Homens de Fumaça – Prosa

       HOMENS DE FUMAÇA

 Não preciso enxergar o mal que me rodeia. Ele me chega de várias maneiras. Através do ar putrefato, do asqueroso cheiro de peixes podres que vem do rio, do mau cheiro desse pó maldito que penetra em nós causando danos irreparáveis em nossos pulmões e, aos poucos, vai nos deixando cegos.

Não consigo esquecer o entusiasmo e os rostos aparvalhados dos moradores de Querência quando receberam os fundadores da Fábrica. Nos discursos na pracinha todos foram unânimes em assegurar que, a partir daquele dia, o ingresso da cidade na era moderna e progressista era irredutível. Certamente os dias de atraso, como diziam, eram coisa do passado.

Hoje, com certeza, gostaríamos de não ter conhecido esse tal de progresso. Não me lembro de ninguém que não houvesse aplaudido os discursos e, os mais entusiasmados ligados ao prefeito, terem carregado nos ombros os diretores da fábrica sob o som empolgante da pequena banda de música que emitia sons de dobrados com um fervor nunca sentido antes.

Lembro-me, com pesar, de como os pais de família, sem nenhum pudor, entregavam suas filhas para técnicos e engenheiros da fábrica. Era a maneira de eles procurarem o sucesso. Ao oferecerem suas filhas, durante almoços ou jantares, disfarçavam não as ver serem bolinadas na frente de todos. Ao se calarem, pensavam assegurar para si um futuro mais promissor.

Nossa pequena cidade sempre foi tida como pacata e ordeira, talvez por saber disfarçar muito bem as mazelas ocorridas no seu meio. Uma mãe solteira, na época, estava condenada a execração pública. Como outras pequenas cidades, trazia consigo um apreço por nomes pomposos de famílias tradicionais. Podiam morrer de fome, ou em andrajos, mas carregavam consigo um orgulho indisfarçável do nome da família. Hoje não vejo, mas ouço seus lamentos, e, tardiamente, eles perceberam que nos igualamos na dor, navegamos no mesmo mar de merda que o progresso trouxe.

Era motivo de risos quando se falava sobre camada de ozônio, aquecimento global e, principalmente, quanto à preservação de nossas fontes de água. Só podia ser coisa de cientistas ou daqueles malucos do tal de “Greenpeace”. No meio de tanta água e tanto verde, quem iria se preocupar que um dia isso se acabaria. De vez em quando, como fosse um órgão mutilado do meu corpo, sinto folhas de coqueiros ao vento, o cheiro adocicado de  plantinhas orvalhadas, ouço o canto frenético de pássaros que passam em revoadas triangulares. Sei que isso também é alucinação. Nada disso está mais por aqui. Ficaram em minha mente como outras coisas que eram consideradas um atraso, mas que eram tão simples e boas. E, talvez por serem simples e boas, não foram preservadas.

Não demorou muito, depois da instalação da fábrica, sentirmos de fato para o que ela veio. As consequências foram quase de imediato. Começou com um odor desagradável que foi se expandindo vagarosamente. Pensávamos que fosse algum fazendeiro da região queimando algo que desconhecíamos. Já não estranhávamos tanta fumaça, pois já faziam muitas queimadas para grandes pastos. Aquela vinda da fábrica logo mostrou seus efeitos. Logo começou uma epidemia de tosse. Ouvíamos toda a vizinhança tossir. Parecíamos uma orquestra desafinada regida por um maestro enlouquecido. Não eram sons de tosse normal. No início até ríamos de alguns deles. Depois nos escondíamos quando percebíamos que iríamos tossir. Em seguida, apareceram alguns peixes mortos flutuando no rio. Pensávamos que fosse desperdício de pescadores da cidade grande que sempre faziam isso. Estávamos novamente pensando errado, principalmente a respeito dos outros, enfim, a dor do outro nunca nos incomodou muito. Ficamos, gradativamente, anestesiados com a perda do sangue, dos membros, dos sentimentos, ou de qualquer outra coisa chamada humana. Fomo-nos embrutecendo e definhando fisicamente, a mente acompanhou simultaneamente, à sua maneira, esse processo.

Os trabalhadores e proprietários da fábrica, apoiados pelos políticos locais, ainda gozaram por muito a simpatia dos habitantes da cidade. Aliás, tudo que era estrangeiro sempre foi bem recebido por nós, sem nenhum questionamento. Compravam as melhores casas e, de certa forma, as moças mais bonitas. A cidade ainda parecia um eterno carnaval. Havia sempre festas nos finais de semana em várias casas, às vezes na mesma rua, quando as pessoas esqueciam a cor da pele, a ascendência e se confraternizavam em uma festa só. Entusiasmados pelo álcool, esqueciam seus interesses diversos, irmanavam-se fugazmente. Não se falava nos males que nos rodeavam. Eram já muitos, mas parece que num pacto involuntário tornavam-se indolentes e cegos, embora ainda enxergassem. No rio, milhares de peixes mortos. No ar, aquele cheiro indecifrável. Nas pessoas, aquele aspecto amarelado e doentio. A ânsia pelo progresso e a modernidade eliminava o mínimo de decência que ainda existia. Ora, quem iria contradizer aqueles homens vindos de fora, principalmente os técnicos americanos que diziam que aquilo seria uma questão de adaptação com os novos tempos. Sabemos que a natureza não se adaptou ou, se o fez, foi disseminando esses males que nos metamorfosearam nesses seres indecifráveis que somos. Nossos vizinhos já sentem também os efeitos da fábrica. Perderam, como nós, visitantes atraídos pelas  belezas naturais que nos rodeavam. De nossas cachoeiras, dizem alguns que ainda conseguem enxergar, descem detritos e animais mortos que logo ficaram nos leitos dos rios aumentando ainda mais o mau cheiro.

Cheiro é uma coisa de que podemos falar ainda com certa propriedade. Cheiro de quê? É difícil para nós identificá-lo. Muda com o vento. Sinto seres que passam por mim. Não é preciso visualizá-los. Pelos sons guturais e grotescos que emitem sei que são disformes e de vez em quando ainda os ouço clamando por seus pastores e padres que os abandonaram. Nunca aprenderam a viver sem os mercadores de felicidade.

Reluto em falar que não vejo. Como centenas, ou milhares, sei lá, milhões, tenho a ilusão que vivo, entre esgotos, maus cheiros e vermes indecifráveis. E, antes de me tornar parte total dessa fumaça fétida que me envolve, antes de eu cair num poço mais poluído, ainda lembrarei que houve o verde, a chuva, as coisas simples e saudáveis antes desse progresso que aqui está. A fumaça se intensifica. Já sou quase todo fumaça fétida. Sei que não resistirei a essa minha última crise de tosse que se aproxima.

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