Girimunho: uma história dos recantos

Seria mais um destes documentários antropológicos que narram a história de uma cultura fatalmente devastada pelos tempos modernos, se não fosse uma coisa: a força da ficção. Pois o tema de Girimunho argumenta sobre o recanto esquecido do Brasil, ou ainda, de uma cultura que está para ser esquecida com a morte de seus protagonistas. A história se passa na cidade de São Romão, interior de Minas Gerais, e recorta a trama de Bastú e Maria do Boi – duas senhoras de quase 80 anos, enfrentando a questão central da vida e da morte. É nesta tensão que o filme sai do registro do documentário e segue para o terreno da ficção, ou ainda mais, da metafísica – nos velhos moldes do mineiro Guimarães Rosa.

Bastú acaba de perder seu marido Feliciano; ela não chora, pois a alegria do amor não admitia o sinal de tristeza – embora a dor do luto permaneça como um fantasma. Maria do Boi segue transmitindo seus cânticos presentes nas festas de sua comunidade. Nos cânticos, o sentimento de perda e de como superá-la pode ser uma das tônicas fortes. E a dança, a festa, um modo astuto de ganhar sobre o tempo, que nunca pára; quem pára, somos nós. É na festa que as questões existenciais de Maria e Bastú se apresentam, um lugar que aos poucos deixa de existir.

Esta questão existencial atravessa os personagens e chega às novas gerações. O conflito das duas senhoras com as novas gerações é o debate central sobre como dar seguimento à vida. A tensão entre Bastú, Branca e Batatinha espelha o modo como estes horizontes se comunicam. Branca, que mora com Bastú, anseia por dar seguimento aos estudos em Pirapora. Batatinha vem de fora e acolhe os sofrimentos de luto de sua avó. Maria também tensiona com seu neto, para quem ensina os cânticos guardados na memória. Aqui, a área de conflito não está no desejo do neto em sair de sua cultura. Pelo contrário: envolvido com a cultura dos seus, toda a dificuldade está em para quem e quando apresentar estas cantigas. Cantar fora das festas, apresentar os cânticos que aprendeu com sua avó para outros de fora do círculo é algo que irrita profundamente Maria do Boi.  Não se trata de purismo por parte dela. O registro do contraste entre a festa popular “artesanal” (representada pelo registro de preparação do boi para a cerimônia) e a festa popular “moderna” (registrada pelo espetáculo da banda “Corpo Suado”, regida por Batatinha) mostra bem o significado desta transação da cultura sem pensar o circuito por onde ela circula. Um mundo engolido por outro. Um ato que a todo instante corre o risco de virar espetáculo.

Metafísica do claro e do escuro

Seria espetáculo se a decisão tomada pelos diretores (Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina) se deixasse guiar pela vitimização das suas protagonistas. Como se apenas registrassem nostalgicamente a imagem de um mundo que estava se acabando. Ou, de outro modo, como se apreendessem aquela cultura como uma pura força, cuja mística não estivesse a todo instante posto a risco pela dialética da civilização. A decisão de escaparem ao quadro documental pura e simplesmente confere ao conflito do filme um caminho terceiro.

Há uma escolha estética fundamental que sustenta todo o conflito. Na fotografia, o uso das luzes da aurora, do crepúsculo e da noite, com raras cenas em que os personagens estão sob o sol, levam nosso olhar para o campo deste claro-escuro. As imagens não são regidas pela claridade do meio-dia. Do início a quase até o fim, os personagens estão misturados na penumbra. Por vezes, a sombra está em primeiro plano, deixando nosso olhar na busca dos personagens, na busca da ação que atravessa a imagem. Isso dá força para o som – lembrando que os cânticos são centrais na trama – sem perder o essencial imagético da arte do cinema. Mais ainda, confere força ao conflito perdido em meio à escuridão. E, neste sentido, as personagens não são claras e distintas, mas estão ligadas à imagem e semelhança da aurora e do crepúsculo de seus dias.

Girimunho procura, assim, encarar a cultura na sua ambiguidade. Sequer seu nome é explicado – o que não é uma falha, mas uma virtude no contexto pedagógico de nossos tempos. Os diretores nos oferecem outra experiência: estamos diante dos possíveis significados do termo pela sequência das imagens – e é vária e rica sua semântica. Deste modo, Girimunho não está na ambiguidade que integra seus opostos, mas na que aponta questões. E é neste jogo de sombras que a força de Girimunho se movimenta.

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