Guerra e Paz

Certos eventos que parecem mínimos no primeiro lance podem tomar proporções monstruosas em um contexto maior. Algo que Walter Benjamin chamou de “constelações”, força motriz de uma imaginação dialética que instaura a crítica no interior de fragmentos. O exercício benjaminiano procurou demonstrar através de eventos isolados – como a poesia de Baudelaire, a reformulação urbana de Paris do século XIX, a fotografia e o advento do cinema, as vitrines da moda, as figuras boêmias da cidade-luz – uma espécie de efeito comum que organiza a vida moderna no interior de um tempo confuso como era aquele período entre-guerras que levou à ascensão do nazismo e ao suicídio deste autor.

A exposição de “Guerra e Paz” – o painel de Cândido Portinari originalmente exposto na sede da ONU – está no Memorial da América Latina. Este evento pode ser pensado como uma das pontas desta constelação… Na outra ponta, as declarações diplomáticas do governo brasileiro em busca de seu lugar (merecido, aliás, como a qualquer outro país) no Conselho de Segurança da ONU; De outro lado, o ovo da serpente que aos poucos vem se retratando no Brasil como um país militarizado, com forças de elite aptas a qualquer missão, executando (sumariamente) as ordens da justiça, o menos democrático dos poderes. Ao lado de tudo isso, declarações de partidos socialistas a favor da greve militar, custe o que custar; e um partido dos trabalhadores pronto para desengavetar de sua Casa Civil, uma luta contra o direito de greve.

Perdoem a confusão dos fatos, a sua apresentação fragmentada, mas esta parece ser a única forma de apreender os desvios em terra brasilis. Entretanto, no interior desta constelação, o destaque para Guerra e Paz pode iluminar algumas tendências que se tece no interior deste turbilhão.

O painel já nasce com controvérsias: por trás de sua narrativa imagética grandiloquente, existe a história do pintor, impedido de ver sua própria obra inaugurada no pavilhão da ONU. Considerado comunista, Portinari foi impedido pela política macarthista de entrar em solo estadunidense. E o criador jamais viu sua obra casada com a arquitetura de Niemeyer. Mais do que os tempos remotos da Guerra Fria, o fato mostra bem o limite da ONU, impotente para defender o artista diante da prepotência americana em dizer quem são os bandidos e quem são os mocinhos.

Quanto ao quadro, em si, já merece uma discussão à parte: não são painéis separados. Embora o artista tenha contrastado com as cores e a presença dos corpos (humanos e animais), há uma dialética que subjaz: natureza e cultura estão dispostas diversamente em dois conjuntos de imagens que se voltam ora para os desígnios eróticos e pacíficos, ora para os desígnios tanatológicos e guerreiros.

Por trás dos painéis, há um espelhamento de imagens: em Guerra, os corpos da população em súplica são controlados e empurrados para os cantos pela natureza dominada e transformada em máquinas de guerra, como os cavaleiros e as bestas; em Paz, os corpos estão espalhados, colocando a relação da natureza na forma do brincar (nas rodas, cantos, jogos infantis) – e mesmo o trabalho está figurado exclusivamente no mundo rural, ressaltando os modos eróticos (sem as despesas da dominação sado-masoquista) da relação do homem com o mundo.

Seria esta dialética que Guerra e Paz ilumina uma constelação na atualidade. A obra de Portinari, presente do governo brasileiro à recente sede das Nações Unidas – marco de uma nova política no mundo Pós-Guerra – não é um contraste apenas de suas imagens. Nos salões da América Latina, e sob a “constelação” de fatos que rondam nossa atualidade, os painéis saltam seu contexto pictórico e assumem a forma de esfinge nacional. O gigantismo da obra assume a figura que questiona sobre as encruzilhadas que temos assumido entre a guerra e a paz. Uma dialética do olhar que faz ver melhor as dicotomias que atravessamos neste início de ano…

Seríamos de fato o Brasil da paz que vendemos para exportação ou, como o ovo da serpente, incubamos uma nova forma militar do terror que assombra a paz dos cemitérios? Vale tudo para sentarmos no Conselho de Segurança da ONU – inclusive ressuscitar programas nucleares? E a esquerda: deve cair na busca insana de não medir seus aliados, apoiando militares e grandes corporações em busca de uma paz que silencia despejos, mediante táticas de guerrilha nada distantes entre PCCs e PMs? Haveria outra forma de esquerda que ultrapassasse o seqüestro dos afetos pelo caos imaginário do medo? Seria esta a verdadeira estratégia da revolução? Talvez saltos sejam necessários, saltos de tigre como os que Benjamin acompanhava atentamente olhando o céu de suas constelações.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *