Galo Galinha! Poesia inédita do poeta brasileiro mais festejado: Ferreira juGular!

A Zagaia tem a honra de receber nesta edição uma poesia do nobre notável Ferreira juGular que  honrou a revista com este auto-retrato que aqui nos é apresentado:

 

Galo Galinha (auto-retrato do poeta enquanto mercadoria)

à Ferreira Gullar in memorian   O poeta no jornal quieto. Galo galinha de alarmante crista, guerreiro? jornalista.   De córneo chifre e esporrões, melado contra o povo, passeia.   Mede os passos. Pára. Inclina a cabeça coroada diante do chefe:   — para que mais coisas ?   — a quem eu defendo ? Anda. No saguão. A consciência esquece o seu último passo.   Galinha: as penas que fenecem da covardia silenciosa e duro bico e as unhas e o olho sem amor. Grave solidez de bruxa velha. Em que se apóia tal arquitetura ?   Saberá que, no centro de seu corpo, um grito se cala? Como, porém, conter, uma vez concluído, o artigo obrigatório?   Eis que bate as asas, vai morrer, encurva o vertiginoso pescoço donde o canto rubro escoa   Mas o povo, a margem, o passado do poeta subsistem ao grito. Vê-se: o jornalista é inútil.   O poeta permanece — apesar de todo o seu porte marcial — só, desamparado, num saguão da Folha. Pobre e triste cegueira!   Outro grito cresce agora no sigilo de seu corpo; grito que, sem essas penas e esporrões e crista e sobretudo sem esse olhar de ódio, não seria tão rouco e sangrento   Artigo, fruto obscuro e extremo dessa galinha: poeta. Mas que, fora dele, é mero complemento de página.

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