Esquizofrenia ou dupla personalidade? Confusão entre o ser artista e o ser sambista

 

 Incrível como insistem em confundir o ser artista com o ser sambista ou pertença da cultura samba. Ou representante desta ou aquela cultura constituintes da aquarela cultural brasileira.

Cultura diz respeito a hábito, costume, conjunto de regras de convivência que regulam o cotidiano de grupo de indivíduos, grupo de gente, de determinado grupo de gente, maior ou menor. Penso que isso é básico. No Brasil são muitos e diversificados os grupos de gente que, obviamente, estão submetidos as leis constitucionais que, no entanto,  não desfaz o amplo mosaico cultural que caracteriza o país.

Indo ao que interessa, “papo reto”, para mim, afirmar Adoniran, Aldir Blanc, Eduardo Gudin, Moacyr Luz, Noel, P. C. Pinheiro, Paulo Vanzolini, outros e outras mais como sambistas e, ao mesmo tempo, destituir Arlindo Cruz, Revelação, Exaltasamba e demais pagodeiros, é inaceitável.

Partindo da premissa que samba é cultura e que a cultura é hábito, conjunto de valores, de entes, dentre os quais está a música, a musicalidadeentão as afirmações explicitadas no parágrafo anterior não têm como ser sustentadas. Resultam de delírio, devaneio. Chega a ser irritante a sistemática e contínua confusão de uma coisa com outra. Confundem bisonhamente, no meu entender, cultura e indústria cultural, sem sequer perceber, os “contestadores”, o quanto se encontram submetidos, subjugados. E são, quase sempre, os mesmos “os artistas”, em boa parte, transformadores do popular (no qual mergulham no mais profundo da superficialidade) em camerístico ou biscoito fino para degustação de platéia “refinada”, dada à contemplação fetichizada das coisas todas da vida.

E por não perceberem, “os artistas”, que estão tão submetidos à indústria cultural, da qual inconscientemente se fizeram agentes entretenedores, é que veemente “criticam” aqueles que estão subjugados, tanto quanto, mas providos de muita substância, o que não é o caso dos vorazes “críticos” que estão mais para, café sem cafeína, cerveja sem álcool ou, quando muito, mais para cassoulet que para feijoada, no mais das vezes… Sou levado a pensar que se os artistas da casa grande, os “artistas”, os “críticos” forem submetidos a um aprofundado estudo de caso chegar-se-á a um diagnóstico de transtorno dissociativo de identidade, também chamado de dupla personalidade. Ou a um diagnóstico de alucinações e delírios que caracteriza a esquizofrenia.

Entendo que, como eu, outros mais percebem que o caso é sério e que o buraco é, como sempre, bem mais embaixo. Assim como também entendo que é fato que muitos dos “críticos” não têm, parece, a menor idéia do que falam tal é a profundeza das águas da alienação em que estão afundados – é a impressão que me passam – não entendem patavinas.

E é tanto o fetichismo que nem os conceitos escapam. São entendidos doutrinariamente. Esquecem que também estão “presos” a contextos mais ou menos gerais, que contêm historicidade e, por isso mesmo demandam, de tempos em tempos, (re) discussão para sua “atualização”.

Não conseguem perceber, os “críticos” o fato de que tem muita gente, artista da casa grande, que fez fama e dinheiro como sambista (e ainda foram proclamadas madrinhas e padrinhos, os representantes maiores da cultura dos preteridos), algo de facílima constatação. E enquanto madrinhas  (Claras, Beth’s, Cristinas…) e padrinhos se portam qual os senhores e senhoras de engenho ou, no mínimo, qual os agregados dos engenhos, das fazendas. E tem senhor, senhora e agregado bons. Perversidade com requintes de barbárie. E tem senhor, senhora e agregado maus. Se pautam por lógica semelhante os artistas da casa grande e os “críticos” que, ao que parece, querem mais é seu lugar de agregados dos artistas da casa grande – similar ao dos agregados de outrora.

Portanto, não conseguem (ou não querem) perceber, os “críticos”, que  os artistas da senzala e do quilombo, sambistas de fato, se fizeram (alguns) fama, decerto não fizeram dinheiro. Isso no reduzido universo dos artistas legítimos representantes do grupo de pertença da cultura samba que tiveram acesso, foram percebidos pela indústria cultural.

No mais, no universo expandido da cultura samba muita gente boa, artisticamente falando, não foi e continua não sendo percebida; não tendo acesso à indústria do entretenimento e a consequente oportunidade de aí desenvolver seu trabalho. Decerto que o espaço, quando há, absorve a poucos. E esses poucos (inclusive a parcela dos ditos alternativos) saem dos estratos que gozam de conforto na sociedade e não o contrário. E é um tal de Axé Nórdico, Maracatu Fantasma, Jongo Albino e Samba e Capoeira e Forró e Congado, tudo Universitário de Raiz (de alface hidropônica).

O problema é que a coisa se dá, em se tratando de cultura, num processo que aponta para a maior homogeneização possível. Isso num país cuja população é constituída de um amplo mosaico, de grande e complexa diversidade; de uma excepcional gama de variedade estética. Penso que daí vem a explicação para a insistente e continuada negação daquilo que nos é mais substancial em termos de valores culturais, e que vêm, historicamente, das camadas populares – do chamado populacho.

Para finalizar, afirmo que tudo aqui exposto resulta de um entendimento, a meu ver, equivocado de cultura. Resulta da incapacidade e ou falta de vontade para compreender cultura por um viés não positivista; não evolucionista. A dificuldade se apresenta quando muitos dos que se dizem de esquerda se permitem confundir cultura e entretenimento. Daí…

Selito SD: sambista, compositor e pesquisador ligado ao Movimento Cultural Projeto Nosso Samba de Osasco, Geógrafo pela USP, um dos editores desta revista e integrante do Coletivo Zagaia.

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