Imagina em Junho?

downloadA leitura de A multidão foi ao deserto tem o sabor dos dias de Junho, que parece não passar. Bruno Cava declara as intenções de seu trabalho como algo sem pretensões teóricas de fôlego, preferindo o esforço de “se inscrever nos fluxos de imaginação, uma imaginação real e em movimento”. Trabalha assim como se fosse um diário daqueles dias Junho com seus desdobramentos até Outubro. Portanto, é um texto cujas palavras são forjadas no calor da hora. E aqui está a força e a obsolescência do livro.

Pois o autor de fato não tem uma teoria explícita, embora a indique desde o título do livro suas preferências analíticas. A “multidão que vai ao deserto” tem ligações com gente de peso como Antonio Negri, Gilles Deleuze e Félix Guattari. Boa companhia para se pensar os levantes, o momento da luta e para sustentar a narrativa de um diário de luta. Todos eles se afirmam na experiência de pensamento que utiliza os conceitos não como categorias científicas que pensam o mundo à distância, mas como estratégias para transformá-lo.

Nesse sentido, Cava tem no seu “diário de bordo” a força da acusação que nos faz lembrar o presente que vivemos. Na tentativa de descrever porque saímos às ruas, o autor lembra a indignação. Algo que está na perspectiva dos jovens que foram ao combate. Aquém de toda a violência dos protestos, basta lembrar o combustível que o incendiou: o encontro entre a “mobilização produtiva dos pobres” e o “descarrego das culpas acumuladas diante do crescimento” (p. 54). Lembra assim, que – a despeito da virada lulista – ainda estamos sob a égide neoliberal.

Decerto, não são os anos bárbaros de FHC et caverna. Construíram-se universidades, escolas e hospitais. Sob a marca de uma nova gestão econômica, tenta-se até hoje reformar todo o complexo industrial em um novo ciclo desenvolvimentista (bem diverso das vergonhosas vendas das empresas em tempos tucanos). Em contrapartida, alavanca-se uma nova comunidade ao consumo e ao emprego com jornadas de trabalho abusivas. É fato que, com isso, milhões saíram da miséria extrema em um país sem fome. Mas a que custo?

A tese de Cava é a de que há um duplo lulismo (na esteira de André Singer e além). Por um lado, um “lulismo de Estado”, que opera na lógica “macroeconomicista” das reformas necessárias para uma governabilidade eficiente, orquestrada com o apoio das diversas frentes econômicas. Por outro, um “lulismo selvagem” que opera nas políticas sociais, com os programas de renda mínima, oferta maior de saúde e educação etc. Em meio aos dois lulismos, surge uma nova massa social com novas demandas. Cava aqui repete corretamente a tese de que é esse crescimento de expectativas que levou a população às ruas.

Pois, as expectativas que surgem no novo cenário quais são? Embora tenha mudado a margem da miséria, o núcleo neoliberal continua vivo. “Sou brasileiro, e não desisto nunca”, dizia um slogan que marca os anos Lula-Dilma. Aqui está o que permanece de neoliberal: é na conta do indivíduo, de suas decisões que – ainda hoje – as mazelas sociais são lançadas. Somos empresas de nós mesmos. Por isso produzimos como loucos e acreditamos que a culpa dos nossos insucessos advém de uma escolha errada que fizemos no percurso de nossas vidas. Pensar como o neoliberalismo sobreviveu entre nós, a despeito das vitórias do PT, é um dos desafios mais fortes do livro.

Desafio a que Cava não responde suficientemente. Não era esse seu objetivo. Mas também, digamos que seu arsenal teórico era insuficiente para a batalha. E aqui se aponta a fraqueza de sua narrativa diária. Pois a leitura remete a inúmeras imagens repetidas dos protestos. Como nas sequências de video-ativistas que vemos constantemente no youtube: A multidão em festa, a polícia no cerco, o corre-corre dos combates, a mídia marrom manipulando os fatos, gente presa e ferida etc. Registro importante mas, como defende a mídia Ninja, uma massa de mídias em que a imagem que se repete ad nauseam. Não digo isso com desdém em relação a quem protesta, mas pelo risco da narrativa promovida por Cava.

Pois, como dito anteriormente, ele está preso nos fluxos da imaginação real e em movimento. Tentativa astuta de apreender o momento no calor da hora. Mas, infelizmente, insuficiente para ir além do que um relato dos dias de Junho. Alimentado por um imaginário, toda a indignação de Cava fica encarcerada num fluxo de imagens que se repetem. Será por que a realidade se repete com seus engenhos de repressão? Talvez.

Mas talvez não. Porque o exercício de Cava fixo no imaginário deixa a desejar em muitos momentos. Defende com violência as posturas da “esquerda tradicional” e torna-se condescendente com os “verde-amarelo”. Em defesa (justa) dos Black Blocs atira-se com força contra os que consideram esse movimento fascista. No entanto, porque seu imaginário está fixo nas ruas, Cava é incapaz de discernir os “coxinhas” dos movimentos em protesto. Rejeita-se o vermelho desbotado das velhas esquerdas, mas não o “verde-amarelo” reluzente nas ruas. Posição antropofágica esquisita que, no imaginário tropicalista, tem a boca maior do que os olhos, e não enxerga o que engole. No fim das contas, o movimento anticorrupção, o protesto contra os vinte centavos, o “volta Conca”, a multidão em festa e luta no deserto: todos contêm a verdade dos indignados.

O imaginário de Cava, infelizmente, não permite uma avaliação para além do calor das ruas. Nisso saem alguns ufanismos e ilusões sintomáticos. Ao associar, por exemplo, o movimento de Junho às demais ondas de protestos (como a Primavera Árabe) não há nenhuma palavra sobre os retrocessos que estes vivem hoje. Para o autor, nas “revoluções árabes, derrubaram ditaduras que até pouco tempo eram consideradas sólidas como pedra” (p. 52). Enganos que surgem quando se confia demais no imaginário…

No fluxo da imaginação, as imagens repetidas de luta e multidão realmente animam nossas mentes e estimulam nossas práticas. Porém, o livro de Cava mostra bem o limite de se fiar no imaginário. Por vezes um junho inflacionado em suas expectativas deixa a desejar na determinação da luta que deve ser feita, ou pior, dos parceiros dessa luta. Tudo junto e misturado, tudo é válido quando a indignação ocupa as ruas. A estranha defesa marinada que muitos cariocas assumiram nestas eleições que o diga.

Infelizmente, é preciso exigir mais do que o imaginário para pensarmos Junho. Fica aqui o convite para Bruno Cava: nadar na contracorrente do fluxo de imagens, para se pensar Junho como um evento simbólico, quando este escapa de sua própria imagem e semelhança e passa a responder por novas categorias e práticas de transformação social.

Talvez tenha sido esta a grande sacada dos movimentos que saíram para as ruas já antes de Junho e fizeram um verdadeiro trabalho de base. MTST e MPL no caso de São Paulo, bem como os movimentos indígenas em diversas manifestações: todos eles se tornaram mais do que imagens, foram às ruas e constituíram símbolos como os 20 centavos, as ocupações em vermelho, os ataques à arco e flecha. Símbolos que renderam a possibilidade de luta para além do delírio imaginário. Herança que carece mais do que o fluxo de um diário.

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