Falta

Crise iminente. Pânico generalizado. Nas ruas, as pessoas pensam nos culpados e se haverá água em casa quando voltar do trabalho. A troca de palavras entre elas tem peso de resignação, sobre como cada um planeja viver a sua falta de água.

O fato é que em breve viveremos a escassez da água na metrópole mais populosa do país.

Disse “fato”, não novidade: esta é realidade de muitos cantos periféricos da cidade – coisa de décadas que se afunda mais e mais hoje, alcançando a todos.

No bate-papo com Mino Carta, ele centrou em um lugar correto. Falta imaginação.

Não se trata de uma imaginação do povo brasuca, cheio de amor e criatividade para dar – como nos vendem a imagem nacional. O que se reproduz do povo criativo é sua incrível capacidade de criar gambiarras e seguir vivendo em um poço cada vez mais cheio de lama e detritos químicos.

Às vésperas do Carnaval, é incrível notarmos para onde vai a imaginação racionada de nossos dias. Aqui e ali surgirão blocos satirizando com força o destino que bate à nossa porta. Um pinga-pinga crítico importante, mas insuficiente dado o tamanho da crise.

No fim das contas, venceu o imaginário apocalíptico que Hollywood nos vende diariamente. Indústria cultural no seu melhor estilo que reproduz suas imagens no cenário espetacular cotidiano. As informações de hoje lembram mais a catástrofe que já aconteceu, mostrando a inteligência do indivíduo em sobreviver ao deserto. Um Robson Crusoé sem recursos, sem Sexta-Feira, sem água, sem caneta e diário para registrar o sofrimento. É a síndica do prédio cortando a água dos condôminos, o pequeno empresário do restaurante comprando copos de plástico, o pequeno agricultor reutilizando água para garantir uma parte de sua produção. Quem lava a calçada é notado por muitos como um serial-killer!

Em meio à neblina de indivíduos tentando salvar suas vidas secas, ocultam-se vozes diversas. Afinal, o que Kátia Abreu fala do assunto (ou aguardará o momento adequado quando a safra for pequena demais para os lucros, e então, defenderá sua classe)? Como executivos da Nestlé ou da Coca-cola justificam sua produção? O que as grandes construtoras que plantam prédios como se fosse grama nas metrópoles, sem qualquer plano diretor que a contenham, têm a dizer?

Nossa imaginação política não sente a falta destas vozes. Elas parecem bem representadas com o jogo de gato e rato que a Sabesp nos impôs até agora. Jogos de palavras com trocadilhos nefastos da tecno-burocracia (com apelos à impasses teológicos com São Pedro!!!), ocultamentos de seus acionistas, castigo aos seus consumidores, até que consigam o milagre neoliberal de transformar água em mercadoria.

Até agora vivemos a imaginação política da resignação.  Com exceção de algumas cidades (veja o caso de Itu em resposta ao racionamento de meses), imaginamos nosso dia-a-dia sob as regras do jogo da escassez que nos foram impostas. No máximo, protestou-se com o direito de consumidor. Ferramenta impotente quando o jogo é de lobos e cordeiros.

Se falta a imaginação, como nos diz Mino Carta? Certamente. Não aquela solta no ar, do delírio blasé; nem a que nos faz aproveitar migalhas. Falta a imaginação da recusa: quebrar o gerenciamento desta crise, calar os gestores da seca, dar nova voz para o uso da água como direito social. Trazer para as comunidades o direito de gerenciar suas próprias vidas. Fazer da recusa uma Cantareira política, eis o que falta imaginar. 

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