Guerra do Paraguay de Luiz Rosemberg Filho

           Depois de lançar “Dois Casamento$” (2015), Luiz Rosemberg Filho, cineasta insurgente da velha guarda, trabalha em seu novo longa-metragem intitulado “Guerra do Paraguay”: uma HISTÓRIA em que o protagonista é o tempo, no limiar entre o silêncio, a facínora idiotice e a voz da consciência dos desprovidos. 

(DEPOIMENTO DADO A SINDOVAL AGUIAR – IMAGENS POR RENAUD LEENHARDT)

 

1 – Como e por que um filme sobre a guerra do Paraguay, já que sabemos que foi uma guerra criminosa, como aliás todas as guerras de ontem e de hoje?

R – Não é exatamente um filme preciso sobre essa guerra trágica, vergonhosa e ainda hoje oculta ao saber. O roteiro e o filme partem do Paraguay para chegarmos às guerras de hoje. É uma metáfora poética e pensei em dedicá-lo ao “Dr. Fantástico” do Kubrick e aos “Carabineiros” do Godard. Tento levantar uma discussão ética-criativa sobre essa eterna doença da morte programada hoje por computadores, drones e bombas. Como é possível, em pleno Século XXI, esse massacre entre homens e nações? É pra isso que nos serviu o progresso e a política? É para isso que servem as palavras e os discursos? Por acaso nosso Império estava certo em manchar de sangue a nossa história? Não consigo entender ou aceitar nenhum tipo de guerra, já que somos vendidos como civilizados. Será? Por mais que se ache uma quantidade de heróis aqui e ali, não passam de bufões fantasiados de nobres! Ora, como justificar massacres, mortes de inocentes, medalhas por atos vendidos como heróicos, destruição, intimidação, medos… E tudo banhado de sangue! “O que foi que os Paraguayos nos fizeram? Esta pergunta está no filme, e todos precisam ver a resposta voltando aos cinemas! E como diria Kafka: “No fundo sou um chinês”. E tendo como única paisagem o silêncio! O silêncio que tenta fazer calar a falta de lucidez, a vulgaridade política e a arrogância que de certo modo reterritorializa a caminhada para o fascismo. Fascismo que odeia todo tipo de saber. Daí as tantas e tantas convulsões e incertezas no atual sistema. Sistema onde o agenciamento das guerras é sempre um bom negócio! Mas para poucos!

 

2 – E teria alguma justificativa mais subjetiva ou teórica passar do casamento para guerra?

R – É uma passagem quase que natural. Muitos casamentos não são um campo de guerra cotidiano? E no filme em questão, tanto um como outro são teatralizados, mas não chatos! Em ambos a representação é mais forte que uma aula ruim de história. Ou seja, a história é apresentada e vivida como personagem. Se no casamento o casal tá sempre representando seja lá o que for, nas guerras é o coletivo de um lado e do outro que representa numa busca do reconhecimento. A mídia cria seus heróis, a sociedade os adota como exemplos em livros vagabundos e o sistema educacional usa-os em salas de aula. Tudo um show de nulidades! História e verdade são outros departamentos. Fico envergonhado de ver as infindáveis guerras matando e destruindo civilizações pela TV! A guerra virando espetáculo barato. Mas lucra-se muito com elas né? É só imaginar o quanto lucram as indústrias farmacêuticas, médicas e armamentista! Os gigolôs do inferno! Tudo muito triste.

 

3 – E como é possível lendo seu roteiro e vendo algumas fotos e imagens do trabalho pré montado, filmar uma guerra tão sangrenta, tão imperialista, sem uma só batalha ou tiro?

R – Uma vez mais não opto por nenhum tipo de espetáculo. Não é um filme feito por Hollywood, mas por um jovem produtor independente da marmelada oficial. Não é uma cópia fajuta de um bang-bang vagabundo vivendo uma história que não é nossa. Mas, um desnudamento ético-moral da nossa triste história, uma vez mais teatralizada à la Brecht! Tentamos não fazer com muito pouco um filme chato, bodado e sem inventividade alguma. O Cavi (que também ousou fazer a direção de arte, e fez bem!), nos deu toda liberdade para irmos do roteiro para as filmagens, como bem entendêssemos. Não daria para fazer “Os Inconfidentes” que eu amo, mas não queríamos fazer nossos clássicos históricos espetaculares e detestáveis! Quase todos né? Batalhas, tiros e espetáculos são apropriações histéricas de Hollywood. E são eles que vendem a indústria da guerra em forma de aventura, heroísmos e espetáculo. São eles que sujam de sangue a velha e nova história da humanidade! Fomos por outro caminho. Queríamos um certo fresco Maureano no que tocava a ficção.

 

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4 – Como o senhor acha que o público vai receber?

R – Sempre penso que o público pode ser mais bem tratado. Enganá-lo como faz a TV, é fácil e comum. O cinemão televisivo é isso, e nunca me encantou ou tocou. Cinema é coisa séria, e não BBB onde o que vale é ser lixo, e não verdadeiros seres humanos pensantes! Eu opto uma vez mais pela dúvida. Certo ou errado foi sempre por esse caminho que eu segui como pude! Claro que eu gostaria que o público pudesse gostar. Mas levo também em consideração que o público desde 1964, vem sendo preparado intensivamente pela mídia, para não gostar do bom cinema. Ainda assim vale investir nos sonhos e nas dúvidas. Não faço, nem nunca fiz cinema para enganar o público ou para o meu umbigo!

 

5 – Existe algum paralelo entre este seu filme e o atual cinema brasileiro?

R – Meu cinema dialoga com Ana Carolina, Andrea Tonacci, Sergio Santeiro, Geraldo Veloso, Eduardo Nunes, Joel Yamaji, Joaquim Castro, Zeca Brito, Paulo Augusto Gomes, Maurice Capovilla, Isabel Lacerda, Nelson Pereira dos Santos, Pryscila Betim, Daniel Tonacci, Fabio Carvalho…e por aí vai. Todos com uma linguagem própria e ousada. Penso que, ou o cinema enfrenta de pé os seus tantos demônios, ou vira televisão. Claro que precisamos do mercado, mas não a qualquer preço ou custo! É preciso voltar a um cinema profundo, ousado e criativo. Não querer voltar ao passado, mas ir além do presente! E ir além do presente implica em saber, profundidade e ousadia. Seja lá na ficção ou no documentário.

 

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6 – E que motivo o levou a manter o mesmo elenco do filme anterior?

R – Primeiro de tudo é que as duas atrizes são ótimas! Mergulharam de cabeça e foram fundo. Durante os ensaios as experimentações passaram por muitos deslocamentos, dúvidas e realidades próximas ou mesmo distantes. Patrícia Niedermeier, Ana Abbott, Alexandre Dacosta, Chico Diaz deram densidades poéticas nos seus gestos contidos pela miséria, pela fome e pela dor a um texto que poderia cair só numa discussão moral sobre a guerra, como alienação e recurso militarizado dos continentes. Isso para citar um dos focos do trabalho, diferenciado do “cinema” hegemônico da TV, que mancha de lama nossa cinematografia. Uma vez mais demos, sim, uma existência crítica teatral à guerra, só que de maneira delicada e poética. Aguçamos contradições nossas e descobrimos imagens dançantes no vazio do país. Fomos dando clareza a imobilidade de um tempo áspero e sem expressão criativa alguma. Ora, o que são as produções criminosas da TV? É, sim, uma enfatização egoica de fascismos! E os muitos alienados que a fazem, nem se percebem como cãezinhos de estimação desse fascismo. Já com a nossa desconstrução da guerra como espetáculo intimidatório de povos e nações, buscamos alcançar uma dor de experiências dentro de cada um. As atrizes e os atores desengatilharam-se do comum e jogaram-se em múltiplas dimensões poéticas ousadas. São mais que atores – deuses rebeldes e afetuosos. Esse quarteto solar ousou mergulhar fundo nos meus tantos medos e angústias colocados nas guerras de ontem e de hoje. E…fomos fundo nos nossos tantos horrores e limitações. Os temos né? Ou seja, amei e amo trabalhar com atores que se abandonam em experiências mais ousadas. E é o caso desses quatro, que de modo algum ficam cacarejando egos! Têm consciência da essência do tema e das personagens e vão sempre além. Digamos: são luzes negras subversivas onde repousam com seus demônios e renascem como expressão cênica do corpo como história.

 

7 – O senhor disse num artigo dedicado às atrizes de “Dois Casamento$”, que este seu “Guerra do Paraguay” seria uma espécie de volta ou retomada do também seu “Jardim das Espumas”. Faz ou tem algum sentido?

R – O “Jardim das Espumas” foi um filme de juventude pensado e vivido em plena ditadura. Estávamos influenciados pelos textos do trabalho do Grotowiski, via Barba, que se adaptavam em ponto e vírgula aos nossos tantos horrores vividos no país, e as magistrais montagens de Zé Celso no Teatro Oficina. Fazíamos na época um filme brutal de demolição da ordem vigente. Fomos ao inferno sem passaporte de volta e ficamos perdidos pelas décadas entre um deus inexistente e o convívio com os nossos tantos demônios. Já em “Guerra do Paraguay”, apesar de ter uma história de lama, sangue e dor, fizemos um trabalho menos sofrido pois não queríamos cafetinar a violência como instrumento de intimidação. A história já é por demais violenta e nossa tentativa não foi de espetacularizá-la, que seria o mais fácil. Fomos por outros caminhos muito além dos conceitos históricos ufanistas! Queríamos nos associar ao risco, à poesia, ao corpo, a uma sensibilização de todos. Inclusive do espectador!

 

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8 – Não seria no caso uma visão menos experimental da história e do cinema, já que uma certa leveza e humor predomina já no roteiro?

R – Na juventude, tendo-se o mínimo de condições, pode-se ousar tudo. E ousamos! Já na maturidade sem grana é mais perigoso se ousar num país propositalmente burrificado como o nosso. Vendem-nos como “pátria educadora”, mas querem acabar com o Ministério da Cultura! Todos os governos do passado e do presente ousaram desacreditar da sensibilização cultural do povo. E no lugar de lhe oferecerem a nata do saber, o entupiram de Xuxa, Malafaias, BBB… Aí fica difícil de se gostar de um cinema livre e criativo. Ainda assim investimos num discurso irreverente, terno e criativo. O não-politicamente correto pode ser também fecundo. A comédia pode ser séria, e vemos isso em Martins Pena, Goldoni, Molière… Brecht, então, usou e abusou do humor. Nos permitimos fazer uma doce homenagem ao seu “Mãe Coragem”.

 

9 – E de que modo a História entra como personagem neste seu trabalho?

R – Fizemos um filme até certo ponto fácil de ser entendido, sem cairmos na mesmice da história na TV. A história no filme é, na verdade, a personagem principal e se divide em dois tempos aparentemente sem nexo. Ela aparece fortemente nas personagens determinando a clausura opressiva da fome frente à inércia idiota da política e das guerras. E a desagregação provocada pelas guerras é a pulsão do eterno recomeçar sem expressão humana alguma. Tudo vai sendo levado à insignificância das instituições do capital, das religiões. Ou seja, filmamos um montão de ruínas e tristezas secretas. Uma sucessão de horrores falados. E a ideia da história como personagem foi um feliz achado substancial da poesia.

 

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10 – E como foi seu relacionamento com seu montador, fotógrafo e com o Cavi Borges como produtor?

R – O montador Arthur Frazão está trabalhando com o material agora, e fez um primeiro corte lindo. É um queridíssimo amigo e já montou no passado recente um média meu chamado “Nossas Imagens” que está no youtube. É uma pessoa atenta, jovem e criativa. E, melhor que tudo, humana, doce e afetuosa. Sempre gostei muito dele. Vinicius Brum foi o mesmo que fotografou “Dois Casamento$”, é um esteta sério e rigoroso. Não é só um ótimo fotógrafo, mas um escultor que faz música com as imagens. Cavi não precisa ser elogiado como produtor pois sabe respeitar o processo criativo de todos. Sua única limitação, se é que posso falar assim, é ter ódio da burocracia e ter de se matar de trabalhar. Ainda assim faz, sabe fazer e consegue o que quer. Se tivesse algum dinheiro botaria todos os nossos velhos e novos produtores no bolso, pois gosta de ousar respeitando o trabalho criativo do outro. O que é raro no nosso pobre e empobrecido cinema, né? Nossos “produtores” de um modo geral são ridículos e patéticos. Não fazem cinema pela invenção, mas só pela “nota” que vem fácil pelo dinheiro público.

 

11 – O seu cinema, com filmes ainda experimentais aos 70 anos, tem algum futuro num mercado tão baixo e envenenado pela TV e pelas majors?

R – Tudo vai depender da história da humanidade e do nosso país. Se a escatologia for o destino do país, apenas substituiremos nossa frágil democracia pelo fascismo sempre presente nas velhas republiquetas. No Brasil o recomeçar é sempre um ofício que acaba em desagregação, dor e anarquia de direita. Nosso desejo de Democracia sempre acaba num atestado de óbito. O país segue preferindo fantoches partidarizados a seres humanos pensantes. Idiotas a poetas. A dor ao prazer. A falta de escrúpulos ao humano. O desumano à razão. E nesse quadro de horrores fica difícil de acreditar num futuro melhor. Como é possível acreditar em homens como Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Ronaldo Caiado, Kátia Abreu e tantos outros que só nos envergonham? O cinema necessita de um país mais transparente! Não só um país, mas uma Nação potente, rica e criativa. Fundamentalmente ousada!

 

12 – O senhor está filmando o que quer nessa volta ao longa-metragem?

R – O Cavi não cria obstáculos para a criação, e eu já falei sobre isso. Mas estamos filmando o possível sem apoio estatal algum; o que, convenhamos, é uma vergonha pois dinheiro público não é para financiar comédias idiotas da TV. Mas não temos força política para mostrarmos aos imundos burocratas da Ancine que não somos canalhas ou oportunistas como muitos lá de dentro. E o que querem os burocratas? Um cinema burro, boçal, sombrio, sufocante, mentiroso, negativo, fútil, baboseira…. uma espécie de niilificação do horror de suas vidas medíocres! Querem só o poder! Não à toa estão ligados a partidos político medíocres e que sempre odiaram o saber. E uma vez sem essência alguma vão ressuscitando fascismos. Não lhes bastou a agonia de vinte e um anos de dor e de morte. E de certo modo prolongam esse estado de horror.

 

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13 – Uma pergunta pessoal, mas o senhor não precisa responder: a guerra não reflete de certo modo o seu sentido ocasional de beligerância?

R – Respondo sim. Não sou beligerante e sim um autor sintonizado com o meu tempo. Só me afasto ou rompo com picaretas, fracos, idiotas, deslumbrados, oportunistas, sem talento, megalomaníacos, egoicos, palhaços, traidores… Hoje, já mais velho, me falta um entendimento mais rápido para perceber o que o sujeito é, pois tem muitos recursos para se esconder e se passar como gato e não como rato. Sou até tolerante demais, e muitas vezes já os elogiei em textos publicados, o que ninguém mais fará com alguma profundidade. Mas…não me sinto culpado ou arrependido. Erra-se, né? Mas uma vez rompida as relações, prefiro mantê-los o mais longe possível, e para sempre alimento esse rompimento! Solidariedade e amizade são coisas sérias e não as troco por nada. Tenho amigos como Renaud Leenhardt, Pedrinho de Morais, Analu Prestes, Antonio Luis Soares, Andrea Tonacci, Joel Yamaji, José Carlos Asbeg, Daniel Tonacci, você mesmo… que não troco por sucesso ou poder algum. Amo e defendo quase todos os atores com quem tive a sorte de trabalhar. Me refiro a atores e não a remendos vindos da moda ou da TV. Verdadeiramente defendi e defendo os verdadeiros e poucos amigos. E faço questão de manter os velhos e novos inimigos bem longe! Quem gosta de traidores são os muitos partidos políticos e os governos de um modo geral. Amizade é afeto, respeito, responsabilidade e troca. Quero viver as grandes paixões e não o “prego” desta ou daquela comissãozinha que vai aceitar ou aprovar o meu trabalho num festival de M…. Ou numa empresa governamental de financiamento. Me desculpe, mas quero-os longe de mim. Não me fazem a menor falta. Como não têm talento para criar vão ficar em repartições públicas vivendo de sacanear o outro e escrevendo livrinhos para chegarem num ministério. E chegam, o que é pior! São nossos podres poderes constituídos né? Tenho mais o que fazer e ler em vez de perder tempo com esse tipo menor de gente só interessada em “brilhar” e trair, objetivando um cargo público onde possam ter poder pra sacanear os poucos que ainda pensam e sonham. Gente sem grandeza alguma! E não me incomodo de modo algum de tê-los como inimigos, e não ser por eles gostado. Esses rompimentos me tornam humanamente melhor e mais forte!

 

               FIM  

Dalila Martins, pesquisadora e crítica de cinema e artes visuais. É bacharel em Audiovisual e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA-USP.

Um comentário em “Guerra do Paraguay de Luiz Rosemberg Filho

  1. Muito bom!.As falas de mestre Rosenberg e suas obras sao de uma realidade nua e crua !. – No osso . Mostram realidades que muitas pessoas não querem nem pensar…Com isto não quero dizer que ele não seja um sonhador e nem poderia afimar isto ja que tive pouco contato com ele… Falo baseada em suas obras e por não desistir do cinema nacional.Parabéns Mestre Rosemberg!.

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