tecido a partir do primeiro. Recuo de Padilha diante do “sistema”? Sistema que, aliás, nunca é definido, embora dito repetidamente o seu nome. Conteúdo sem forma, o “sistema” torna-se uma estrutura móvel, sustentada por uma ordem de estereótipos presentes em qualquer lugar, sobretudo nos corredores do poder e da milícia, na família da classe média – embora nunca nas decisões empresariais. Até se fala do dinheiro que sustenta o sistema, bem no plano de sobrevôo final, com o discurso rigoroso de Nascimento pairando sobre a Esplanada dos Ministérios finalizando na bandeira nacional – recentemente atingida por um manifestante que lhe ateou fogo, enquanto pronunciava um discurso confuso contra o “sistema” – mas a origem do dinheiro apenas é insinuada.

Paranóias a parte de um país que sofre, a falta de definição do sistema, acompanha o subtítulo de Tropa de Elite 2: “agora o inimigo é outro” – nada mais coerente: depositar no outro o perigo é estratégia recorrente de quem opta pela saída fácil de que o “sistema” é o adversário. Neste sentido, vale tudo contra o outro, seja lá quem ele for. Qualquer estereótipo do sistema deve ser destruído sistematicamente, aniquilado pelo único narrador do filme: o ego justo, embora enfraquecido e cansado, do capitão Nascimento. Estratégia bem diferente de Macunaíma, que carrega consigo o Grande Mau, que, em suas mentiras e astúcias, foge dos adversários, e percorre o Brasil nesta fuga. Mário de Andrade analisa o Brasil a partir deste personagem nômade, que jamais aceitou o sedentarismo da cadeira pública de uma secretaria para manifestar o que é, o que não é e o que poderia ser o Brasil. Contrariamente ao impasse de Macunaíma, Nascimento sofre de um falso dilema: o dilema da guerra em que ou resta ele ou o outro.

Daí as estratégias adotadas serem tão díspares: em Macunaíma, o que prevalece é a preguiça, o deixar-se levar ainda que tenha alguns objetivos, como a recuperação do muiraquitã. Estratégia presente no dande benjaminiano, contrário ao ritmo do trabalho moderno: a preguiça é a tradução perfeita de conquistar o seu próprio tempo: fazer o máximo com o menor esforço possível. Deste modo, a preguiça é anti-natural, pois há um trabalho para ser preguiçoso, para não se deixar morrer – mas é também uma resistência ao trabalho moderno, que engole o homem na poeira do tempo. Nascimento, por sua vez, tem em mente sempre uma estratégia, o artifício diretamente oposto à preguiça, na medida em que também busca utilizar minimamente recursos, mas, diferentemente desta, tem em vista os fins. Explico-me: na preguiça, os meios são mais importantes do que os fins – aliás, neste pragmatismo, ela é o fim de si mesma. De maneira oposta, embora com naturezas próximas, a estratégia sempre busca um fim, não importa quais os meios. Daí o tempo na estratégia é a rapidez, a eficiência. Neutralizar e eliminar o inimigo o quanto antes. Para Nascimento, é necessário, sobretudo, sobreviver; enquanto para Macunaíma, o importante é viver.

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Por fim, uma advertência. Este ensaio não é um elogio a um modelo heróico em detrimento de outro. Apenas gostaria de, a partir da marca simbólica do herói – com todos os problemas que existem num projeto nacionalizante como este – investigar algo da ordem do imaginário coletivo que circula pelo sistema cultural. Sequer, é possível dizer que Macunaíma seja o modelo nacional por excelência, dado que junto a ele existem diversos ensaios sobre a identidade nacional que exploram símbolos externos ao eixo particular de um país de proporções tão grandes. Talvez, ainda esteja para ser feito um estudo sobre o imaginário coletivo que não se fixe nos limites da formação da nação, como até hoje herdamos dos pioneiros da República Velha. Digressões a parte, o objetivo deste ensaio é antes trazer a tona a variação no modo de narrarmos a produção cultural e o universo simbólico que se mobiliza através disso. Procuramos em Macunaíma e em Tropa de Elite 1e 2 modelos que reflitam variações e limites. Modelos que se aproximam enquanto procuram interpretar as mazelas nacionais, mas que se afastam nos projetos estéticos e seus alcances. Algo que se desmistifica em uma última observação sobre a natureza dos sujeitos-narradores.

Desde sempre, Tropa de Elite evidencia a voz de capitão Nascimento, que, entre as suas dúvidas e as do próprio diretor Padilha, acaba tomando a tônica discursiva. É ele quem investiga, julga, prende e mata. Para além do bem e do mal, Nascimento é apenas fruto de uma sociedade corrompida – como indica o início do filme quando afirma: “a sociedade o formou pra isso”. Apoiado em uma sociedade sem persona, o herói tem identificação direta com a Lei, ou com o modo como ele a interpreta. Assim, Nascimento narra sua própria história: autor de si mesmo, justifica suas atrocidades diante do sistema e da sociedade – algo que se encerra na versão moralizante-espetacular da CPI. Macunaíma segue um caminho diverso: alguém narra suas desventuras, configurando em si uma alteridade enigmática que pretendemos desvendar no decorrer da leitura. Assim, a relação entre o leitor e Macunaíma, não é imediata – há uma interferência – inexistente, aliás, em Tropa de Elite. Aos poucos, descobrimos quem é este narrador de Macunaíma: um papagaio, o último ser nativo com quem Macunaíma reserva suas conversas.

Seria esta a última peça que o herói sem caráter nos havia reservado. Jamais suspeitaríamos que seria uma ave a responsável pela narrativa. Opção astuciosa, visto que o papagaio seria aquele modelo natural mais próximo do campo simbólico da linguagem, capaz de emitir palavras. Mário de Andrade estabelece aqui a passagem dos dois universos presentes no impasse de sua obra: a natureza e a civilização. E aqui temos um curto-circuito com o herói contemporâneo de Tropa de Elite. Se, por um lado, Macunaíma se utiliza do animal mimético para narrar sua humanidade heróica à gente de seu povo, Nascimento, por outro, segue o caminho inverso: exclui de si qualquer universo político que não seja o espetáculo e a publicidade da tragédia da CPI, da verdade a ser confessada nos tribunais parlamentares. Mas talvez, não esteja aí sua catarse – tudo se resolve quando finalmente Nascimento mostra a que veio: derrubar o sistema no pau. Enquanto Secretário, fica atado às amarras políticas, enquanto Capitão, ocupa o território indeterminado da polícia – aquém e além da política. Tudo se resolve quando Nascimento opta seguir pelo caminho inverso de Macunaíma: volta à natureza, onde encontra a força e a brutalidade que o sistema lhe ensinou. Eis aqui o verdadeiro Nascimento e o gozo de seu público! Resta pensar que entre a animalização do discurso e a expressão discursiva da natureza, Macunaíma se encontra com o Caveirão e, para não ser preso pelo sistema, ocupa agora a cadeia celeste, observando de cima a brutalidade dos “heróis” nacionais.

Bibliografia:

ANDRADE, Mário de. Macunaíma – O herói sem nenhum caráter, São Paulo: Ed Martins Fontes, s/d.

BOSI, Alfredo. “Situação de Macunaíma” in Céu, Inferno – Ensaios de Crítica Literária e Ideologia, São Paulo: Ed. Ática.

CAMPOS, Haroldo de. Morfologia do Macunaíma, São Paulo: Perspectiva, 1973.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de. “O mito de Macunaíma” in O Espírito e a Letra (vol. 1), São Paulo: Cia. das Letras, 1996.

SOARES, Luiz E. et alli. Elite da Tropa, Ponto de Leitura, 2011.

___________________. Elite da Tropa 2, Ed. Nova Fronteira, 2010.

SOUZA, Gilda de Mello e. O Tupi e o Alaúde, São Paulo: Ed. 34, 2003

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