Eu e Carlos. [Será.Foi.[ – Poesia

poema do romance AFAT (2003-2009) ainda sem publicação

É lua cheia. Eu sofro. De um vazio do tamanho que me preenche. O vazio. Na medida da completude de mim. Hoje, eu sou ar. Não há raiz alguma que me suporte. Eu sou ar escorrendo. Escorrem lembranças. E o corpo transige na confluência do amor. Sinto-me dispersa, anterior às fronteiras. A vontade de amar me paralisa o trabalho. E o hábito de sofrer faz de mim meu dia. Mas como dói. E há tanto hás preciso. É preciso, é preciso. Anunciar o fim do mundo. E eu anuncio meu fim. Na minha única necessidade. O meu nome era um; hoje é outro que morreu antes. E eu não sou desse mundo. Sei que não sou. E sua boca beija a minha e diz dos outros planetas que se queimam num fogo que arde e não nos vê. Eu sou estrela. Mas morri. E você não vai ser tempo. E eu não me conformo. De você de mim e do fora de mim. Do que há fora e dentro de nós. E vai. E me perturbam. Ainda. Os sons. Todos. Não sei como libertar-me.

Hoje não há carne.

Eu sou quase um vapor.

E você não me abraça.

E eu vivo dissolvendo.

E você se perde.

E eu nunca estou consolada, nunca disse tudo o que queria, nunca subimos àquela nuvem, nunca cintilamos.

Há num espelho seu reflexo,

E num outro – partido –

meu resto.

Ninguém compreende.

E o sol, ah, querido

O Sol não rompe.

Nem naquele sonho em que futura a futura libertação de nossos instintos.

Sinto que o mar me acovardou, e eu já não posso passar.

E você permanece aí, em terra firme, eu, no meio fundo dessa água.

Vem, beija meu rosto, traz-me a esperança de compreensão.

Sim, quem sabe um dia (…)

Às 16h30min há essa menina da água. Não há ninguém mais no mundo. Chorando. Há lá longe um som: um batuque: algo quente e duro e dos deuses, que domina os ruídos das minhas pedras e de minhas folhas; e desce – doce – doído – ao que reside mais embaixo de mim. Desce em gentileza.

Me rouba e me acalenta.

E eu sou só medo.

Medo. Meu pai minha mãe e meu companheiro.

Medo.

Não há flores.

E o soluço da vida me rebenta.

Ah, poetas! Chegou vossa hora, venham!

Por favor, venham sem letras, e apaziguem meu ruído.

Esse homem é sólido e o mundo também.

Mas eu sou um cruzador. Louca. Fundeada na água esgotada da cidade. De vida incerta. De

valor inestimável. De amor improvável.

E não sou fiel.

E bebo.

Tudo acontece, menino.

E não lhe importa, menino,

e nada fica nos teus olhos.

A vida é tênue, tênue.

E tua boca não estava.

Eu fiquei com leite, homem, e com álcool.

Só uma estrela guardará o reflexo do meu peito que esvaiu por hoje. E você nunca vai saber.

Você se enrola – e me enrola – num espiral de desejo. Fode comigo.

[E de melancolia.

Você roda no círculo ardente de minha nudez que está para sempre presa no desejo de minha

própria melancolia.

E eu morro. Morri.

Eu morro junto ao mundo que se esvai. Em que tu te esvais.

Sofrimento aguado, sem gesto, invadido, aproximado, calado de orgulho.

és tu mesmo, teu gosto seco

és tu que seco me molha

me faz pungente, inefável

me fere me queima

e não conhece meu mistério

não pode me beijar

e não sucumbe ao

MAR

O combate é dentro de nós. De mim e de você.

Então que a poesia e algum poeta nos encaminhe e nos proteja

dessa opressão desgarrada,

dessa confidência maligna,

desse seu disfarce de pedra,

e desse silêncio que me constrange.

Meus ombros NÃO SUPORTAM O MUNDO NÃO.

E se você bater à porta, eu abro.

E me adianta morrer – eu morro – a morte é minha ordem.

E mistifico tudo,

pra perder tempo

e ganhar vida.

O tempo é minha matéria.

O tempo presente.

O tempo passado.

O tempo.

O outro. Os outros.

Minha carne é triste, e você ainda se perde num corpo vivo.

Não percebe?

Meu corpo de melancolia?

Não sente o gosto das lágrimas que furam e me investem?

És mesmo indiferente. Tolo.

A noite não vai me dissolver. Eu me dissolvi de dia, em ar, quando você se foi – sem me

perguntar o que eu achava disso.

E o amor não vai abrir caminho algum nessa noite.

Eu morri pela manhã.

E permaneci suportando aquelas reticências enclausuradas nos supostos parênteses

em que você me deixou.

Minha carne estremeceu na tua chegada e na tua saída. Foi a inocência. Foi embora. E eu

lhe servi de puta, no meu santuário.

O mundo ficou tingido. E o sangue ficou branco. Ou preto. Mas não vai colorir tua face.

Nem tua boca. Nem a minha.

Você não me beijou,

aurora.

Nem ao chegar, nem ao sair. E não volta mais.

Meu corpo mal conseguiu dormir. Sentou-se durante à noite, como que em frente ao mar.

Sentiu o calmo incenso de brisa. E não se lembra! Nós vamos todos fugir da falta de lembrança de nós mesmos. Fujam! Fujam! Não nos resta.

Lamento. Somos fluxo – idas e vindas – sem dono. E sem amor.

Mas eu te amo, meu bem.

Estou pronta para fugirmos

para outros mundos

Venha!

lá onde está o que é velho e perene

a velha princesa

o velho palácio em ruínas

as ervas crescidas

Sem pressa.

Venha.

Encontra-me

na fuga.

Adeus, meu bem.

Apaga o abajur. Você não deve ver minha fuga.

Eu levo outra chama, que não a sua. Estamos bem.

Meu coração é quase maior que o mundo.

Eu posso suportar a dor.

Achei mesmo que era isso.

Por isso, me dispo me grito: pra pesar menos.

Preciso de todos. E de você: pequeno, não seja tão maior. Tão velho. Olhe-me como um menino. Se apaixone por mim, vai.

Faça isso.

Tu sabes como é grande teu lugar dentro de mim. Mas se faça pequeno para entrar em minha fresta. E não se pinte muito. Quero poucas cores.

Venha.

Feche os olhos e esqueça.

Escuta a água daquele vaso de flores,

de rosas, não é?

Escuta a água

tão calma

não anuncia Nada

nem o princípio do Mundo

Inunda

Meu coração não sabe. Mas aquilo, aquilo mesmo, você: você está crescendo todos os dias.

Entre o fogo, o amor e esse

[olhar frio que olha pra mim.

Não vejo nenhum pensamento de infância, nem saudade, nem vão propósito, não vejo uma lágrima sequer nos seus olhos. Você se faz de seco. E contempla um mundo enorme e parado. A soma da tua vida se finge nula. E positiva na segurança do teu ego. Soa como poder. E é escuro. Sua alma aparece severa, e não interroga, cala.

(…)

Eu fiz uma escolha, compreende?

Heloiza Abdalla (Mogi das Cruzes, 1987). Reside e trabalha em São Paulo. Poeta. Medita a linguagem e a compreensão do tempo na Astrologia e no centro da filosofia de M. Heidegger. É graduada em Ciências Sociais pela Unicamp e colabora com projetos de arte e cultura.

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