Nota sobre a gravação da roda de samba, ou sobre como a técnica também é estética.

  Por outras palavras: o valor singular da obra de arte “autêntica” tem o seu fundamento no ritual em que adquiriu o seu valor de uso original e primeiro”. W. Benjamin   Chego ao ECLA no fim da tarde. Hoje à noite gravaremos uma cena do filme “Jovens Infelizes” aqui no espaço cultural, e será uma das cenas mais bonitas do filme, e também uma das mais complicadas tecnicamente. Hoje teremos a roda de samba tocando ao vivo. Monto meu gravador e começo a pensar no que fazer no dia. Não temos grandes recursos para gravar, meu gravador de 6 canais é tido como brinquedo para os técnicos de som “consagrados” pelo cinema. A mesa de som do espaço também não é boa, de uma das marcas que menos gosto de trabalhar, e ainda assim percebo que terei que usá-la para mixar alguns instrumentos da roda. Uso os microfones que temos ao alcance, alguns muito ruins, outros melhores, mas nada com uma qualidade excepcional. Às 19, os sambistas começam a chegar, e o primeiro é meu grande camarada e voz da roda da roda de samba, Selito SD. Logo, todos estão tomando uma cerveja na mesa, afinando os instrumentos e se preparando para começar. A relação minha com a roda não é o que seria a tradicional relação de técnico som com os músicos que vai gravar. Essa relação precisa ser diferente. A roda não está ali pra mim, nem pro filme, ela está lá e pronto. Em algum momento vamos gravar uma cena, mas o rito de fazer a roda de samba é maior do que essas coisas. Nas reflexões sobre essa gravação, penso que colocar a roda de samba num estúdio, gravar instrumento por instrumento, com um metrônomo, e da maneira como se gravam todas as coisas hoje, seria matar isso. Como diz o camarada Selito, o samba de verdade vai muito além da música, é a maneira de viver, é o rito da roda. Penso que é a mesa cheia de cerveja e cachaça, as pessoas ao lado, o som de conversa alegre no fundo. Gravando a roda, não posso ser o técnico de som alheio a tudo, que chega e impõe como tudo vai ser, tudo em nome de captar o melhor som, mais limpo e mais bonito. Não, ali sou também integrante da roda, e daí, na alegria de fazer parte dela, na maneira mais respeitosa possível faço meu trabalho. O resultado é pulsante. O momento gravado ali, sem farsa, ainda que cinema seja a arte de enganar, gravo o que é a roda de verdade. E assim, sem edição alguma, com a mixagem que fiz na hora, vejo que a música está pronta. Com os canais separados eu podia mixar a música de novo, talvez chegasse num resultado esteticamente mais “comum”, mas perderia as escolhas do momento, que também fizeram parte daquele ritual. O resultado é esse:  Foto roda

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *