Estado, Memória e Esquecimento.

“O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela” BENJAMIN, Teses sobre a história

É bom lembrar que toda a luta lançada na história está sempre sob o risco de ser resignificada: ora para o presente ouvir os mortos do passado em suas lutas, ora para o conformismo silenciar seu passado. A Secretaria Municipal dos Direitos Humanos assume vergonhosamente a segunda posição, pagando o preço das suas parcerias.

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Agenda do Itaú Revolução de 1964

Em conformidade com a agenda do Itaú Cultural, atual administradora do Auditório Ibirapuera, a Secretaria assumiu o compromisso de lançar no Primeiro de Abril, o Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos. Um monumento que já é inaugurado com o esquecimento capital. À sombra do Itaú Cultural, seus organizadores acompanham a agenda da “Revolução de 1964” e optam por fazer uma homenagem de conciliação, quando a ferida continua aberta.

Preferiu estar no conforto do auditório distante do barulho das ruas. Lembremos que neste mesmo dia corria no Centro de São Paulo o quarto desfil&scracho do Cordão da Mentira. É fato que não se pode estar em diversos lugares ao mesmo tempo, mas é fato também que se opta pelo lugar onde se quer ficar. Opta-se também pelas estratégias de aliciamento, usando a máquina do Estado para garantir o evento.

Nada contra os homenageados, mas acreditamos que sua memória não tem o preço que se pagou. O ganho maior poderia vir com um monumento maior, de um Estado que reconhece suas injustiças de ontem e de hoje. Não foi por isso que os homenageados listados em ordem alfabética no monumento outrora lutaram? Não foi para ver um Estado que reconhece as terras indígenas, que não assassina a juventude negra e periférica, que desmilitariza suas mais diversas instâncias institucionais, que não se vende ao brilho financeiro de uma parceria entre inimigos que muitos tombaram?

Muitos dos homenageados faziam expropriações revolucionárias em bancos, e agora, no riso monumental, a Secretaria e seus comparsas exigem o troco. Não há violência maior do que o conformismo sob a forma de pacto.

 

Os esquecidos do monumento

Mas, talvez, o ganho maior – alguns poderiam dizer – está na memória que ficará no parque, em forma de arte. O monumento de ferro e concreto, disputando espaço com outros monumentos do orgulho paulista, diante da Assembleia Legislativa. Nesse sentido, nada mais forte do que grafar em monolitos brancos o nome dos desaparecidos e mortos. Não seria este um troco maior, a despeito do balcão de negócios que se fez com a memória alheia?

Basta prestar atenção, observar bem para o que se configura por entre as estruturas de ferro e concreto. No preto e branco, existe uma longa voz do presente. Um longo texto do prefeito Haddad, em clima de governança.

Nada se diz do movimento de resistência. Nas primeiras linhas estão as justificativas da existência daquele monumento: a pressão da “sociedade civil” (sic) e dos Comitês Internacionais. “Sociedade civil”?? Nada mais neoliberal do que esta nomenclatura, nada mais contrário à memória de quem lutou por um país justo. Afinal de contas, a pressão não vem da sociedade civil, mas de movimentos que lutam até hoje pelo reconhecimento dos crimes do Estado. Na sociedade civil estão todos, inclusive quem anseia loucamente por apagar tal memória.

E o drama continua. Seguindo o texto, uma justificativa da eleição dos nomes grafados. Como o próprio prefeito reconhece, faltam ali os trabalhadores e indígenas desaparecidos. Recorte preciso de um Brasil surgido na violência. Independentemente de quem está ou não na lista do monumento, é interessante frisar a memória seletiva de quem aprovou tal homenagem. Se é bem verdade que não caberia no monumento os nomes de todos, é bem verdade que se elegeram alguns. O que explicita que na forma daquele monumento não cabe o terror que o Estado gerencia. Algo escapa na estrutura que brota do parque: são as vozes dos que ainda hoje são silenciados.

Enquanto isso, tudo parece como alívio. O perigo de que nos falava Benjamin vem deste tipo de conformismo, configurado na forma de vitória que não veio. Ser instrumento das classes dominantes. Nomes listados. Nada diferente pra quem se assume como Estado, agenciando a memória que violou. Os traços da ditadura permanecem, ainda que sob a forma de homenagem. No esquecimento de tudo isso, vem o riso cínico de quem vende memória sob o troco de um Estado que silencia seus mortos.

 

Companhia do Engarrafamento do Tráfego

Sobre as instituições municipais, vale ainda mais uma nota da ausência. Chegou aos membros do Cordão da Mentira uma nota de cobrança da CET por “serviços prestados”, no valor de R$ 600,00. Naturalmente, o grupo recorrerá. Pois passou pelo inferno da burocracia com o carimbo de aceite dos administradores da CET. Surpreendeu-lhes o fato de, na hora do desfile, a CET chegar com ordem contrária, de que não poderia sair. Não era uma brincadeira de Primeiro de Abril, e se negociou, argumentando todo o trâmite pelo que se passou. Ao fim, o cortejo saiu sem saber que da futura cobrança por uma manifestação política-cultural – o que é totalmente ilegítimo.

Parece que a CET é um bicho de duas cabeças, uma instituição que não consegue dirigir a si própria, quanto mais o trânsito de uma cidade como São Paulo. Por tais atitudes, tudo indica que a próxima intervenção do Cordão da Mentira não pedirá licença, desconhecendo a CET de São Paulo como interlocutora de nosso manifesto. Tratamento bem diverso do ocorrido em Santos, cujas poucas viaturas protegeram bravamente os manifestantes do Cordão da Mentira da Baixada Santista, num dia difícil de véspera de feriado prolongado. Quiseramos encontrar uma atitude como essa aqui na capital. Se a cidade quer preservar os seus blocos de carnaval, ainda que fora de época, seria interessante que a Secretaria de Cultura convergisse com a CET.

De todo modo, no Primeiro de Abril de 2016 estaremos nas ruas, com ou sem CET.

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