Existe poesia após a queda do Muro de Berlim?

Hermanos,

 

Nosotros nacimos de la noche En ella vivimos Y moriremos en ella Pero la luz será mañana para los más Para todos aquellos que hoy lloran la noche Para quienes se niega el día Para todos la luz Para todos todos

 

Nuestra lucha es por hacernos escuchar Y el mal gobierno grita soberbia Y tapa con cañones sus oídos Nuestra lucha es por un trabajo justo y digno Y el mal gobierno compra y vende cuerpos y vergüenzas Nuestra lucha es por la vida Y el mal gobierno oferta muerte como futuro Nuestra lucha es por la justicia Y el mal gobierno se llena de criminales y asesinos Nuestra lucha es por la paz Y el mal gobierno anuncia guerra y destrucción

 

Techo, tierra, trabajo, pan, salud, educación, Independencia, democracia, libertad

 

Estas fueron nuestras demandas En la larga noche de los 500 años Estas son hoy nuestras exigencias

Discurso do Subcomandante Insurgente Marcos,

a partir de Mano Chao, Para todos, todos.

É possível poesia após a queda do Muro de Berlim? Graças ao Subcomandante Insurgente Marcos, afirma-se sem titubeios um “sim” sonoro e claro que ecoa no meio das selvas, no coração dos excluídos, no lugar onde não tocam as garras que fazem dos homens verdadeiras empresas de si mesmos.

Já não é a primeira vez que os zapatistas ocupam as páginas de nossa Zagaia. E o evento recente do anúncio do fim da figura do Subcomandante Marcos exige uma reflexão. Porque, novamente, foi um exemplo estético e político de grande potência.

Iniciado em 1983 com um pequeno grupo de indígenas e mestiços na Selva Lancadona em Chiapas, os passos que deram tornaram-lhes gigantes em 1994, quando o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) declarou guerra ao Estado Mexicano em resposta aos ataques neoliberais implantados pelos TLC (Tratados de Livre Comércio).

Resposta aos tempos difíceis que seguem após a queda do Muro de Berlim, marco significativo não apenas geopolítico, mas no imaginário da luta. Pois o mundo não seria mais dividido entre dois blocos: o império americano versus países soviéticos. Com a queda do Muro, outros muros foram levantados, outros internalizados. Tornava-se forte o discurso neoliberal de que não havia alternativas. E o mundo seria repartido em 3 grandes zonas: os Tigres Asiáticos (que hoje parecem gatinhos à sombra da secular China), a Zona Europeia (sem comentários quanto ao seu destino em chagas de lutas) e a América para os americanos. No fundo, deste cenário, o mundo parecia um bolo repartido entre neoliberais em festa. Até hoje, o baile continua.

Pois bem, a poesia guerrilheira dos zapatistas encontra na lírica épica de Marcos um porta-voz à altura. As mensagens de Marcos alimentavam um imaginário de luta que se difundiu entre os movimentos anti-globalização, que articulava novas teorias sobre o poder, que fazia da revolução um tema contemporâneo.

 

Lição maior de sua poética: é o imaginário, estúpido!

Definitivamente não é a economia que move o mundo. Mas também um imaginário que pisa na terra. Porque a poesia do Sub nos leva por entre os labirintos que criou com os zapatistas na Selva Lancadona. Labirintos que faziam a população indígena se encontrar de maneira autônoma. Em meio à guerra contra o Estado Mexicano, os zapatistas expulsaram os serviços estatais de educação e saúde. Não é uma decisão fácil na miséria de Chiapas. No entanto, não queriam ser tutelados por aqueles que sempre lhes caçaram.

Talvez seja romântico demais dizer que “conquistavam o mundo sem tomar o poder”, como concebe John Holloway. Decerto, desde 2003, os zapatistas haviam sumido do cenário político mexicano. Em meio às eleições, El Sub circulava em diversas cidadelas mexicanas, travando um debate com a população. Não pleiteava votos. Pelo contrário, queria entender a situação. Apoiou o voto nulo – maneira de negar a máquina de poder que engole a todos nas opções de um mundo sem alternativas.

Mas isso não é deixar de tomar o poder. E sim, uma nova maneira de pensar o poder. Um poder que circula sem verticalismos homogeneizantes, muitas vezes presentes na confusão entre democratismo e democracia – confusão que persiste nos movimentos ditos autonomistas. No sub de Marcos havia uma hierarquia clara: “aqui o povo manda e o governo obedece”. Em meio aos Caracoles, um novo imaginário político se implanta. Contradições, claro, existem. Mas reconhecê-las é a possibilidade de uma sociedade em movimento.

Os princípios que organizam os Caracoles e as Juntas do Bom Governo expressam diretamente uma normatividade dinâmica:

1. Servir e não se servir;

2. Representar e não suplantar;

3. Construir e não destruir;

 4. Obedecer e não mandar;

5. Propor e não impor;

6. Convencer e não vencer;

7. Baixar e não subir. 

A negação posta sobre o que domina. Portanto, insistimos, não se trata de não tomar o poder. Mas sim, de colocar o poder em movimento, à disposição de todos. Um poder que nasce na noite dos tempos.

O desaparecimento anunciado do Subcomandante Marcos é um ato político de grande ordem. Resposta ao assassinato de Galeano (irônica e tragicamente o homônimo do uruguaio das Veias abertas da América Latina). Crime que exige uma resposta política à altura.

Passo consequente na direção de pensar um poder que nos leve adiante.

 

Desaparecer para avançar

Escutaram? É o som do seu mundo desmoronando. É o do nosso ressurgindo. O dia que foi o dia, era noite. E noite será o dia que se tornará o dia.

Democracia! Liberdade! Justiça!

Das montanhas do Sudeste Mexicano Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do EZLN Subcomandante Insurgente Marcos México, Dezembro de 2012

Desaparecer corresponde a Marcha silenciosa que os zapatistas promoveram no dia 21 de dezembro de 2012 (do nosso calendário).

Escutaram? É o silêncio que ironiza no dia do calendário Maia do fim do ciclo. Maias que vivem o tempo circular e, portanto, pensar o fim, significa o início.

Diga-se de passagem, a Marcha aparecia em momento conturbado. O retorno do conservador PRI ao poder, as manifestações dos estudantes mexicanos nos centros urbanos. Em meio ao discurso cínico do presidente recém-eleito Enrique Peña Nieto e ao barulho de gás e quebra-quebra nas ruas da cidade do México, surge das selvas o retumbante silêncio.

E ele nunca foi tão potente. Pois marcava o retorno dos zapatistas no cenário público. Ausentes neste espaço desde 2003o silêncio continha uma mensagem de fundo. Como se dissessem: “Basta! No silêncio vivemos e em silêncio marchamos. Vivemos autônomos sem a democracia falida de vocês. Se hoje é o fim de um ciclo, não apenas nós desaparecemos, mas também tudo aquilo que vocês representam. Porém, nós continuamos”.

Nesse sentido, desaparecer é um ato comum à noite em que nasceram e morreram, ao silêncio da marcha e ao poder que circula. É aí que podemos compreender as ações zapatistas desde sua primeira guerrilha poética até o desaparecimento anunciado de Marcos.

No fim das contas, El Subcomandante Insurgente Marcos prepara sua última poesia de maneira épica: ele não anunciou seu desaparecimento, ele se espalhou entre muitos. 

 

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